Carnaúba [Copernicia prunifera (Miller) H.E. Moore]

by 3/25/2020 11:06:00 AM 0 comentários

Escrevo pouco sobre as plantas da Caatinga, até porque ainda preciso conhecer muito deste maravilhoso bioma. A flora da Caatinga é um espetáculo à parte, tem cactos, bromélias, orquídeas, árvores e palmeiras de rara beleza paisagística e de múltiplas utilidades, principalmente, na vida do povo sertanejo. Mas uma palmeira, em especial, me encanta por sua beleza e versatilidade: a carnaúba. 

Descrição botânica: Planta da família Arecaceae, com raízes fasciculadas (numerosas e profundas), tronco solitário, ereto, cilíndrico, com 7 a 10 m de altura. O caule apresenta marcas da folhas secas que vão caindo. As folhas concentram-se no topo da planta (capitel), verde-claras, em forma de leque, plissadas (bem característica da espécie) e com a extremidade segmentada em filamentos rígidos; cada folha pode medir até 1,2 m de comprimento. Os cachos podem medir até 2 m de comprimento e conter numerosa flores pequenas e amareladas; o fruto é do tipo baga, com 2 cm de comprimento, arroxeado quando maduro. 

Onde ocorre: A carnaubeira é planta típica da Caatinga, endêmica do Brasil, com distribuição natural nas regiões Nordeste, Norte (estado do Tocantins) e Centro-Oeste (em algumas áreas do Mato Grosso). Prefere climas quentes e secos, solos argilosos e aluviais (beira de rios e lagos), suportando bem períodos de inundação durante a época chuvosa. Na Caatinga e em pontos específicos do Cerrado, forma populações quase puras, denominadas palmeirais. As maiores populações naturais de carnaúbas encontram-se nos estados do Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte. 

Palmeiral no Maranhão. Foto: Marcelo Cava (link)
Usos: A carnaúba é conhecida como a “árvore da vida”, pois nela tudo se aproveita. Suas utilidades vão desde a produção de cera até o uso alimentício do palmito e dos frutos. A cera é o produto mais explorado comercialmente, extraída das folhas tanto de forma manual quanto mecanizada. A palha, resultante da extração manual da cera, é usada na produção de artesanato e mantas de revestimento para a indústria petrolífera. A fibra, extraída de forma manual do “olho” da planta, é semelhante à juta, tem alta resistência e é usada na confecção de corda, redes de pesca, artesanato para decoração e moda, ou na produção de compósitos para fins industriais. As raízes tem uso medicinal. O tronco se usa como madeira em pequenas construções, que também podem ser cobertas com a palha das folhas. O palmito e os frutos são usados para alimentação humana e animal. Os frutos também fornecem óleo comestível. 

A beleza plástica da planta a torna uma excelente opção ornamental, especialmente para a região Nordeste, cultivada em praças, parques, jardins e na arborização urbana. A boa tolerância à seca e o clima quente regional, não impede o seu cultivo em outros estados do Brasil, a exemplo dos belos projetos de Burle Marx no Rio de Janeiro, onde extensas aleias de carnaúba sobre gramados ornamentam diversas áreas da Cidade Maravilhosa. 

Uso da carnaúba no paisagismo urbano, Rio de Janeiro-RJ.
A planta é inspiração pura! Encantou o romancista José de Alencar, que a menciona por várias vezes no livro Iracema. Logo na primeira linha ele descreve uma paisagem de “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”. Depois cita os usos: “O ancião fumava à porta, sentado na esteira de carnaúba”; “Poti cortou esteios dos troncos da carnaúba” e por fim, Iracema se alegra ao reencontra sua jandaia nas folhas da palmeira:

“...uma voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba: 
— Iracema!... Iracema!... 
Ergueu ela os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as asas e arrufava as penas com o prazer de vê-la.”
 
Carnaúba e em jardim, Recife-PE.
Aspectos agronômicos: Planta típica de clima quente, cresce em vales de rios e terrenos arenosos e mal drenados. Esses locais concentram água por mais tempo durante o período seco e, combinada com uma espessa camada de cera em suas folhas, impede que as plantas desidratem rapidamente. As plantas podem viver por até 200 anos. 

A produção de mudas é feita por sementes, que devem ser embebidas em água até que seja possível amolecer e remover a polpa, a fim de facilitar a germinação. Sementes plantadas logo após a colheita germinam em até 7 dias, porém, frutos recolhidos do chão, podem levar até 5-6 meses para germinar. A semeadura deve ser feita em condição de meia-sombra, com regas regulares. 

Via de regra, uma muda de palmeira pode levar até 2 anos para estar pronta para o plantio definitivo. O cultivo das plantas pode ser puro ou misto, em sistema consorciado com pasto ou com outras lavouras anuais. No caso de sistemas silvipastoris, é preciso que as plantas estejam bem crescidas antes de soltar os animais, que comem as folhas tenras e podem comprometer o crescimento das plantas. 
 
Paisagismo urbano com carnaúba, Porto Seguro-BA.

Bibliografia recomendada 


QUEIROGA, V.P. et al. Copernicia prunifera – carnaúba. In: CORADIN, L.; CAMILLO, J.; PAREYN, F.G.C. Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou Potencial – Plantas para o Futuro – Região Nordeste. Brasília: MMA, 2018. 1314p. Disponível para download gratuito no Link

0 comentários:

Postar um comentário

Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.