A araucária ou pinheiro-do-paraná é uma planta típica do sul do Brasil e que permeia as memórias afetivas da infância de muitos “guris e gurias”, especialmente pelo sabor inesquecível de sua semente: o pinhão. Sair com o pai em pleno inverno para colher pinhão era uma das minhas atividades mais esperadas durante o ano inteiro. Pinhão assado na grimpa, na chapa, cozinho em água e sal (até hoje meu modo preferido de comer pinhão), na paçoca, no ensopado, pinhão é bom de qualquer jeito. Uma espécie fantástica!!!! 

Entretanto, a exploração madeireira e a destruição da Mata Atlântica e dos fragmentos da mata de araucárias, especialmente no Paraná onde havia extensas áreas preservadas, conduziram a araucária a um rápido processos de extinção, sendo considerada, atualmente, como espécie Em Perigo, de acordo com Centro Nacional de Conservação da Flora. A destruição das matas de araucárias chegou a mais de 80% de sua cobertura original só no último século, período bem inferior ao que demora apenas uma geração da espécie, que é de 120 a 160 anos. Atualmente a espécie é protegida por lei e tem seu corte e exploração madeireira proibidos. Desta forma, o uso do pinhão como alimento, além de oferecer uma opção de renda para os produtores rurais, também é uma forma eficiente de estimular a preservação e novos plantios da espécie, a fim de retirá-la da lista de ameaçadas. 


Descrição botânica: Família Araucariaceae, árvores de grande porte, com folhas pequenas, alternas e dispostas de forma adensada ao longo dos ramos, com extremidade pontiaguda. A copa é aberta e arredondada, característica da espécie. São plantas dioicas (macho e fêmea em plantas separadas) e as fêmeas produzem a pinha, onde estão os frutos (pinhões). Quando maduras, as pinhas caem ou se desfazem ainda na planta, liberando os frutos que são coletados ou disseminados pelos animais. O período entre a floração e a produção dos frutos pode variar entre 20 a 24 meses e a frutificação geralmente se concentra nos meses de inverno, de março a junho, podendo se antecipar ou se entender conforme a região. 


Onde ocorre: A araucária é nativa, porém, não endêmica do Brasil. Sua ocorrência natural vai desde o sul de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo até o Rio Grande do Sul, chegando também ao Paraguai e Argentina. Dependendo da região também recebe denominações diferentes, como pinheiro-preto, pinheiro-araucária, pinheiro-brasileiro, pinho-do-paraná e curi. 

Pinhais - PR
Usos: O uso alimentício das sementes (pinhões) é o que apresenta atualmente maior destaque. Os povos indígenas já usavam o pinhão como alimento bem antes da chegada dos colonizadores que, posteriormente, também incorporaram o pinhão à sua dieta. As sementes podem ser consumidas cozidas em água e sal, assadas ou transformadas em ingredientes de diversos pratos doces ou salgados. Após secagem, os pinhões podem ser pilados ou moídos para a fabricação de farinha para panificação. Do ponto de vista nutricional, o pinhão é rico em amido, proteína e gorduras, sendo considerado um alimento energético de alto valor nutricional. O pinhão fresco, ou seja, logo após colhido, pode ser guardado em temperatura ambiente ou em geladeira por um longo tempo. Se bem acondicionado, pode ser consumido durante o ano todo sem perder o sabor e suas propriedades nutricionais. 

Pinha com seus pinhões. Fonte: Marcio Verdi, Flora Digital.
Mais informações e fotos belíssimas como essa, você encontra no site da Flora Digital do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, no Link 
A madeira (de árvores caídas ou plantios autorizados) pode ser usada na fabricação de móveis, caixotaria e utensílios; os nós (ponto de inserção do galho no tronco da planta) são fonte energética ou usados na produção de peças artesanais. A araucária também pode ser cultivada na arborização urbana de parques e áreas amplas, lembrando sempre que é uma árvore de grande porte e necessita de limpeza e manutenção periódica sobre suas copas. A resina também apresenta uso na indústria química e de aromas. A casca, resina e folhas são usadas na medicina tradicional. 

Uso paisagistico da araucária
Aspectos agronômicos: A propagação da araucária é feita pelas sementes (pinhões), que devem ser enterradas a uma profundidade de 5 a 6 cm, em solo leve e bem drenado. Também é possível efetuar uma pré-germinação das sementes em areia, por 5 semanas, e depois transplantar as mudas para embalagens individuais, até completarem o desenvolvimento. A germinação pode levar de 20 a 110 dias e o transplantio para o local definitivo deve ocorrer quando as mudas atingirem pelo menos 20cm de altura. Nos primeiros meses as mudas devem ser protegidas para evitar que sejam quebradas. 

Jardim Botânico de Curitiba - PR
Curiosidades: A araucária apresenta polinização deficiente, não raro se observa pinhas com mais da metade dos frutos “chochos”, ou seja, só desenvolvem o envoltório externo e por dentro estão vazios. Na serra de Santa Catarina essas estruturas são usadas na produção de um artesanato típico local. A colheita do pinhão não é exatamente uma tarefa fácil, pois, em geral, as árvores são altas e é preciso derrubar as pinhas com auxílio de uma vara de madeira ou pela coragem de um exímio escalador que se habilite chegar até o alto das copas. Uma das formas de selecionar as melhores pinhas é escolher aquelas que se desfazem ao cair, o que indica que os pinhões estão no ponto certo para serem consumidos. 

A gralha-azul é um dos símbolos do estado do Paraná, associada à proteção dos pinhais. Diz a lenda que a gralha-azul dormia tranquilamente sobre os galhos de um pinheiro, quando ouviu golpes de machado e voou rapidamente até o céu para não ver a destruição de sua casa. Chegando lá, Deus a desafiou a voltar e plantar mais pinheiros, desta forma, seria abençoada com um manto azul e se tornaria a protetora dessas árvores. Verdade ou não, a gralha-azul é um dos principais “plantadores de araucária” até os dias de hoje, pois tem o hábito de enterrar os frutos que, com o tempo, brotam e formam novas árvores. 

Linda foto da gralha-azul de autoria de Lucas Menegon, no Faceaves. Link

Bibliografia recomendada 

Iganci, J.R.V.; Dorneles, M.P. Araucariaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 18 Jun. 2019 

Espécies Nativas da Flora Nativa de Valor Econômico Atual e Potencial - Plantas para o Futuro - Região Sul. 2011Link 



O cará-do-ar é um parente próximo do cará comercial (Dioscorea alata L.), apresentando sabor e usos semelhantes. Por ser ainda pouco conhecido e usado na culinária, é considerado uma PANC (Planta Alimentícia Não Convencional). Encontrado com mais facilidade nas bancas de verduras das feiras livres e, raramente, em gondolas de supermercados. A espécie também é conhecida pelos nomes populares de cará-de-árvore, cará-fígado ou cará-moela. 

Descrição botânica: Da família Dioscoreaceae, é planta de hábito trepador, com folhas verdes escuras, um pouco enrugadas e em formato de coração. O caule enreda-se em troncos de árvores ou outros suportes em sentido horário. Uma das características que permite o fácil reconhecimento da espécie é a produção de tubérculos aéreos, de tamanhos variados, casca fina, de coloração acinzentada e pontuações elevadas que podem conferir textura lisa ou rugosa. 


Onde ocorre: Planta não nativa, considerada naturalizada no Brasil. De origem asiática e africana, é abundante nas regiões tropicais do mundo. Embora de fácil propagação e manutenção, aqui seu cultivo ainda é restrito a quintais e hortas domésticas. Prefere regiões de clima quente e úmido. 


Usos: Após serem cozidos no vapor ou em água, podem entrar na composição de uma vasta lista de pratos culinários: purês, patês, refogados, sopas, caldos, cremes, tortas e muito mais. Também podem ser consumidos assados ou fritos. Os frutos são ricos em amido e glúten e, após secagem, podem ser transformados em farinha para panificação ou usados como fonte de amido para a indústria de fármacos e cosméticos. Frutos, folhas e flores possuem propriedades medicinais. 

Com relação aos aspectos nutricionais, os tubérculos são ricos em magnésio (3,96 ppm) e apresentam baixo teor de lipídios (0,09%). Apresentam cerca de 11,3% de carboidratos, o que permite a sua utilização na panificação em substituição total ou parcial à farinha de trigo. 


Aspectos agronômicos: A espécie ainda não é cultivada em escala comercial. A propagação pode ser feita pela divisão dos tubérculos, que devem ser deixados à sombra para brotarem. O plantio é feito em solo leve, bem drenado e rico em matéria orgânica, em covas ou berços, a 20-30cm de profundidade, espaçamento 1x0,5m e com sistema de tutoramento que permita um bom crescimento da planta e formação dos tubérculos aéreos. Na ausência de seca, a produção ocorre quase o ano todo e a colheita se dá, aproximadamente, 6 meses após o plantio. 

Curiosidade: Estudos apontam que Dioscorea bulbifera é originária tanto da Ásia quanto da África, onde ainda pode ser encontrada em estado natural. As plantas de origem asiática produzem tubérculos menores e tóxicos ao consumo. Entretanto, observou-se que as plantas cultivadas no Brasil apresentam pouca ou nenhuma toxidez, com baixa quantidade de toxinas na casca, sendo facilmente removidas após a lavagem dos tubérculos. 


Bibliografia recomendada 

Castro, C.M.; Devide, A.C.P. Cultivo e Propriedades de Plantas Alimentícias não Convencionais – PANC. Link
Dioscoreaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 17 Jun. 2019. 
MÜLLER, M.S. Cará-moela (Dioscorea bulbifera L.) : composição centesimal e mineral, extração e quantificação de polissacarídeos e cinética de secagem. 2017.

Esta foi a planta que despertou meu interesse pelo estudo do nosso maravilhoso bioma Cerrado. Foi assunto do meu trabalho de conclusão de curso de graduação, estudando a diversidade genética em diversas populações da espécie no Brasil central. É planta medicinal valiosa para muitas comunidades tradicionais no Cerrado, que usam a casca das árvores para preparar banhos, chás, garrafadas, pomadas e outros produtos.

Esta planta também é conhecida pelos nomes populares de casca-da-mocidade ou casca-da-virgindade, em alusão ao potencial cicatrizante atribuído às suas cascas. Reza a lenda que, banhos ginecológicos com o chá das cascas de barbatimão era capaz de “reparar o malfeito nas moças” e acelerar a cicatrização em parturientes. 


Descrição botânica: É uma arvoreta muito comum no Cerrado, da família Fabaceae, pode medir de 2 a 5m de altura, tortuosa, com muitos ramos curtos e casca grossa, fendida longitudinalmente, expondo a entrecasca de coloração avermelhada. As folhas são pinadas, com folíolos arredondados e coloração verde clara. As inflorescências têm formato de espiguetas, com minúsculas flores de cor amarelo clara. O fruto é um legume indeiscente, inicialmente verde, passando a castanho escuro conforme avança a maturação.

Onde ocorre: Nativo do Brasil, o barbatimão é encontrado no Cerrado e na área de transição entre o Cerrado e a Caatinga. Planta típica de áreas de campo sujo e cerradão, em solos profundos e de composição arenosa.


Usos: As cascas do tronco e ramos são empregadas na medicina popular para curar doenças sexualmente transmissíveis, inflamações e cicatrização de feridas na pele, fabricação de cremes e sabonetes para limpeza de pele. As cascas, maturadas no álcool ou cachaça, compõe garrafadas para as mais diversas finalidades. A casca avermelhada fornece material corante para artesanato, além de ser matéria-prima para a extração de tanino para a indústria química. O tronco fornece madeira para pequenas construções, marcenaria e torno.

Existem inúmeros estudos científicos que demonstram o potencial anti-inflamatório e cicatrizante dos extratos de casca de barbatimão. Um desses estudos menciona que a pomada de barbatimão pode apresentar efeito superior àqueles observados com o uso das pomadas comerciais a venda no Brasil. Em 2009 foi lançada a primeira pomada de barbatimão (Fitoscar) com registro no Ministério da saúde, produto de pesquisas desenvolvidas por universidades brasileiras. 


Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por sementes, que devem ser semeadas logo após a colheita, em substrato composto por duas partes de terra de mata, 1 parte de areia e 1 parte de esterco bem curtido. O tempo de viveiro pode variar de 12 a 18 meses.

Cuidados: As flores do barbatimão são toxicas para abelhas, porém, já existem estudos que permitem minimizar os efeitos sobre as colmeias. As favas (frutos) podem causar intoxicação em bovinos e sua ingestão por outros animais domésticos também deve ser evitada.

Outro cuidado importante é observar a forma correta de colheita das cascas, a fim de evitar a morte das plantas. Deve-se escolher plantas adultas, com mais de 10cm de diâmetro de caule; cortar as cascas a altura mínima de 1 m acima do solo e em placas de até 30 cm de comprimento; não efetuar o anelamento do caule (corte total da casca em um único ponto); colher as cascas, preferencialmente, nos meses de julho a novembro, antes do período de floração e frutificação. Uma nova colheita de cascas na mesma planta somente será efetuada após 3 a 4 anos.


Bibliografia recomendada

MARTINS, E.R. et al. In: VIEIRA, R.F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Biodiversidade. – Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)
Queridos leitores,

Pra quem me acompanha há algum tempo, sabe que sou uma das editoras da série Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou Potencial – Plantas para o Futuro, lançado em parceria com o Ministério do Meio Ambiente.

É com grande prazer que disponibilizo a vocês o terceiro livro da nossa série, referente às plantas da Região Nordeste. Para acessar a publicação, basta clicar no link abaixo e fazer o donwload. É gratuito! Boa leitura!





O momento saudosista do dia é para lembrar das flores da minha infância, e foram muitas: papoulas, rosas, margaridas, camélias, cravos, flor de laranjeira e muitas outras. Mas meu encanto era mesmo pelas flores silvestres, especialmente as sempre-vivas, até pela sua raridade. Rígidas e ao mesmo tempo tão delicadas, talvez por isso as admirasse tanto.

Esta sempre-viva é mais comum no Sul do Brasil, onde também é chamada de flor-de-palha. Seu nome científico é Xerochrysum bracteatum. Foi descrita pela primeira vez em 1803 pelo botânico francês Étienne Pierre Ventenat, quando recebeu o nome de Helichrysum bracteatum. Em 1990 a espécie foi reclassificada, passando a fazer parte do gênero Xerochrysum, tal como é conhecida atualmente.

Descrição botânica: Arbusto ereto, ramificado e perene, que pode apresentar variação no tamanho e formato das plantas conforme a região de ocorrência. As flores são compostas por brácteas rígidas, de coloração amarela, branca, rosada ou avermelhada. 

Onde ocorre: Espécie nativa da Austrália, com ocorrência em diversos países. No Brasil é encontrada com mais facilidade nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste (sul da Bahia), sendo considerada naturalizada devido à sua boa adaptação ao País. É planta típica de ambientes alterados, bordas de florestas e áreas degradadas. Ocorre em populações densas e, frequentemente, é considerada invasora de áreas agrícolas.

Usos: A sempre-viva é cultivada em alguns jardins no sul do Brasil como planta ornamental ou para a produção de arranjos artesanais frescos ou como flor-seca. Também pode ser coletada nos campos. Muito usada em buquês de flores silvestres e, nos jardins, podem formar maciços de grande beleza e durabilidade.

Propagação: Por meio de sementes ou estaquia dos ramos. Deve ser cultivada a pleno sol, em solo fértil, rico em matéria orgânica e com boa drenagem. Não suporta encharcamento. As folhas e flores são sensíveis à geada, porém, a base da planta se mantém viva e rebrota posteriormente. Prefere regiões com climas amenos.


Curiosidades: A espécie foi cultivada inicialmente na Alemanha, por volta de 1850, onde também foram desenvolvidas as primeiras cultivares anuais, com flores de colorações variadas entre o branco, o dourado e o purpura. Atualmente, é possível adquirir no mercado nacional pacotes com sementes de colorações variadas para cultivo em jardim.


Bibliografia recomendada
Barcelos, L.B.; Heiden, G. Xerochrysum in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Disponível em: <Link>. Acesso em: 05 Mar. 2019

Russell, J. (2015). The story of 'Xerochrysum bracteatum'. Journal (Australian Native Plants Society. Canberra Region), 18(3), 16.

Wikipedia. Link

Nas minhas andanças em busca de novos sabores e aromas sempre encontro plantas maravilhosas e cheias de história. O alecrim-pimenta, apesar de ser uma planta brasileira, é pouco usada comercialmente. No México é vendida em mercados como condimento, usado como substituto do orégano, já que o sabor é semelhante. Quem sabe voce não tem uma planta dessas na sua horta e pode saber um pouco mais sobre ela. Que tal?
 
Descrição botânica: Da família Verbenaceae, planta arbustiva, com caule ramificado, folhas opostas, elípticas ou ovadas, com 2 a 3 cm de comprimento, pecioladas e com margens crenadas (aspecto rendado). As flores são pequenas, de cor branca e reunidas em espigas no final dos ramos. Produz numerosas sementes pequenas. 

Origem: Planta nativa do Brasil, especialmente na Caatinga e no Cerrado. Também ocorre em outros países das Américas Central e do Sul. 


Usos: O alecrim-pimenta é usado como condimento e como medicinal. É muito conhecido da população pelo aroma das folhas, que se assemelha ao do orégano, inclusive, sendo utilizado como condimento. O aroma das folhas indica a presença de grande quantidade de óleo essencial, rico em limoneno, carvacrol, timol e outros compostos. O óleo essencial de alecrim-pimenta apresenta variação na sua composição, que são conhecidas como quimiotipos e mudam conforme o local de ocorrência da planta, clima, solo, etc. Também é usado como planta medicinal, na forma de chá, tintura, pomadas ou enxaguante bucal. Possui propriedades antimicrobiana e antisséptica. O óleo essencial pode ser usado como repelente de insetos. 

Aspectos agronômicos: As mudas são feitas por estacas dos ramos, que devem ser mantidas em local sombreado até o enraizamento completo e com regas constantes, mas sem encharcar o solo. As estaquinhas devem ter entre 10 a 20 cm de comprimento e manterem de 2-3 pares de folhas. Quando estiverem bem enraizadas podem ser levadas para um local mais ensolarado e plantadas no local definitivo, de preferência, no início da época chuvosa. Quando o plantio for feito na época seca, as mudas exigem cuidado com as regas, principalmente nos primeiros dias após o plantio.


Bibliografia recomendada

Brasil. Ministério da Saúde. Monografia do alecrim-pimenta (Lippia origanoides). 2014.  Link.
Vieira, R.F. et al. Lippia origanoides - Alecrim-pimenta. In. Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial - Plantas para o Futuro Região Centro-Oeste. 2016. Link

A cânfora-de-jardim, assim chamada devido à semelhança do aroma da cânfora usadas para evitar infestação de traça nos armários. Embora o aroma até se pareça bastante, a cânfora de armário, na forma de bolinhas brancas cerosas, é produzida a partir de uma outra espécie arbórea aromática da família Lauraceae: a canforeira [Cinnamomum camphora (L.) J. Presl]. É conhecida no Brasil também pelos nomes de alcanfor, canfor, artemísia, artemijo, infalivina, losna ou losna-miúda. 

Descrição botânica: Da família botânica Compositae, planta herbácea com 20-40 cm de altura. As folhas são pecioladas e compostas por folíolos finos e alongados, de textura macia e muito aromáticas; a coloração prateada se deve a uma grande quantidade de pelos na superfície das folhas e que refletem a luz do sol. Eventualmente, as plantas apresentam minúsculas flores amareladas e frutos pequenos e arredondados. 

Origem: Planta de origem mediterrânea, possivelmente, da região da Calábria, na Itália e norte de África. 


Usos: Planta de uso medicinal e aromático. As folhas são ricas em óleo essencial, constituído por mais de 40 compostos já identificados, cujas concentrações e composição no óleo essencial podem variar dependendo do clima e solo da região onde se cultiva a espécie. Alguns dos principais compostos são germacreno D, nerolidol, espatulenol, canfora e 1,8-cineol, que conferem o aroma característico e bastante pronunciado desta planta. Na medicina popular é usada no tratamento de diabetes, bronquite, diarreia, hipertensão, dores musculares, reumatismo, problemas respiratórios, cólicas, antidepressiva, contra febre, gripes e como anti-inflamatória. A beleza da folhagem dessa planta permite o seu cultivo, da mesma forma, no jardim e na horta, tanto pelo aspecto ornamental, quanto pela sua utilidade no controle natural de insetos, devido ao forte aroma exalado pelas folhas. 

Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita por sementes ou, mais facilmente, pela divisão da planta a estaca de ramos. Pode ser cultivada em pleno sol ou em meia sombra, em vasos, floreiras ou canteiros no chão. O solo deve ser leve e bem adubado, com regas frequentes, porém em pouca quantidade, sem encharcar o solo. A planta cresce rápido e em 50 a 60 dias já é possível iniciar a colheita de folhas. 


Bibliografia recomendada 

LOKAR, L.C. et al. Variation in terpene composition of Artemisia alba in relation to environmental conditions. Biochemical systematics and ecology, 15(3), 327-333, 1987. 

RADULOVIĆ, N.; BLAGOJEVIĆ, P. Volatile profiles of Artemisia alba from contrasting serpentine and calcareous habitats. Natural product communications, 5(7), 1117-1122, 2010. 

The Planta List. Artemisia alba Turra. (Link)

O fruto de maracujá-doce tem tamanho bem maior que o maracujá comum, são mais pesados e tem casca grossa. As flores desta espécie são um espetáculo a parte, por isso, o maracujá-doce também é muito usado como planta ornamental, especialmente, no Sul e Sudeste do Brasil. Também é chamado de maracujá-açu, maracujá-melão ou maracujá-amarelo.

Flor de maracujá-doce (Passiflora alata). Foto: Mauricio Mercadante.
Descrição botânica: Família botânica Passifloraceae, planta herbácea, semi-perene, de crescimento robusto e gavinhas bem desenvolvidas; caule angulado e com estipulas linear-lanceoladas de 1-1,5 cm de comprimento. Folhas simples, lisas um pouco resistentes, medindo entre 7 e 15 cm de comprimento, com pecíolo de 2 a 4,5 cm de comprimento. Flores solitárias, axilares, muito perfumadas, com 10 a 12 cm de diâmetro e coloração avermelhada. Frutos ovalados, com casca lisa, espessa, de cor amarelada, polpa suculenta, aromática e muito doce.


Onde ocorre: Planta nativa do brasil, encontrada nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.

Usos: Os frutos de polpa doce são ideais para o consumo in natura. Durante a safra, que vai de dezembro a maio, com pequenas variações regionais, são comercializados em supermercados e feiras livres. A planta é cultivada também como planta ornamental, devido, especialmente, à beleza de sua folhagem e florada perfumada. É ideal para cultivo em caramanchões e cercas-vivas. As folhas também possuem propriedades medicinais, sendo cultivada para uso medicinal, uma vez que é fonte de passiflorina, um calmante natural. As sementes podem ser usadas para a produção de óleo, rico em ácidos graxos poli-insaturados, especialmente, o ácido linoleico, e com ação antioxidante.


Aspectos agronômicos: A espécie pode ser propagada por sementes ou por estacas de ramos. É cultivada em pleno sol, próxima de cercas, muros ou em sistema de condução (espaldeira). A germinação pode ser feita em bandejas ou em canteiro e o crescimento das plantas é rápido. O solo deve ser leve e bem adubado. Quando utilizada para fins ornamentais, requer cuidados com o tutoramento e podas de manutenção e limpeza.

Bibliografia recomendada


BERNACCI, L.C. et al. Maracujá-doce: o autor, a obra e a data da publicação de Passiflora alata (Passifloraceae). Rev. Bras. Frutic., 25(2), 355-356, 2003.

LORENZI, H.; LACERDA, M.T.C.; BACHER, L.B. Frutas no Brasil: nativas e exóticas. Instituto Plantarum de Estudos da Flora. 2015.

Passiflora in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB12508>. Acesso em: 15 Abr. 2018


O maracujá é um fruto autenticamente brasileiro e, por isso, o Brasil ostenta uma grande diversidade de espécies. O mais conhecido é o maracujá-azedo comercial (Passiflora edulis), mas existem também muitos tipos de maracujás doces, a exemplo deste maracujá-de-cobra que vou apresentar hoje. 

Já escrevi anteriormente sobre outro maracujá-de-cobra (Passiflora amethystina Link). O nome popular dessas plantas me chamou atenção e fui conversar com um pesquisador, que me explicou o significado. Os maracujás-de-cobra são assim chamados porque seus frutos maduros, são consumidos por diversos roedores, que por sua vez, são o lanchinho preferido das cobras. Então, onde tem esse tipo de maracujá, possivelmente, também tem cobras, algumas peçonhentas, como as cascavéis. 

Descrição botânica: Planta herbácea, semi-perene, trepadeira, com gavinhas de fixação; caule cilíndrico, estriado e flexível. Folhas trilobadas, com 3 a 7,5 cm de comprimento e pecíolo que pode medir entre 1-6 cm de comprimento. Flores solitárias, com 6-7 cm de diâmetro, de coloração branca. Frutos arredondados, levemente alongados em uma extremidade, casca lisa e com uma camada de ar interna que separa a casca da polpa suculenta e doce. Os frutos maduros têm cor amarelada e a polpa possui um retrogosto que lembra o alho. 

Onde ocorre: Planta nativa do Brasil, encontrada no Cerrado e na Mata Atlântica, típica de áreas de mata alterada e matas ciliares, na beira de rios, lagos ou brejos. 

Usos: Os frutos maduros têm polpa doce, ideal para consumo in natura. A espécie não é comercializada, sendo possível encontrar os frutos apenas nas matas ou em pequenas hortas caseiras. A planta é muito ornamental e produz delicadas flores brancas, que atraem polinizadores. 


Aspectos agronômicos: Propagado por sementes, que germinam em baixa quantidade. As sementes são retiradas dos frutos, lavadas e semeadas direto no canteiro, a germinação ocorre entre 15 a 20 dias e o crescimento das plantas é muito rápido. O ideal é cultivar o maracujá próximo de uma cerca ou construir uma pequena espaldeira para permitir um melhor crescimento da planta, maior produtividade e facilidade para colher os frutos. Uma vez estabelecidas, as plantas produzem muitos frutos e, em áreas onde não ocorre geada, a produção pode se estender quase o ano todo.

Cultivo e condução do maracujá-de-cobra sobre o muro da horta
Bibliografia recomendada

LORENZI, H.; LACERDA, M.T.C.; BACHER, L.B. Frutas no Brasil: nativas e exóticas. Instituto Plantarum de Estudos da Flora. 2015. 

Flora do Brasil. Passiflora in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Disponível em: <Link>
 


Todos os anos, no final de fevereiro, acontece a safra de araticum, ou marolo, no Cerrado. Este fruto apresenta um formato bem característico e inconfundível, com elevações na casca, semelhante aos araticuns encontrados em outras regiões do Brasil, porém, estes frutos podem facilmente ultrapassar 1 kg e o aroma da polpa é bastante pronunciado. 

Durante a safra, que pode se estender de fevereiro a abril, os frutos são facilmente encontrados nas feiras livres e banquinhas de beira de estrada, sobretudo, nos estados de Goiás e Minas Gerais. Este fruto representa uma renda extra para muitas famílias e cooperativas de produtores agroextrativistas do Cerrado, transformando esta polpa aromática e cremosa em diversos produtos com sabores bem regionais. Vale a pena conhecer! 


Descrição botânica: Árvores ou arbustos lenhosos, ramificados e caule com casca estriada grossa; folhas inteiras e alternadas; as flores podem ocorrer isoladas ou reunidas em inflorescências; os frutos, quando verdes, possuem casca bastante ondulada e dura, que se rompe com facilidade quando estão maduros; podem medir mais de 15 cm de diâmetro e pesar entre 1 e 2 kg, de formato oval arredondado, coloração externa marrom clara e polpa creme-amarelada muito aromática. 

Onde ocorre: Planta nativa do Brasil, amplamente distribuída no bioma Cerrado, nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Pará, Bahia, Tocantins, Maranhão, incluindo áreas remanescentes de cerrado no Paraná. 


Usos: A polpa dos frutos é doce e muita aromática. A textura da polpa é um pouco granulosa, mas pode ser consumida in natura ou processada para produzir sucos, doces, geleias, licores, tortas, iogurtes ou sorvetes. Rica em carboidratos, lipídeos, fibras, cálcio e fósforo, sendo, portanto, uma importante fonte alimentícia. A polpa ainda pode ser desidratada para a produção de farinha, que serve como ingrediente para o preparo de massas, sucos, doces e sorvetes. O doce em barra, que é uma tradição em Minas Gerais e Goiás e facilmente encontrado nas feiras livres regionais, é feito com a polpa fresca triturada e caramelizada, guardando todo o aroma e sabor característicos desse fruto maravilhoso. 
As sementes são boa fonte de óleo, rico em ácido oleico e com uso potencial nas indústrias de óleos finos e cosméticos. A polpa apresenta agentes antioxidantes; as sementes e folhas são usadas na medicina popular para o tratamento de diarreia, como regulador menstrual e antiparasitário. 

Aspectos agronômicos: Até agora não existem registros de cultivo desta planta, toda produção de frutos é obtida por meio do extrativismo em plantas espontâneas nas matas. A propagação pode ser feita por sementes, que apresentam dormência e requerem o uso e de hormônios sintéticos para germinar. As mudas, quando prontas, devem ser plantadas me local definitivo no início do período chuvoso, em solos profundos e bem drenados. A espécie não é muito exigente em fertilidade, mas a aplicação de adubo orgânico na cova e em cobertura, durante o crescimento da planta, aumenta a produção de frutos. 

Doce de araticum em barra, muito comum em Goiás e Minas Gerais.

Bibliografia recomendada 

MELO, J.T.; AGOSTINHO-COSTA, T.S. Araticum (Annona crassifora). In: VIEIRA, R.F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: Plantas para o Futuro: Região Centro-Oeste. Ministério do Meio Ambiente. Secretaria de Biodiversidade. Brasília, DF: MMA, 2016. (Link)
Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.