O início da primavera é marcado pela exuberante floração das bouganvilleas que, por esta razão, também são conhecidas popularmente como primaveras. Quanto mais seco o clima, mais vistosa é a floração. Primavera, três-marias, santa-rita, ceboleiro e flor-de-papel são algumas das denominações regionais destes arbustos no Brasil. Mas o que pouca gente sabe, é que as bouganvilleas são nativas do sul e sudeste do Brasil e foram levadas como planta ornamental para a Europa e outros países do mundo. Por muitos anos, foi mais fácil encontrar bouganvilleas sendo cultivadas na Grécia, Portugal e Itália, do que no Brasil. Felizmente, essa realidade mudou muito, e hoje a planta vem sendo amplamente utilizada no paisagismo e é um dos grandes produtos da floricultura nacional, inclusive, com muitos híbridos no mercado. 


Descrição botânica:
Da família Nyctaginaceae, arbustos lenhosos, com até 12 m de altura, ramos escandentes (levemente caídos), com poucos ou muitos espinhos na ramagem, conforme a espécie. As folhas são oval-alongadas e de coloração verde. As flores são pequenas, esbranquiçada e estão envoltas por três ou mais brácteas de coloração que varia entre branco, diversos tons de rosa, vermelho, até o ferrugem. De forma equivocada, muitas pessoas se referem às brácteas como sendo flores, quando, na verdade, são folhas modificadas que envolvem as flores e conferem as cores característica das plantas. 


Onde ocorre: São duas espécies mais conhecidas no Brasil: a Bougainvillea glabra Choisy tem brácteas de cor rosa ou lilás e é nativa do Sul do Brasil; já a espécie Bougainvillea spectabilis Willd. tem brácteas de cores variadas, simples ou dobradas, e é mais comum nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. O gênero Bougainvillea compreende 11 espécies nativas da América do Sul, sendo 5 consideradas nativas do Brasil: B. campanulata, B. fasciculata, B. glabra, B. praecox e B. spectabilis


Usos: Plantas cultivadas em jardins, no paisagismo de praças e parques, tanto nas cidades como na zona rural. Vai muito bem como planta de vaso e cultivada como bonsai. No jardim pode funcionar como arbusto mantido e moldado com podas (topiaria), como cerca-viva sobre cercas e grades, ou mesmo, como cerca-defensiva. Tem sido utilizada também no recobrimento de caramanchões e pergolados. Floresce com maior intensidade entre o outono e a primavera, mas algumas plantas podem permanecer floridas por vários meses durante o ano, a depender do clima. As diferentes colorações das brácteas tem sido estudadas devido a presença de substâncias bioativas com potencial antioxidante, que poderiam ter uso alimentício e medicinal. Na medicina popular é usada para o controle de diabetes e hepatite. Estudos mostraram que o extrato das folhas apresenta efeito repelente. 


Aspectos agronômicos: B. glabra tolera geadas, já a espécie B. spectabilis prefere climas mais quentes, sem incidência de geadas fortes. A produção de mudas é feita por estaquia ou por alporquia, já que raramente produz sementes. Recomenda-se o uso de enraizadores para a produção de mudas de boa qualidade, já que as estacas apresentam dificuldade para enraizar naturalmente. Para uma floração mais vistosa, deve-se efetuar o cultivo das plantas a pleno sol e com pouca água. 



Curiosidade: O nome popular bouganvillea, deriva do nome científico latim Bougainvillea, uma homenagem ao navegador francês Conde Louis Antoine Bougainville, que aportou em Florianópolis no ano de 1767. Enquanto esperava o abastecimento de sua Nau, o Conde resolveu fazer algumas incursões pela Ilha para conhecer melhor a flora da região; foi quando se deparou com os arbustos coloridos chamativos que, mais tarde, vieram a ser nomeados em sua homenagem. Alguns historiadores atribuem ao Conde Bougainville a responsabilidade pela introdução desta espécie na Europa que, de lá se espalhou, sendo, atualmente, cultivada em todas as regiões tropicais do mundo. 

Bibliografia recomendada 

Bougainvillea in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Disponível em: http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB10907

Foschini, J.C. Formação de um banco ativo de germoplasma, seleção de acessos e propagação vegetativa de Bougainvillea. UFSCAR. 2017. 

Lorenzi, H.; Souza, H.M. Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras. Editora Plantarum, 2008.


O jatobá é uma planta típica do Cerrado, com sabor e aroma bem marcantes. Em minhas andanças pelo Brasil, pude perceber que este fruto está intimamente ligado às memórias afetivas (algumas boas, outras nem tanto) de muitas pessoas. Há alguns anos, principalmente no sertão de Goiás e Minas Gerais, era comum as famílias usarem a farinha de jatobá para matar a fome. Ouvi vários relatos de que, muitas vezes, o jatobá era o único alimento disponível, o que associou o fruto à condição de pobreza extrema. Esse estigma o jatobá carrega até os dias de hoje, o que criou uma barreira para que as pessoas experimentem novos sabores regionais.

Na verdade, esse é um estigma que muitas frutas nativas carregam. Já ouvi essa mesma história com o jenipapo, a guabiroba e, até mesmo, com algumas hortaliças regionais. Mas essa barreira precisa ser quebrada para que as novas gerações possam experimentar essa riqueza de sabores. Permita-se experimentar de novo: são outros tempos, outra realidade e outras percepções. 

Jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa)

Descrição botânica: Da família Fabaceae, árvore com até 10 metros de altura, embora no Cerrado tenha porte mais baixo, com galhos e troncos retorcidos. Folhas alternas, caducas e de coloração verde escura quando adulta. Inflorescências terminais com até 30 flores, de coloração marrom clara e estames alongados. O fruto é do tipo legume, indeiscente (não se abre quando maduro), alongado, com casca dura e coloração inicialmente verde, passando para marrom quando maduro. A polpa farinácea tem coloração variando de creme a creme esverdeada, conforme a espécie e/ou variedade. 

Flor de jatobeira

É importante mencionar que existem, ao menos, 16 espécies de jatobás usados como alimento no Brasil (além de algumas variedades dentro das espécies), o que reflete a diversidade de frutos, coloração das farinhas e intensidade de aromas que podem ser explorados. No Cerrado existem duas espécies mais conhecidas: o jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa Mart. ex Hayne), que tem porte menor, ramos retorcidos, frutos maiores e é encontrado em áreas abertas. Já o jatobá-da-mata (Hymenaea courbaril L.) é caracterizado por árvores de maior porte, frutos menores e, como o próprio nome já diz, habita áreas de mata fechada próxima de cursos d’água. Ambas possuem frutos comestíveis e geralmente são vendidos nas feiras e mercados sem fazer distinção de quem é quem. 

Onde ocorre: Planta nativa, mas não endêmica do Brasil, ocorrendo no Cerrado e também em áreas da Caatinga. No Cerrado, ocorre em áreas abertas, conhecidas como campo cerrado e/ou campo sujo. 

Frutos verdes e maduros

Usos: A farinha de jatobá é um dos produtos mais conhecidos desta espécie. Ela pode ser produzida pela raspagem dos frutos maduros e secos. A farinha pode ser peneirada para eliminar o excesso de fibras e melhorar a palatabilidade. Se mantida em saco plástico em geladeira, pode se conservar por período superior a um ano, mantendo aroma e sabor originais. A farinha pode ser usada no preparo de mingaus, bolos, doces e uma infinidade de pratos. Pode ser usada pura ou misturada com farinha branca ou integral, o que ajuda a suavizar o sabor. A farinha de jatobá também pode ser adicionada à massa de brigadeiro branco, resultando um doce gourmet com sabor pra lá de especial. Biscoitos, sequilhos e salgadinhos com farinha de jatobá apresentaram boa aceitação em feiras de sabores no Brasil inteiro. A farinha ainda tem a vantagem de ser livre de glúten e rica em ferro, sendo um bom complemento alimentar e na dieta de pessoas com restrições alimentares. A resina do tronco, cascas dos ramos e as folhas são usadas na medicina popular. Existe uma extensa bibliografia sobre o uso medicinal da espécie, indo desde o consumo da farinha como tonificante até o uso ritualístico dos frutos na cura e equilíbrio energético. As árvores retorcidas são muito bonitas e podem ser usadas na arborização urbana. 

Pão integral com farinha de jatobá e castanha de baru

Aspectos agronômicos: A floração apresenta um período bem extenso, podendo se entender de outubro a abril, mas o forte da safra no cerrado goiano ocorre de agosto a novembro. Entretanto, esses períodos podem variar conforme a região e o clima local. As mudas podem ser feitas por sementes, germinadas logo após a colheita. A germinação ocorre entre 5 e 35 dias e pode chegar a 80%. No cerrado, observa-se o crescimentos das plantas em áreas de baixa fertilidade, o que permite inferir que o solo para a produção de mudas não necessita muita adubação, apenas que seja leve e bem permeável. Havendo possibilidade, é recomendável fazer a germinação em ambiente protegido, onde se pode controlar melhor a rega e a intensidade luminosa. 

Dicas e curiosidades: Alguma pessoas consideram que o jatobá tem cheiro de “chulé”, o que causa repulsa em muita gente. Minhas experiências culinárias (não sou especialista, mas gosto de experimentar) me mostraram que colocar a farinha no forno a temperatura de 180º C por uns 10 a 15 minutos, além de ajudar na conservação, suaviza o aroma. O aroma é dado por uma mistura de compostos voláteis presentes no fruto e que se degradam com o aquecimento, daí a funcionalidade da secagem em forno para melhorar o aroma e o sabor da farinha. A farinha de jatobá pode ser um curinga muita fácil de usar e que pode impressionar os comensais. Porém, é sempre de bom tom conhecer o paladar dos convidados e não exagerar no ingrediente, para não correr o risco de errar na opção. Experimente! 

Da esquerda para direita: fruto aberto e farinha pronta para consumo; produção artesanal da farinha; brigadeiro branco com farinha de jatobá; biscoitinhos de jatobá

Bibliografia recomendada 

Pinto, R.B.; Tozzi, A.M.G.A.; Mansano, V.F. Hymenaea in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB83206>. 

Sano, S.M. et al. Hymenaea stigonocarpa (Jatobá-do-cerrado). IN: Vieira. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade

Uma beleza as flores da carobinha! De coloração violeta escuro, quando florida, a planta se destaca no meio da vegetação do Cerrado. Ainda não é cultivada em jardins e pouco se sabe sobre ela, mas estudos da Universidade de Brasília apontam para o potencial ornamental e medicinal dessa espécie. 

Descrição botânica: Da família Bignoniaceae, subarbusto com 0,5 a 1,8 metros de altura, pouco ramificado. As folhas jovens tem coloração verde clara, com pelos na parte inferior, o que lhe confere aspecto esbranquiçado; já as folhas adultas tem coloração verde escuro. As flores são reunidas em inflorescências (cachos) no final dos ramos, pendulas, e de cor variando entre roxo a violeta escuro. Os frutos são inicialmente verdes, passando a castanho escuro quando maduros, e se abrem liberando grande quantidade de sementes aladas. No Distrito Federal, a floração foi registrada no final do mês de abril. 


Onde ocorre: Espécie nativa do Brasil e endêmica, ou seja, só ocorre no Brasil. No Cerrado, é encontrada em área de vegetação aberta e alta luminosidade, como nos campos limpos.


Usos: Como planta ornamental, pode ser usada em vasos ou plantada em jardins em bordaduras, maciços ou em composição com outras espécies. Pode ser usada também como flor de corte. Na medicina popular é usada como anti-inflamatória, no tratamento de dores lombares, digestiva e até no controle de sarna e outras doenças parasitárias. 


Aspectos agronômicos: Embora exista pouca informação a esse respeito, estudos da Universidade de Brasília apontam para a possibilidade de se fazer mudas por sementes, colhidas de frutos maduros (cor castanha escura), um pouco antes da abertura dos mesmos. A germinação é feita em substrato leve, tipo vermiculita ou areia, com germinação de até 50%. Havendo possibilidade, a germinação in vitro pode ser uma boa opção para aumentar o número de plantas e acelerar o processo. Observações de campo e mesmo de espécies similares, permitem recomendar o cultivo a pleno sol, em solo arenoso e com regas espaçadas.


Bibliografia recomendada

Silveira, C.E.S. et al. Jacaranda ulei (Carobinha-do-campo). IN: Vieira. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade




O Brasil possui uma grande riqueza de jacarandás. Em cada região se conhece um tipo, uma denominação, uma flor, enfim, cada um descreve um jacarandá diferente. Mas a planta da vez é o jacarandá-de-minas, que floresce no final da seca e, muitas vezes, é confundido com ipê-roxo. Aliás, muitas pessoas me mandam fotos para identificação porque acharam lindo o ”ipê-roxo”, que na verdade era um dos muitos jacarandás. Então vamos conhecer melhor essa árvore linda, que embeleza e se destaca no cinza das matas secas.


Descrição botânica: Família Bignoniaceae, árvore com 5 a 10 metros de altura, copa arredondada e bastante ramificada. As folhas são bipinadas, com 20 a 40 cm de comprimento. As flores são tubulosas e medem entre 5 a 7 cm de comprimento, tem cor arroxeada e são reunidas em cachos no final dos ramos. Os frutos são secos e se abrem quando maduros, expondo numerosas sementes aladas. 

Onde ocorre: Planta típica do Cerrado, Pantanal e áreas de transição com a Mata Atlântica. Pode ser observado em floração em áreas de encosta, se destacando na mata. O nome “jacarandá-de-minas” se deve à sua alta ocorrência nas matas do estado de Minas Gerais, sobretudo na região do Triângulo Mineiro e norte de São Paulo. A espécie não é endêmica da flora brasileira, sendo encontrada também em países vizinhos, especialmente, nas áreas pantaneiras da Bolívia e Paraguai. 



Usos: De uso comum no paisagismo urbano do Brasil central, o jacarandá-de-minas pode ser facilmente avistado, quando em floração, nas quadras e avenidas de Brasília e outras cidades do Centro-Oeste. Apresenta importante função ecológica quando usado na recuperação de áreas degradas e como espécie melífera, sendo importante fonte de alimento para abelhas nativas. As folhas são usadas na produção de inseticida caseiro e o chá da raiz usado como sarnicida. Folhas e cascas são usadas na medicina popular como depurativo do sangue, no combate à febre e no trato de infecções bacterianas. 



Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por sementes, plantadas logo após a colheita. Sementes armazenadas por mais de 4 ou 5 meses, requerem quebra de dormência por imersão em água fervente e permanência em água por 24 horas. O plantio é feito em sacos plásticos pretos próprios para mudas, em solo leve (1 parte de solo/1parte de areia), e a germinação ocorre em 1 ou 2 semanas. Também é possível adquirir mudas de qualidade em viveiristas especializados. 



Bibliografia recomendada

Gomes-Bezerra, K.M.; Reis, P.A.; Kuhlmann, M. Jacaranda cuspidifolia (Jacarandá-de-Minas). In: Vieirra. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018.
https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade

Jacaranda in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB114124. 2020.

Hoje vamos conhecer duas frutinhas deliciosas do interior do Brasil, diferentes na aparência mas muito similares no sabor: a gabiroba e a guabiroba. No sul do País vamos encontrar a guabiroba [Campomanesia xanthocarpa (Mart.) O.Berg.], árvore imponente com vistosos frutos alaranjados, de polpa suculenta e adocicada. Já no Cerrado é mais comum a gabiroba [Campomanesia adamantium (Cambess.) O.Berg.], um arbusto com frutos verde-amarelados a acinzentados, polpa aromática e muito saborosa. Independente das diferenças botânicas, ambas produzem frutos muito saborosos, verdadeiras iguarias que atraem pássaros e humanos. Uma fez parte da minha infância (guabiroba), e a outra (gabiroba), da infância dos meus filhos. 

Frutos maduros e polpa de gabiroba (C. adamantium)
Descrição botânica: Ambas pertencem à família Myrtaceae. C. xanthocarpa é uma árvore com até 15 m de altura, tronco recoberto por cascas pardacentas que se desprendem ao longo do tempo. Copa arredondada ou levemente alongada, muito ramificada; a folhagem é verde-clara e as folhas medem 3 a 7 cm de comprimento, ovaladas ou oblongas. As flores são pequenas e brancas. O fruto é uma baga amarelo-alaranjada quando madura, 2 a 3 cm de diâmetro, casca lisa e fina, polpa suculenta, doce e muito aromática, contendo numerosas sementes. 

Planta de C. xanthocarpa. Foto: Flora SBS.
C. adamantium é um arbusto ou subarbusto, medindo entre 30 cm a 2 m de altura, com caules amarelados e ásperos. A folhagem tem coloração avermelhada quando jovem, passando para verde-azulada na fase adulta; as folhas são simples, opostas, alongadas. As flores são pequenas, brancas e abundantes. Os frutos medem até 2 cm de diâmetro, globosos, com casca fina de coloração verde-amarelada quando maduros; a polpa é alaranjada, suculenta, doce e aromática, com numerosas sementes. Os frutos de ambas espécies apresentam pequenas pontuações na casca, que nada mais são do que as glândulas que contém óleo essencial, responsável pelo aroma intenso dos frutos. 

Planta de C. adamantium
Onde ocorrem: Ambas são nativas, porém, não endêmicas do Brasil. A gabiroba (C. adamantium) é típica do Cerrado das regiões Centro-Oeste e Sudeste. Já a guabiroba (C. xanthocarpa) é típica da Mata Atlântica do Sul e Sudeste do País. Existe uma zona de sobreposição onde seria possível encontrar as duas espécies, que são os fragmentos de Mata Atlântica das Regiões Centro-Oeste e nos fragmentos de Cerrado a sul, que podem ser encontrados até no noroeste do estado do Paraná. 

Flor de gabiroba (C. adamantium), típica de myrtaceas.
Usos: Os frutos são muito saborosos e, quando maduros, são consumidos in natura ou usados para sucos, geleias, doces, sorvetes, licores ou para aromatizar cachaça e vinho. Os frutos são ricos em vitamina C. A gabiroba possui 234mg vitamina C/100g de polpa. As cascas e folhas possuem propriedades medicinais e, juntamente com as flores, são matéria prima para a produção de óleos essenciais, usados para aromatizar bebidas e cosméticos. A guabiroba, por seu porte arbóreo elegante, pode ser usada no paisagismo e arborização de parques urbanos. Na zona rural pode recompor ou enriquecer áreas degradas de matas nativas. 
Na primeira foto, os frutos alaranjados de guabiroba (C. xanthocarpa) e na segunda, frutos verde-amarelados
de gabiroba (C. adamantium)
Uma ótima experiência gustativa é provar o sorvete, o suco concentrado e o licor da guabiroba produzidos na Serra gaúcha e comercializados em feiras e mercados locais, além de deliciosos, trazem o sabor da infância no sul do Brasil. No Cerrado, os picolés e o sorvete de gabiroba são encontrados com relativa facilidade em sorveterias de várias cidades de Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais. Minha dica é aproveitar um passeio pela bela Cidade de Goiás-GO e dar uma paradinha na praça principal, no final da tarde, para experimentar o sorvete de gabiroba da sorveteria do coreto: simplesmente perfeito! 

Sorvete de polpa de guabiroba da Serra Gaúcha
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, retiradas de frutos maduros, após lavagem em água corrente para completa remoção da polpa. As sementes devem ser semeadas em sacos plásticos contendo substrato leve e bem drenado, em profundidade de 2 cm, com regas constantes e mantidas na sombra. A germinação pode demorar de alguns dias até semanas e pode atingir mais de 70%. Por se tratar de espécies nativas ainda pouco conhecidas e estudadas, não existem informações sobre cultivo comercial de uma ou outra espécie, de modo que tudo o que se encontra no mercado é oriundo de produção extrativista. 
Bebida fermentada de guabiroba da Serra Gaúcha (esq.) e licor de gabiroba do cerrado (dir.)
Além de escassas informações sobre produção de mudas e cultivo, um dos maiores gargalos à inserção dessas espécies no mercado é o curto período anual de frutificação e a perecibilidade dos frutos, o que obriga os produtores a colher grande quantidade de frutos de uma vez e processar no mesmo dia. Entretanto, depois de extraída a polpa, esta pode ser congelada e usada praticamente o ano todo. C. xanthocarpa floresce entre os meses de setembro e outubro, com frutos maduros durante 15 a 20 dias no mês de novembro. Já a C. adamantium floresce entre agosto a novembro, com frutos maduros de outubro a dezembro. 

Bibliografia recomendada 

LISBOA, G.N. et al. Campomanesia xanthocarpa (guabiroba). In: CORADIN, L.; SIMINSKI, A.; REIS, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro – Região Sul. Brasília: MMA, 2011. (Link

PORTO, A.C. et al. Campomanesia adamantium (gabiroba). In: VIEIRA, R.F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

De acordo com o site da Flora do Brasil, existem 64 espécies nativas do gênero Arachis catalogadas no País hoje, sendo 48 endêmicas, ou seja, só ocorrem no Brasil. Entre elas, duas tem grande destaque pelo uso paisagístico: Arachis pintoi Krapov. & W.C.Greg. e Arachis repens Handro, mais conhecidas como amendoim-rasteiro ou grama-amendoim. 

Estas espécies são parentes próximas do amendoim comum (Arachis hypogaea L.), que usamos na alimentação. Entretanto, o amendoim é uma espécie nativa da região andina da América do Sul, considerada como naturalizada no Brasil. 

Descrição botânica: Da família botânica Fabaceae, são ervas estoloníferas, rasteiras, perenes, que formam um denso tapete verde ao crescerem sobre o solo. As folhas são compostas, com 4 folíolos (2 pares), de formato ovalado, e cor variando entre verde-claro e verde-escuro. As flores são numerosas, pequenas e de cor amarela. Na espécie A. pintoi pode ocorrer plantas com flores brancas, ainda que raramente. São consideradas plantas autógamas. 


Onde ocorrem: Ambas espécies são nativas e endêmicas do Brasil, tendo sua ocorrência associada aos cursos d’água. A. pintoi é encontrada naturalmente nas bacias dos rios Jequitinhonha, São Francisco e Paraná, chegando até o litoral atlântico. A. repens é encontrada naturalmente apenas na região Norte de Minas Gerias, porém, atualmente é cultivada como planta ornamental em todas as regiões do Brasil. 


Usos: Ambas são usadas no paisagismo ou como forrageiras, na alimentação animal. No paisagismo tem sido cada vez mais usadas como forração, para recobrir grandes áreas de solo descoberto, desde que não haja pisoteio. Podem ser empregadas tanto em jardins residenciais quanto em parques, jardins ou canteiros de ruas e avenidas. Devido ao crescimento rápido, boa capacidade de recuperação retenção de solo, a grama-amendoim tem sido muito usada na cobertura funcional do solo, especialmente em encostas resultantes de construções urbanas, rurais e, até mesmo, no paisagismo rodoviário. 


O potencial ornamental da grama-amendoim reside muito mais no crescimento da folhagem do que propriamente na floração. Mas em condições de boa disponibilidade de água, as plantas florescem quase o ano todo, com picos entre outubro e dezembro, formando um cenário de grande beleza estética. Tem a vantagem de não necessitar podas, apenas quando se deseja controlar o crescimento horizontal
das plantas. 



Aspectos agronômicos: A grama-amendoim tem a vantagem de se adaptar com facilidade à solos ácidos, de baixa fertilidade e com alta concentração de alumínio, características de solo de Cerrado e onde a maioria das forrações ornamentais não se dá bem. Podem ajudar, inclusive, na recuperação e conservação do solo, devido à elevada capacidade de fixação de nitrogênio dessas plantas. 

Arachis pintoi tolera sombreamento, podendo ser cultivada em áreas com insolação parcial, a exemplo de vãos entre prédios, e apresenta maior resistência à seca, mantendo folhagem verde nos períodos mais secos do ano. A. repens também possui alta capacidade de adaptação às diferentes condições de clima e solo do Brasil. Entretanto, a experiência prática mostra que é mais sensível à falta de água e não tolera geadas. Sob irrigação constante, tanto em sistemas automatizados quanto manuais, produz um tapete verde de grande beleza ornamental. 


A produção de mudas é feita por estaquia de ramos ou estolhos, retirando-se estacas com 4 a 6 nós para garantir bom pegamento. Também é possível comprar mudas em lojas de paisagismo. A quantidade de mudas por metro linear vai depender do custo da obra e da pressa do jardineiro: se desejar um fechamento mais rápido usa-se 10 mudas/m. É recomendável manter as plantas sob contenção, pois podem facilmente invadir áreas adjacentes de gramados e outros canteiros.


O plantio pode ser feito a pleno sol ou meia sombra, de acordo com a característica de cada espécie. O solo deve ser preparado previamente com boa quantidade de adubo orgânico e boa drenagem, a fim de evitar encharcamento. Atenção para os períodos de seca, as plantas ficam mais bonitas se houver água de forma constante o ano todo. Quando fizer adubação de cobertura, prefira adubos orgânicos ou formulações organominerais, que liberam nutrientes de forma mais lenta (menos adubações por ano, menor custo) e são menos poluentes ao meio ambiente. 


Bibliografia recomendada 

Favero, A. P.; Valls, J.F.M. Arachis repens – grama amendoim. In: Coradin, L.; Camillo, J.; Pareyn, F.G.C. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro: Região Nordeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link

Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Link 

Valls, J.F.M.; Coradin, L. Arachis pintoi – amendoim forrageiro. In: Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

A cana-do-brejo ou cana-de-macaco, como também é conhecida em várias regiões do Brasil, é muito usada na medicina popular e sempre suscita muitas dúvidas se é uma única espécie ou se existe mais de uma, devido às diferenças marcantes que se observa nas plantas conforme o clima e a região. De acordo com o site da Flora do Brasil, existe pelo menos 16 espécies do gênero Costus catalogadas no Brasil, a maioria nativa da floresta amazônica. A cana-do-brejo é a mais comum delas e devido às suas diferenças morfológicas, foi classificada em duas variedades: Costus spiralis (Jacq.) Roscoe var. spiralis e Costus spiralis var. villosus Maas, sendo esta última, de ocorrência restrita à região amazônica. Para simplificar, aqui trataremos da espécie principal Costus spiralis, sem entrar nos detalhes das variedades. 

Descrição botânica: Família Costaceae, planta de 1 a 2 m de altura, com rizomas. As folhas são grandes, de formato alongado, glabras e dispostas em espiral (daí o nome da espécie). As flores são reunidas em inflorescências terminais (estróbilos) e podem ter coloração variando de avermelhado à rosa claro ou branco. Os frutos são pequenos (1,5 cm de comprimento), tipo cápsula, com até 20 sementes de cor preta. 

Estróbilos de C. spiralis com flores de cores diferentes

Onde ocorre: Planta nativa, porém, não endêmica do Brasil, com ocorrência desde o México até a porção sul do Brasil. Mais comum em áreas úmidas, como beira de rios ou lagos, mas também pode ocorrer em áreas de savana ou afloramentos rochosos. 

Devido à similaridade entre plantas, é muito comum a confusão entre Costus spiralis e Costus spicatus, inclusive no uso popular e até mesmo em trabalhos científicos. Embora ambas sejam usadas para as mesmas finalidades, a espécie nativa e mais comum no Brasil é Costus spiralis

Usos: É muito usada com fins ornamentais, tanto para o cultivo em jardins quanto para flor de corte, devido à beleza de suas inflorescências. Vai bem na montagem de arranjos tropicais, juntamente com helicônias, estrelitzias e filodendros. No jardim pode ser cultivada junto a muros, em renques ou à beira de lagos ou piscinas naturais. 

Também apresenta amplo uso medicinal. As folhas, hastes e rizomas são usados na medicina popular para o tratamento de cálculos renais, sífilis, nefrite, cistite, controle da diabetes e como anti-inflamatória. Em algumas regiões, o chá das folhas é usado contra hipertensão e como diurético, as folhas cozidas são usadas no controle de diarreias; o chá ou suco dos colmos (caules) é usado no combate à hepatite e dores de barriga. No Distrito Federal, um laboratório farmacêutico possui cultivo da espécie para a produção de chá medicinal. 

Cultivo de C. spiralis no DF para a produção de chá medicinal
É possível encontrar na literatura uma centena de relatos sobre o uso medicinal da cana-do-brejo, porém, existe pouca confirmação científica. Uma revisão bem interessante sobre estudos químicos e farmacológicos a cerca desta espécie foi publicada por Duarte et al. (2017) na revista Fitos (Link). 

Quando se fala em planta medicinal é importante sempre mencionar que o uso nunca deve ser feito de forma indiscriminada e deve-se atentar sempre para a correta identificação da planta. Assim como outras da mesma família botânica, a cana-do-brejo possui em sua composição o ácido oxálico, que ingerido em excesso pode causar intoxicações graves. 

Distribuição das folhas em espiral, aspecto que ajuda a identificar a espécie
Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita tanto por sementes quanto por rizomas e estacas do caule. As plantas desta espécie preferem clima quente e úmido, mas podem se desenvolver satisfatoriamente também em regiões mais secas, desde que irrigadas. O plantio deve ser feito em solos ricos em matéria orgânica e, preferencialmente, mantidos úmidos. Pode ser cultivada em meia sombra ou sol pleno e floresce quase o ano todo. Observando plantas em diversos locais do Brasil, notei que no Cerrado, durante a seca, as plantas podem definhar, mas mantém o rizoma intacto, rebrotando vigorosamente assim que se inicia a época chuvosa. Já em regiões mais frias, durante o inverno, a parte aérea pode secar totalmente devido a ocorrência de geada, porém, os rizomas rebrotam logo que acaba o frio. 

As flores também cumprem papel ecológico, fornecendo abrigo e alimento para a fauna

Bibliografia recomendada 

Costaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 06 Nov. 2019 

Vieira, R.F.; Camillo, J.C.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Biodiversidade. – Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

A secura produz paisagens lindas no Cerrado! O pôr do sol é de tirar o folego, florescem os ipês, os pau-rosas, os jacarandás e as sapucaias, com suas folhas e flores roxas que se destacam em meio à paisagem cinza das cidades do Centro-Oeste do Brasil. Por vezes confundidas com “algum tipo de ipê”, as sapucaias são árvores de médio a grande porte, com potencial ornamental para uso em áreas amplas e podem ser cultivadas em várias regiões do Brasil. 

Descrição botânica: Da família Lecythidaceae, a sapucaia é uma árvore que pode medir entre 15 a 30 m de altura e o tronco pode chegar a 90 cm de diâmetro. Obviamente que nas condições de restrição hídrica do Cerrado as plantas crescem menos, porém apresentam um colorido muito mais vibrante. As folhas jovens possuem cor arroxeada, passando a verde escuro à medida que maturam. As flores, também arroxeadas, desabrocham simultaneamente ao surgimento das folhas jovens e ambas se confundem na monocromia. Os frutos são grandes cápsulas lenhosas, que podem pesar mais de 1 kg, e abrigam em seu interior de 10 a 40 sementes (castanhas). A floração e frutificação ocorrem de junho a outubro, com variação conforme o clima e a região. 

Folhas novas e flores que se confundem na monocromia
Onde ocorre: Planta nativa, de ocorrência exclusiva no Brasil, nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. É possível encontrar a espécie de forma natural em área antropizada e em florestas úmidas. Nas áreas urbanas, geralmente é encontrada na condição de cultivada. 
Detalhe de flores de sapucaia em planta com as folhas verdes

Usos: A espécie é mais conhecida pelos seus usos ornamental e madeireiro. Para fins ornamentais é preciso levar em consideração que a espécie cresce bastante e, por isso, deve ser cultivada em áreas amplas e ensolaradas, tais como praças, parques ou avenidas largas, onde não haja muita circulação de pessoas. A presença de frutos grandes e pesados, ainda que em pequeno número, inviabilizam o uso da sapucaia em estacionamentos e passeios públicos de grande circulação, bem como em áreas próximas a fontes ou piscinas, pois a espécie perde as folhas durante a estação seca. A madeira é moderadamente dura, empregada na fabricação de estacas, mourões e construções rurais em geral. Os frutos lenhosos podem ser usados como adorno e na fabricação de peças decorativas para interiores. 

Exemplo do uso da sapucaia na arborização de avenidas
As castanhas são comestíveis e muito saborosas. Cada 100g de castanha contém, aproximadamente, 55% de lipídios, 27% de proteínas, 5% de carboidratos, 3% de cinzas e 10% de umidade. O perfil lipídico é composto de 43% de ácidos graxos poli-insaturados, 42% ácidos graxos monoinsaturados e 15,2% ácidos graxos saturados. São fontes riquíssimas em fósforo, magnésio e manganês, além de fornecer energia, proteínas e outros minerais importantes para a saúde humana. As sementes são levemente aromáticas e oleaginosas e podem ser consumidas cruas, cozidas ou assadas, porém, sempre com moderação, pois cada 100g de castanha de sapucaia fornece, em média, 620 kcal. 

Aspectos agronômicos: A propagação pode ser feita por sementes ou por estaquia. As sementes devem ser colhidas e semeadas logo em seguida, pois perdem a viabilidade rapidamente. Antes do plantio em canteiros ou em saquinhos, recomenda-se escarificar com lixa as sementes, a fim de aumentar a germinação. As sementes devem ser regadas diariamente e a germinação pode levar entre 15 a 45 dias. Quando a propagação for por estacas, deve-se dar preferência às estacas herbáceas, que são menos lignificadas e enraízam com mais facilidade. Já existem estudos que demonstram a viabilidade da propagação in vitro da sapucaia, via cultivo em embriões e por microestaquia. A espécie prefere regiões com clima quente e, pelo menos, 1000 mm
anuais de chuvas. Desta forma, deixe para transplantar as mudas para o local definitivo no início da estação chuvosa, assim aumentarão as chances de pegamento das mudas. 

Frutos imaturos, porém, já bem grandes

Bibliografia recomendada 

Carvalho, I.M.M. et al. Caracterização química da castanha de sapucaia (Lecythis pisonis Cambess.) da região da zona da mata mineira. Bioscience Journal, 28(6), 2012. 

Flora do Brasil. Lecythidaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 21 Set. 2019

A cássia-imperial é nativa da Índia e foi trazida para o Brasil como planta ornamental, onde se adaptou muito bem. Sua florada amarelo-ouro ocorre entre dezembro e abril, variando conforme o clima e a região do Brasil. Sua copa arredondada e os belos cachos de flores pendentes formam um delicado conjunto no jardim. A depender da região, esta espécie pode ser chamada também de cana-imperial, chuva-de-ouro, canafístula ou canafístula-verdadeira.


Descrição botânica: Planta da família Fabaceae, árvore caducifólia, ou seja, que perde as folhas em uma determinada época do ano, pode medir entre 10 a 15 m de altura, tronco cilíndrico e casca lisa. Os ramos são abertos, formando copa globosa. Folhas alternadas, compostas por 4-8 pares de folíolos, até 13 cm de comprimento. As inflorescências são cachos pendentes, com flores grandes, de cor amarelo-ouro. O fruto é uma vagem cilíndrica e se desprendem da planta aos poucos ao longo do ano. Sementes pequenas, numerosas e com aroma delicado. 


Usos: Muito usada no paisagismo, adequada para plantio em parques, jardins e até mesmo na arborização de ruas. As sementes têm aroma semelhante ao do alcaçuz, sendo usadas como aromatizante de tabaco, sorvetes e na confeitaria. As sementes também possuem propriedades medicinais, usadas na medicina popular como cicatrizante, antipirético, analgésico, hipoglicemiante e purgativo. O tronco fornece madeira de alta qualidade para marcenaria, torno, construção naval, cabos para ferramentas, postes, esteios, moirões e outras construções rurais. As cascas são ricas em tanino, usado no curtimento de couro. As flores são melíferas e podem ser comestíveis. As folhas são tenras e servem de alimento para o gado. 

As flore são melíferas
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, plantadas em substrato leve e bem drenado. As sementes devem ser plantadas logo após a colheita. Quando armazenadas por longo período, podem entrar em dormência, sendo necessário efetuar escarificação química ou mecânica (com lixa) antes do plantio, a fim de aumentar a germinação. As mudas têm crescimento rápido e podem ser plantadas em local definitivo quando atingirem entre 0,7 a 1 m de altura. Atenção para a escolha correta do local de plantio, pois esta espécie não tolera transplantio. Prefere regiões com clima quente. Floresce abundantemente no Cerrado. 

Planta jovem e já coberta de flores no Cerrado
Atenção: Embora existam vários relatos sobre o uso medicinal desta espécie, a mucilagem presente nas sementes e a grande quantidade de tanino na casca, podem causar intoxicações sérias. Desta forma, recomenda-se buscar informação especializada antes de efetuar qualquer uso terapêutico. 

Bibliografia recomendada 

Guedes, R.S. et al. Tratamentos para superar dormência de sementes de Cassia fistula L. Biotemas, 26(4), 11-22, 2013. 

Lorenzi, H. et al. Árvores e arvoretas exóticas no Brasil: madeireiras, ornamentais e aromáticas. Editora Plantarum, 2018.

Quando falamos em culinária regional, alguns sabores são emblemáticos. Para mim, quando se fala em comida goiana, vem logo à memória o empadão goiano, que nada mais é do que uma empada gigante recheada com frango, queijo, linguiça e gueroba ao gosto do cozinheiro. A gueroba ou guariroba, como também é chamada em Goiás, é uma palmeira que produz um palmito amargo bastante apreciado na cozinha regional. Assim como o pequi, o sabor é forte, e não existe meio termo, ou você ama ou odeia. 

O sabor se assemelha ao do jiló e o amargor pode ser controlado durante o cozimento, ou efetuando-se um escaldamento do palmito até suavizar o sabor. Aliás, por falar em amargor, a comida goiana tem, além da gueroba e do jiló, outro ingrediente de peso, um pouco menos conhecido e já tratado aqui neste blog, que é a jurubeba (Link). Esse trio é inesquecível! 

Empadão goiano: prato tradicional indispensável a quem vai conhecer as cidades históricas de Goiás
Descrição botânica: Da família Arecaceae, a gueroba é caracterizada pelo seu caule solitário e fino, que pode alcançar entre 5 a 20 metros de altura. As folhas têm coloração verde-escura, até 3 m de comprimento (compostas 100 a 200 pinas cada), concentradas em espiral no final do tronco, dispostas entre 15 a 20 unidades, formando copa arredondada. As inflorescências são interfoliares e recobertas por uma proteção lenhosa (raque); as flores são pequenas, de coloração creme e numerosas. Os frutos (coquinhos) têm formato arredondado (elipsoide) e coloração verde-amarelada. 

Inflorescência de guerobeira visitada por abelhas arapuás (polinizadores)
Onde ocorre: A gueroba é uma palmeira nativa, só encontrada no Brasil (endêmica), especialmente no Cerrado do planalto central, desde o norte do Paraná, até o Mato Grosso, Tocantins e sul-sudeste da Bahia. 

Cacho com frutos ainda verdes
Usos: Planta de uso alimentício, ornamental, medicinal, forrageira (frutos) e oleaginosa. O palmito é a porção comestível e pode ser empregado na culinária em diversas preparações. Além do recheio do famoso empadão goiano, pode ser usado em saladas, molhos e complementos. Quanto aos aspectos nutricionais, o palmito é rico em vitamina C, potássio, fósforo, antioxidantes e fibras, além de apresentar baixo índice calórico, são menos de 12 calorias em cada 100g de produto in natura. A amêndoa dos frutos também pode ser usada como alimento. No interior de Goiás ela é o ingrediente principal do “doce de taia”. É rica em óleo, sendo considerada um alimento de elevado valor calórico, com mais de 600 kcal em cada 100g de amêndoa in natura. O óleo pode ser empregado na produção de cosméticos. 

No livro Biodiversidade Sabores e Aromas (link no final do texto), o leitor poderá encontrar dicas e muitas receitas com o palmito, a exemplo do patê, a pamonha de frango com gueroba, o arroz de puta rica e a chica-doida, receitas tradicionais, simples e muito saborosas da cozinha goiana. 

A planta apresenta excelentes qualidades para uso no paisagismo, com destaque para o belo aspecto plástico conferido pelo seu caule único e afilado, terminando em copa arredondada, além da ausência de espinhos, facilidade de cultivo e resistência à seca, pragas e doenças. A planta é presença obrigatória nos diversos jardins de Burle Marx em Brasília, além de muitas outras cidades da região Centro-Oeste. 

Uso da gueroba no paisagismo. Praças dos Cristais- Brasília-DF.
Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por sementes, que devem ser semeadas em sacos plásticos individuais. O percentual de germinação é de aproximadamente 60% e demora em torno de 100 a 120 dias para germinar. Dê preferência sempre à coquinhos maiores, que produzem mudas mais robustas. O substrato para germinação deve conter 3 partes de solo para uma parte de esterco bovino e, para cada 100kg de substrato, 2,5 kg de NPK 4-14-8 ou outra formulação organo-mineral similar, o que proporciona melhor formação das mudas quando se deseja iniciar um cultivo comercial. Quando as mudas atingiram cerca de 30 a 40 cm de altura podem ser plantadas nos locais definitivos e a colheita do palmito se dá após 3 ou 4 anos. O plantio das mudas deve ser feito em solo leve, bem drenado e rico em matéria orgânica. As plantas preferem locais de clima quente e, embora tolerem bem a seca, a irrigação constante resulta em crescimento mais rápido e plantas mais bonitas. 

Para o cultivo em jardim valem as mesmas regras, contudo, as mudas podem ser facilmente adquiridas em viveiros da sua região. O cultivo deve ser feito em espaços amplos e longe de redes elétricas e residências, uma vez que a planta pode crescer bastante. 

Observação importante: O cultivo comercial dessa espécie, ainda que em pequena escala, é de extrema importância para preservar as guerobeiras no ambiente natural, uma vez que a extração do palmito implica obrigatoriamente na morte da planta e esta não rebrota. Então, nunca colha o palmito direto da natureza, nem compre produtos sem saber a procedência, você poderá estar contribuindo, sem saber, para a destruição da nossa biodiversidade. Conhecer a procedência do alimento que estamos comprando é uma obrigação enquanto consumidores, além de valorizar e apoiar quem produz de forma correta. 

Palmito de gueroba in natura comercializado em feiras livres de Goiás. Foto: J.P. Bucher

Bibliografia recomendada 

Santiago, R.A.A.; Coradin, L. Biodiversidade Brasileira: sabores e aromas. Ministério do Meio Ambiente. 2018. Link

Soares, K.P. Syagrus in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.  <Link>

Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro: região Centro-Oeste. MMA, 2018. Link

Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.