Alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia DC.)

by 3/30/2022 11:12:00 AM 0 comentários

   Esta planta me remete às boas memórias afetivas da infância. Antes de colocar o pão no forno de barro, minhas avós usavam o que chamavam de “vassourinha” para varrer e retirar o excesso das cinzas. O calor em contato com as folhas verdes espalhava o cheiro doce do alecrim-do-campo pelo ar e saborizava levemente os enormes pães coloniais, típicos das nonas italianas do sul do Brasil. Até hoje tenho saudade do “saber fazer” das minhas avós e desse sabor que nunca mais senti.
   O alecrim-do-campo é planta essencial para as abelhas em muitas regiões do Cerrado. As abelhas da espécie Apis mellifera (abelha africana), reconhecem as plantas a longas distâncias e que, pela abundante florada, constitui uma importante fonte de alimento e proteção para as colmeias. Isso resulta em um produto diferenciado denominado de “própolis verde”, de grande interesse no mercado internacional, sobretudo, para o Japão.

Descrição botânica: Da família Asteraceae, arbusto de 2 a 3 m de altura, com ramos finos e não muito densos; os ramos mais jovens são pilosos. As folhas são lanceoladas com 1 a 2,5 cm de comprimento por 3 a 4 mm de largura, aromáticas. As flores são pequenas, esbranquiçadas e reunidas em pequenos capítulos com flores masculinas e femininas, são bastante aromáticas e sua presença pode ser sentida há vários metros. As sementes são pequenas e numerosas.


Onde encontrar: Planta nativa, não endêmica do Brasil, de ocorrência natural em todos os estados da regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, até o sul da Bahia. Pode ocorrer de forma isolada ou formar grandes populações em áreas alteradas, como beira de estradas, terrenos baldios, capoeiras, bordas de matas ou de brejos. Em alguns locais é considerada invasora, mas sua grande capacidade de regeneração pode ser aproveitada com sucesso na recuperação de áreas degradadas.

Usos: De grande importância na produção de própolis e mel, na medicina tradicional, na produção de óleo essencial e na recuperação de áreas degradadas. Na medicina popular, suas folhas são usadas como anti-inflamatório e no combate de infecções de diversas origens, para controlar febre, combater o cansaço físico e fraqueza em geral, problemas do estômago e falta de apetite.
   O alecrim-do-campo é matéria prima essencial para a produção de própolis no Brasil. Segundo o Prof. José Sforcin (vale a leitura, bibliografia citada abaixo) a palavra própolis vem do grego e usa-se para denominar material resinoso e balsâmico, coletado e processado pelas abelhas que o transportam até a colmeia e adicionam cera e secreções glandulares. Ao produto que resulta desse processo se dá o nome de própolis e as abelhas o usam na construção e manutenção da colmeia, na vedação e selamento de aberturas nas paredes ou favos e para embalsamar invasores e manter a sanidade e assepsia das colmeias. A própolis é composta por 50% de resina, 30% de cera, 10% de compostos aromáticos (óleos essenciais) e 10% de pólen e outras substâncias. Possui composição química bastante complexa e variável conforme a região, florada, clima e composição genética das abelhas. O que difere a própolis convencional da própolis verde é que para a fabricação desta última, as abelhas levam para a colmeia tecidos resiníferos jovens da planta, repletos de clorofila e pelos glandulares que contem óleos essenciais, o que confere o aroma característico.
   Devido ao aroma pronunciado, a planta também é matéria prima para a produção de óleos essenciais empregados na indústria farmacêutica, de artigos cosméticos e de higiene pessoal, de alimentos e na composição de defensivos agrícolas.
   Por sua grande capacidade de germinação e crescimento rápido, é essencial para uso em projetos de recuperação de áreas degradadas, inclusive em áreas de extração mineral. A espécie consegue se desenvolver rapidamente em solos antropizados e, desta forma, propicia condições de sombra e manutenção de umidade vitais para o desenvolvimento e regeneração de outras plantas sucessionais, favorecendo a revegetação natural dessas áreas.


Aspectos agronômicos: Em geral, a espécie não é amplamente cultivada, aproveitando-se as plantas espontâneas em áreas próximas. Entretanto, é possível cultivar o alecrim-do-campo com relativa facilidade, com semeadura a lanço ou por hidro-semeadura, ou, ainda, fazendo mudas em bandejas ou tubetes. O cultivo é uma forma eficiente de aumentar o pasto apícola em volta das colmeias, além de uniformizar da matéria prima em qualidade e constância para a extração de óleos essenciais. Existe muita informação disponível sobre esta espécie e, apesar de bastante fragmentada, é possível estabelecer um protocolo de condições mínimas de cultivo e não apenas explorar o extrativismo como modo de produção comercial. As mudas devem ser mantidas em viveiro, com telado sombrite de 50% e substrato orgânico composto por terra de mato e húmus, leve e bem drenado. O plantio é feito, preferencialmente, de janeiro a abril e o transplantio das mudas em campo, no início das chuvas (Cerrado). O crescimento das mudas é rápido, com boa produção de massa verde. Entre o plantio e a primeira colheita de folhas, o tempo varia de 12 a 16 meses, conforme a região.


Bibliografia recomendada

HEIDEN, G. Baccharis in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB5177
SFORCIN, J.M. Baccharis dracunculifolia: uma das principais fontes vegetais da própolis brasileira. UNESP, 2012. Disponível on line, gratuito. 
VIEIRA, N.K. Baccharis dracunculifolia (Vassourinha). In: Coradin, L.; Siminaki, A.; Reis, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial – Plantas para o Futuro – Região Sul. MMA, 2011.

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