Esta planta me remete às boas memórias afetivas da infância. Antes de colocar o pão no forno de barro, minhas avós usavam o que chamavam de “vassourinha” para varrer e retirar o excesso das cinzas. O calor em contato com as folhas verdes espalhava o cheiro doce do alecrim-do-campo pelo ar e saborizava levemente os enormes pães coloniais, típicos das nonas italianas do sul do Brasil. Até hoje tenho saudade do “saber fazer” das minhas avós e desse sabor que nunca mais senti.
   O alecrim-do-campo é planta essencial para as abelhas em muitas regiões do Cerrado. As abelhas da espécie Apis mellifera (abelha africana), reconhecem as plantas a longas distâncias e que, pela abundante florada, constitui uma importante fonte de alimento e proteção para as colmeias. Isso resulta em um produto diferenciado denominado de “própolis verde”, de grande interesse no mercado internacional, sobretudo, para o Japão.

Descrição botânica: Da família Asteraceae, arbusto de 2 a 3 m de altura, com ramos finos e não muito densos; os ramos mais jovens são pilosos. As folhas são lanceoladas com 1 a 2,5 cm de comprimento por 3 a 4 mm de largura, aromáticas. As flores são pequenas, esbranquiçadas e reunidas em pequenos capítulos com flores masculinas e femininas, são bastante aromáticas e sua presença pode ser sentida há vários metros. As sementes são pequenas e numerosas.


Onde encontrar: Planta nativa, não endêmica do Brasil, de ocorrência natural em todos os estados da regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, até o sul da Bahia. Pode ocorrer de forma isolada ou formar grandes populações em áreas alteradas, como beira de estradas, terrenos baldios, capoeiras, bordas de matas ou de brejos. Em alguns locais é considerada invasora, mas sua grande capacidade de regeneração pode ser aproveitada com sucesso na recuperação de áreas degradadas.

Usos: De grande importância na produção de própolis e mel, na medicina tradicional, na produção de óleo essencial e na recuperação de áreas degradadas. Na medicina popular, suas folhas são usadas como anti-inflamatório e no combate de infecções de diversas origens, para controlar febre, combater o cansaço físico e fraqueza em geral, problemas do estômago e falta de apetite.
   O alecrim-do-campo é matéria prima essencial para a produção de própolis no Brasil. Segundo o Prof. José Sforcin (vale a leitura, bibliografia citada abaixo) a palavra própolis vem do grego e usa-se para denominar material resinoso e balsâmico, coletado e processado pelas abelhas que o transportam até a colmeia e adicionam cera e secreções glandulares. Ao produto que resulta desse processo se dá o nome de própolis e as abelhas o usam na construção e manutenção da colmeia, na vedação e selamento de aberturas nas paredes ou favos e para embalsamar invasores e manter a sanidade e assepsia das colmeias. A própolis é composta por 50% de resina, 30% de cera, 10% de compostos aromáticos (óleos essenciais) e 10% de pólen e outras substâncias. Possui composição química bastante complexa e variável conforme a região, florada, clima e composição genética das abelhas. O que difere a própolis convencional da própolis verde é que para a fabricação desta última, as abelhas levam para a colmeia tecidos resiníferos jovens da planta, repletos de clorofila e pelos glandulares que contem óleos essenciais, o que confere o aroma característico.
   Devido ao aroma pronunciado, a planta também é matéria prima para a produção de óleos essenciais empregados na indústria farmacêutica, de artigos cosméticos e de higiene pessoal, de alimentos e na composição de defensivos agrícolas.
   Por sua grande capacidade de germinação e crescimento rápido, é essencial para uso em projetos de recuperação de áreas degradadas, inclusive em áreas de extração mineral. A espécie consegue se desenvolver rapidamente em solos antropizados e, desta forma, propicia condições de sombra e manutenção de umidade vitais para o desenvolvimento e regeneração de outras plantas sucessionais, favorecendo a revegetação natural dessas áreas.


Aspectos agronômicos: Em geral, a espécie não é amplamente cultivada, aproveitando-se as plantas espontâneas em áreas próximas. Entretanto, é possível cultivar o alecrim-do-campo com relativa facilidade, com semeadura a lanço ou por hidro-semeadura, ou, ainda, fazendo mudas em bandejas ou tubetes. O cultivo é uma forma eficiente de aumentar o pasto apícola em volta das colmeias, além de uniformizar da matéria prima em qualidade e constância para a extração de óleos essenciais. Existe muita informação disponível sobre esta espécie e, apesar de bastante fragmentada, é possível estabelecer um protocolo de condições mínimas de cultivo e não apenas explorar o extrativismo como modo de produção comercial. As mudas devem ser mantidas em viveiro, com telado sombrite de 50% e substrato orgânico composto por terra de mato e húmus, leve e bem drenado. O plantio é feito, preferencialmente, de janeiro a abril e o transplantio das mudas em campo, no início das chuvas (Cerrado). O crescimento das mudas é rápido, com boa produção de massa verde. Entre o plantio e a primeira colheita de folhas, o tempo varia de 12 a 16 meses, conforme a região.


Bibliografia recomendada

HEIDEN, G. Baccharis in Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <https://floradobrasil.jbrj.gov.br/FB5177
SFORCIN, J.M. Baccharis dracunculifolia: uma das principais fontes vegetais da própolis brasileira. UNESP, 2012. Disponível on line, gratuito. 
VIEIRA, N.K. Baccharis dracunculifolia (Vassourinha). In: Coradin, L.; Siminaki, A.; Reis, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial – Plantas para o Futuro – Região Sul. MMA, 2011.

O gênero Aloe é composto por cerca de 420 espécies identificadas até agora e, destas, 23 ocorrem no Brasil na condição de plantas cultivadas. A espécie mais conhecida e usada em todo mundo é o Aloe vera, anteriormente denominada Aloe barbadensis Mill. Muitas pessoas ainda têm dúvida sobre qual é a “babosa verdadeira”, dentre as várias espécies cultivadas no Brasil. Aloe vera é relativamente fácil de ser identificada: as plantas têm as folhas mais gordinhas e macias que as outras espécies e possuem inflorescência de cor amarelo claro. Entretanto, não tendo flores para facilitar a identificação, faça fotos e consulte sempre um especialista antes de usar uma planta desconhecida.

O nome científico da espécie se originou da palavra árabe alloeh, usada para designar substancia amarga brilhante, e do latim vera ou verdadeiro. Os primeiros relatos do uso medicinal da babosa data de 2100 a.C, observados em fragmentos de argila escavados na região da antiga Mesopotâmia, que hoje corresponde aos países do Iraque, Síria, Turquia e Irã. Os povos antigos cultivavam a babosa quase como uma divindade protetora, pois acreditavam que pendurar folhas de babosa na porta da casa protegeria a família de todos os males.


Descrição botânica: Da família Asparagaceae, planta herbácea, suculenta, com até 1,2 m de altura. As folhas, carnosas e suculentas, são dispostas em formato de roseta, presas ao centro por um caule curto; possuem borda com espinhos curvados para cima. Ao serem partidas, as folhas liberam grande quantidade de um gel viscoso, de coloração variando entre cristalino e amarelado, e sabor amargo. As folhas medem entre 30 a 60 cm e podem pesar até 1,5 kg cada uma, quando adultas. Cada inflorescência reúne entre 100 a 200 flores tubulares pequenas, de cor amarelo-claro, dispostas de forma helicoidal ao longo do escapo floral. O fruto é uma cápsula triangular e reúne numerosas sementes de coloração preta.

Onde ocorre: Planta nativa da costa leste da África e muito adaptada aos diferentes climas em todo mundo. No Brasil, ocorre em quase todo território nacional na condição de planta cultivada. Na natureza, em regiões como as ilhas Canárias e Madeira e no Mediterrâneo, é comum encontrar as plantas crescendo em locais pedregosos de áreas semidesérticas.


Usos: A babosa é uma das plantas medicinais mais antigas do mundo. Conta a história que o povo Judeu envolvia seus mortos em tecidos embebidos com o sumo da babosa e extrato de mirra, pois se acreditava que a mistura retardava a putrefação e ajudava a disfarçar o cheio de “morte”. O que também teria sido usado para envolver o corpo de Jesus, após ser retirado da cruz. O uso cosmético foi difundido no antigo Egito, mais especificamente pela Rainha Cleópatra, que acreditava ser a babosa a planta da imortalidade, e usava o sumo nos cuidados com a pele e os cabelos.

Como planta medicinal, a babosa apresenta atividade anti-inflamatória e cicatrizante, no tratamento de psoríase e diversos tipos de dermatites (incluindo queimaduras), diabete, colesterol, doenças respiratórias, conjuntivite, herpes, como suplemento vitamínico e mineral e no tratamento de algumas formas de tumores canceroso. Na odontologia a babosa está presente na composição de géis dentais e enxaguantes bucais. Na cosmética, a planta é um sucesso, estando presente na composição de hidratantes, géis de cabelo e corpo, xampus, sabonetes, condicionadores, desodorantes e uma infinidade de outros produtos.

Para fins de uso medicinal e cosmético, a folha da babosa pode ser dividida em duas partes, resultando produtos diferentes: da parte mais externa da folha se extrai o sumo, que sai com facilidade ao menor corte e tem cor marrom, cheiro forte e sabor bem amargo; da parte interna das folhas se extrai o gel mucilaginoso, viscoso e incolor, rico em polissacarídeos, vitaminas (A, B, C, E), minerais (cálcio, potássio, magnésio, zinco), além de aminoácidos, enzimas e carboidratos e antraquinonas (substancias fenólicas responsáveis pelas defesas da planta e pelo sabor amargo das folhas). O gel é o produto da babosa mais usado como matéria prima na indústria cosmética, alimentícia e farmacêutica.


Aspectos agronômicos: Planta pouco exigente em clima e solo, porém, sensível à solos ácidos e pode necessitar correção com calcário antes do plantio. Nas regiões Centro-Oeste e Nordeste, ocorre de forma subespontânea em meio a vegetação nativa. Bastante cultivada em quintais, de onde se propagam naturalmente para outras áreas. Preferem solos arenosos e bem drenados e não necessitam muita água. Mas também se adaptam muito bem em regiões de clima ameno e com chuvas regulares. Em regiões mais frias do sul e sudeste, deve ser cultivada em locais protegidos de geada e ventos frios. Sua propagação é fácil, bastando-se retirar e transplantar as brotações laterais (rebentos). Plantas espontâneas ou aquelas cultivadas nos quintais sem muitos cuidados, levam de 2 a 4 anos para crescer até o ponto em que se possa retirar folhas. Já as plantas cultivadas comercialmente, as folhas podem ser colhidas a partir de 18 a 20 meses após o plantio. Para informações mais completas sobre plantio e tratos culturais, ver Queiroga et al. (2019) na bibliografia recomendada.

Atenção: Sempre se deve atentar para o uso medicinal cuidadoso da babosa. Existe grande quantidade de informações falsas, que podem resultar em sérios danos à saúde ao se fazer uso errado ou em quantidades acima do recomendado. A ingestão do sumo e do gel in natura, pode causar irritação gástrica, diarreia, cólicas e dores musculares intensas. Por isso, sempre que desejar fazer uso de uma planta medicinal, busque ajuda de um profissional de saúde que tenha conhecimento do assunto e seja de sua inteira confiança. Este site não faz recomendação de uso medicinal.

Bibliografia recomendada

Freitas, V.S. et al. Propriedades farmacológicas da Aloe vera (L.) Burm. f. Revista brasileira de plantas medicinais, 16, 299-307, 2014.

Lorenzi, H.; Matos, F.J.A. Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas. 2ª ed. Ed Plantarum. 2008.

Nascimento, M.R.B. et al. Benefícios da utilização da babosa (Aloe vera) na fitoterapia. Research, Society and Development, 10(16), 2021.

Queiroga, V.P. et al. Aloe vera (Babosa): Tecnologias de plantio em escala comercial para o semiárido e utilização. Campina Grande: AREPB, 2019.

Silva, A.F. et al. O uso do Aloe vera como coadjuvante no tratamento periodontal. Research, Society and Development, 10(1), 2021.



Não me aventuro muito pelo mundo dos cactos porque conheço pouco. Mas essas plantas me fascinam por sua imensa capacidade de sobreviver com tão poucos recursos. Entre as centenas de cactáceas, o gênero Tacinga, nativo da Caatinga e exclusivo do Brasil, é um dos que mais gosto. Os botões florais se assemelham às labaredas de fogo e as flores são belíssimas, de cor laranja intenso. Compõe muito bem com outras cactáceas em jardins xerofíticos, aqueles onde se usam pedras, cactos e outras plantas de clima seco para compor a paisagem. Os cactos guardam certo mistério e, para alguns, são até meio sem graça, mas quando florescem não há quem não se renda à beleza de suas flores.

Cumbeba é um dos nomes comuns pelos quais são conhecidas as espécies do gênero Tacinga. Mas as denominações variam muito conforme a região: quipá, gogóia, pelô e palmatória são outros nomes populares regionais para esses cactos.


Descrição botânica: Da família Cactaceae, plantas arbustivas ou subarbustivas, suculentas, com 0,2 a 5 m de altura. Os caules são compostos por partes menores, arredondadas, denominadas cladódios, achatados, com ou sem espinhos, a depender da espécie. As flores são solitárias, alaranjadas ou quase avermelhadas, surgem nas margens dos cladódios terminais de onde também surgem os frutos, globosos ou alongados, de coloração esverdeada a alaranjada, alguns cobertos por tufos com pequenos espinhos, quase imperceptíveis. A polpa dos frutos é levemente adocicada, translúcida e contém muitas sementes.

Onde ocorre: O gênero Tacinga é nativo e só ocorre no Brasil. São oito espécies quase que exclusivas da Caatinga, encontradas em locais muitos secos (vegetação xérica) e, geralmente, crescendo sobre rochas. É um dos gêneros de cactáceas mais comuns na Caatinga, ocorrendo naturalmente desde o nível do mar até altitudes superiores a 1500 metros.


Usos: Os frutos maduros são comestíveis, da mesma forma que o figo-da-índia, um dos frutos cactáceos mais consumidos no mundo. O consumo da polpa deve ser feito com cuidado, após a remoção completa da parte externa (casca), que contém minúsculos espinhos que podem causar irritação na pele e mucosa bucal. Os frutos de Tacinga inamoena, uma das espécies mais conhecidas na Caatinga, possui elevado teor de carotenoides e vitamina C, além de apresentar ação antioxidante.
Como planta ornamental, pode ser cultivada em jardins com outros cactos, no que se denomina xeropaisagismo, tendência crescente entre paisagistas e adeptos de cactáceas e suculentas. São jardins econômicos, com baixa manutenção e pouquíssimo consumo de água. As espécies de menor porte podem ser cultivadas em vasos ou floreiras, desde que expostos ao sol.
Como planta alimentícia o uso ainda é pouco difundido, pois os frutos são pequenos e contém pouca quantidade de polpa comestível, diferente de outras espécies de cactáceas já melhoradas geneticamente e amplamente usadas como fruta de mesa, caso da pitaya. Segue aí, mais uma dica aos colegas da pesquisa: olhem com mais carinho para as nossas frutas nativas!

Aspectos agronômicos: A produção de mudas se dá pela queda natural dos cladódios (pedaços do caule) que em contato com o solo enraízam e formam novas plantas. O mesmo processo pode ser feito de forma artificial, cortando-se os cladódios e colocando em vasos com terra ou no chão para produzir novas mudas. Os frutos também possuem a capacidade de gerar brotos, da mesma forma que os cladódios. Já a germinação é mais difícil em condições naturais. As regas devem ser bem espaçadas e em pouca quantidade, a fim de evitar que o excesso de umidade apodreça o caule. O cultivo é feito sempre em pleno sol, em solo arenoso e bastante permeável. Crescem bem também em regiões de Cerrado, onde a temperatura é amena e a estação chuvosa bem definida. Nestas condições, se observou florada no meio da estação seca.


Bibliografia recomendada

Meiado, M.V. Propagação sexual e assexual estruturando populações de Tacinga palmadora (Britton & Rose) NP Taylor & Stuppy, um cacto endêmico da Caatinga. Revista De Biologia Neotropical, 9(2), 6-13, 2012.

Souza, A.C.M.D. et al. Características físicas, químicas e organolépticas de quipá (Tacinga inamoena, Cactaceae). Revista Brasileira de Fruticultura, 29, 292-295, 2007

Zappi, D.; Taylor, N.P. 2020. Cactaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB1750>

Dia desses, andando por aí, tropecei em uma plantinha redondinha muito bonita e perguntei ao meu interlocutor do que se tratava e ele prontamente me apresentou a estévia. Planta de uso consagrado na produção de adoçantes. Mas meu espanto foi descobrir que se trata de uma planta nativa do Brasil, de ocorrência comum nas margens do Rio Paraná, entre o Brasil e o Paraguai. Suas folhinhas delicadas são adocicadas, razão pela qual a espécie é também conhecida como capim-doce, erva-doce, planta-doce ou folha-doce. Planta muito conhecida e de uso medicinal entre os índios guaranis, que a chamam, entre outros nomes, de azuc-caá, uma alusão às folhas doces.

Descrição botânica: Da família Asteraceae, planta herbácea, com 40 a 80 cm de altura e bastante ramificada. As folhas são simples, com aproximadamente 1 cm de comprimento e formato oblongo e alongado. As inflorescências reúnem numerosas flores brancas pequenas, formando capítulos terminais.


Onde ocorre: Planta nativa, mas não endêmica do Brasil, de ocorrência frequente nas margens do Rio Paraná, no estado Mato Grosso do Sul e em outras regiões ao longo da fronteira com o Paraguai e Argentina. A planta foi descoberta pelo botânico suíço Moisés Santiago Bertoni, nos idos de 1887, quando uma amostra das plantas cultivadas pelos índios guaranis no Paraguai foi enviada ao jardim botânico de Kew, na Inglaterra. Cientistas alemães estudaram a composição química da espécie e caracterizaram o agente adoçante esteviosídeo (entre outros compostos), hoje amplamente conhecido e utilizado na indústria de adoçantes sintéticos em todo o mundo.


Usos: Desde o século XIX ou bem antes, as comunidades indígenas guaranis já utilizavam as folhas de estevia misturadas com as da erva-mate, para adoçar o mate, bebida tradicional do Sul do Brasil. Os extratos das folhas de estevia possuem até 300 vezes mais poder adoçante que o açúcar convencional. A estévia é cultivada e usada a mais de 50 anos no Japão e em vários países europeus para a produção de adoçantes, em substituição à sacarose de cana. Também é usada como aditivo alimentar e como adoçante na indústria de bebidas dietéticas. Por ser um adoçante natural não calórico, resulta menos efeitos colaterais, não provoca cárie dentária, é eliminado naturalmente pelo organismo e ainda pode ser uma boa fonte de carboidratos, minerais, vitaminas e aminoácidos. As comunidades tradicionais usavam a estévia também no controle do diabetes, como diurética, no controle da pressão arterial e como tônico cardíaco.

Aspectos agronômicos: A propagação é feita mais facilmente por estacas de ramos jovens. A germinação das sementes também pode ser viável, mas o grande número de sementes chochas (inviáveis) dificulta a obtenção de mudas de qualidade. Prefere solos leves, ácidos e com umidade constante. É planta de região subtropical e suporta bem o frio. Em maiores altitudes, a parte aérea pode morrer no inverno, rebrotando tão logo se restabeleçam as condições ideais. A planta cresce bem em climas quentes como os do Cerrado do interior do Brasil, sendo recomendado cultivo irrigado nos meses de seca. A poda periódica dos ramos favorece a brotação e limita o florescimento, proporcionando plantas de menor porte e maior rendimento de massa foliar.


Curiosidades: Quando leio artigos científicos sobre a estévia, me chama atenção o fato de ser uma planta nativa do Brasil, conhecida e utilizada há séculos pelos povos indígenas, descoberta e estudada pelos colonizadores europeus no século XVIII e só estudada no Brasil no final dos anos 1980, quando o mundo todo, especialmente os japoneses, já dominavam o cultivo, processamento e transformação da matéria prima. Histórias como a da estévia se repetem até hoje com várias outras plantas nativas brasileiras, entregues gratuitamente a outros países pela falta de incentivos à ciência e tecnologia no Brasil. Me pergunto até quando vamos continuar a trocar madeira por espelhinhos e negligenciar a riqueza da nossa biodiversidade nativa. Precisamos conhecer para valorizar e aproveitar mais o que é nosso!


Bibliografia recomendada

Ahmad, J. et al. Stevia rebaudiana Bertoni.: An updated review of its health benefits, industrial applications and safety. Trends in Food Science & Technology, 100, 177-189, 2020.

Lorenzi, H.; Matos, F. J. A. Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas. Ed. Plantarum. 2002.

Nakajima, J. e Gutiérrez, D.G. Stevia in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB111704

Nieda, M.M. e Henzb, S.L. InfluêncIa da Stevia rebaudiana na saúde bucal. Revista da Faculdade de Odontologia de Porto Alegre, 60(2), 2019.

Tenho especial admiração pelas flores que atraem polinizadores e que fornecem alimento para as abelhas, afinal, sem abelhas não há alimento para os humanos! Me encanta a diversidade de cores e formas das zinias. Essas plantas lembram muito minha infância lá na roça. Por serem muito resistentes, de fácil cultivo e baixa manutenção, toda casa tinha ao menos uma zinia colorindo o jardim. Atualmente existem diversos híbridos e cores a venda no mercado nacional, tanto aquelas de porte pequeno, usadas como forração temporária no paisagismo urbano, quanto aquelas de porte alto cultivadas no jardim, cujas sementes se perpetuam de geração em geração.


Descrição botânica: Da família Asteraceae, ervas anuais, com porte ereto e altura variando de 40 a 60 cm como em Z. peruviana a mais de 1,0 m como em Z. elegans. Folhas simples, de textura áspera, medindo entre 6 a 14 cm. As flores, na verdade, são inflorescências tipo capítulo, que reúnem dezenas de minúsculas flores no centro. As inflorescências são coloridas e muito vistosas, podem ser simples ou dobradas e apresentam grande variação de cores.

Onde ocorre: As Zinnias são nativas da costa oeste da América do Sul, ocorrendo naturalmente desde a Argentina até o México. No Brasil, o gênero é considerado naturalizado e as duas espécies (Z. elegans e Z. peruviana) são cultivadas como ornamental em praticamente todas as regiões do país.


Usos: As plantas de porte menor, até 30 cm de altura, são utilizadas para cultivo como forração temporária, principalmente nos canteiros de ruas e avenidas ou como planta envasada. Já as de porte mais elevado, são mais usadas para a produção de flor de corte ou na composição de maciços e bordaduras. Por sua rusticidade, têm sido estudadas para a composição de jardins filtrantes, no tratamento de água cinza. Na região andina, a zinia é utilizada na medicina tradicional para o tratamento da malária, problemas hepáticos e digestivos, como antifúngica e antibacteriana. Estudos farmacológicos já confirmaram o potencial antibacteriano dos extratos das folhas de Z. peruviana. Além disso, diversos estudos apontam para uma multiplicidade de usos potencias destas espécies com fins terapêuticos. As inflorescências coloridas também são utilizadas na extração de corante para tecidos.


Aspectos agronômicos: Multiplicam-se com facilidade por meio de sementes. A semeadura pode ser feita diretamente no canteiro ou em bandejas próprias para mudas. Sua grande capacidade de multiplicação faz com que estejam presentes tanto em jardins quanto como invasoras em áreas recentemente alteradas, depósitos de terra ou entulho em áreas degradadas. O cultivo, feito sempre em pleno sol, é fácil e não requer muita manutenção. A floração dura quase o ano todo, sendo necessário, entretanto, renovar as plantas após cada ciclo.



Bibliografia recomendada

Lorenzi, H.; Souza, H.M. Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras. 4ª ed. 2008.

Satorres, S. E. et al. Antibacterial activity of organic extracts from Zinnia peruviana (L.) against gram-positive and gram-negative bacteria. Emirates Journal of Food and Agriculture, 24(4), 344, 2012.


Literalmente, essa é a planta da vez! A begônia-maculata, esquecida por muitas décadas, foi redescoberta pelos amantes de plantas ornamentais, tornando-se uma das espécies mais cobiçadas da atualidade. Sua folhagem é elegante e a florada delicada, é planta de fácil cultivo em ambiente interno ou externo. A bela petit pois confere um ar retrô ao ambiente, remetendo à moda dos anos 1950/60.

Como outras plantas ornamentais, o que encontramos no mercado nacional são híbridos ou variedades melhoradas geneticamente, que diferem entre si e, inclusive, da espécie original nativa. E há que se considerar também, a grande variabilidade genética existente dentro da espécie. Aqui não entrarei neste nível de detalhes, a parte botânica deixo para os especialistas resolverem, meu objetivo é apenas mostrar a beleza e possibilidades de uso de mais uma planta autenticamente brasileira, coisa que poucos sabem. As fotos que ilustram esta matéria são da begônia-maculata tal qual o leitor vai encontrar no comércio.


Descrição botânica: Da família Begoniaceae, planta herbácea, com 1 a 3 m de altura, caule ereto e cilíndrico. Folhas alongadas, com 10 a 15 cm de comprimento, pontiagudas, com porção superior verde escura ou verde amarronzada com pontuações acinzentadas e porção inferior de coloração avermelhada. As flores são reunidas em cachos, denominadas cimeiras, que podem conter de 40 a 50 flores brancas, com muitos estames amarelados no centro. As sementes são aladas, reunidas em pequenos frutos tipos cápsulas.


Onde ocorre: Planta nativa e endêmica do Brasil, ou seja, encontrada naturalmente apenas na Mata Atlântica dos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Alguns estudos apontam para a ocorrência da espécie também na Zona da Mata mineira e em áreas de mata úmida do Cerrado.

Usos: Planta ornamental amplamente cultivada no Brasil nos jardins das décadas de 1950 ou anterior. Por muitos anos foi relegada à condição de planta espontânea nos jardins das casas das avós do sul e sudeste do Brasil. Atualmente é um dos produtos mais raros e caros da floricultura nacional. Entretanto, com a visibilidade que a planta vem ganhando, espera-se que, em breve, haja um aumento da oferta e diminuição dos preços. Vai bem em vasos, floreiras ou mesmo no chão, cultivada sozinha, em maciços ou combinada com outras begônias.  A beleza de sua folhagem pintadinha e a delicadeza das flores, são um deleite a quem aprecia plantas diferentes.


Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita facilmente por estacas de galhos ou pela divisão das touceiras. Por sementes também é possível. Pode ser cultivada tanto em sol pleno como na sombra. O solo deve ser rico em matéria orgânica e com boa drenagem. As regas devem ser moderadas, porém, constantes. Plantas mantidas em vasos ou floreiras, devem receber adubação rica em fósforo para facilitar a floração e a manutenção de folhas vistosas. Na natureza as plantas florescem uma vez ao ano, com pico nos meses de verão. Já as plantas cultivadas podem florescer várias vezes ao ano, a depender do clima, umidade, da adubação e da aclimatação ao ambiente interno.


Bibliografia recomendada

Feliciano, C.D. Flora de Minas Gerais – Begoniaceae. 2009. https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/41/41132/tde-29102009-172815/publico/Carolina_Feliciano.pdf

Jacques, E.L.; Gregório, B.S. 2020. Begoniaceae in Flora do Brasil 2020.

http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB5663

Copaifera langsdorffii

Difícil encontrar quem não tenha usado ou ouvido falar de um dos remédios mais antigos do Brasil: o óleo de copaíba. Este óleo-resina (denominação correta), faz parte da medicina indígena há séculos, usado na cicatrização umbilical dos recém-nascidos e para curar os guerreiros feridos. Hoje o produto alcançou o mercado de fitoterápicos e pode ser facilmente encontrado em farmácias e ervanários, na forma de cápsulas, pomadas ou o óleo puro.

Existem muitas espécies de copaíbas, especialmente na Amazônia, de onde vem a maior parte do produto que abastece o mercado nacional e internacional. As copaíbas amazônicas (Copaifera multijuga, C. reticulata, C. guianensis, entre outras) se diferenciam da copaíba do Cerrado (Copaifera langsdorffii), entre outras coisas, pela coloração do óleo: a espécies amazônicas produzem óleo de cor amarelada, já a copaíba do Cerrado produz óleo de cor avermelhada, por esta razão também chamada de copaíba-vermelha. O óleo da copaiba do cerrado é mais raro e, por isso, mais dificil de ser encontrado no mercado.

Venda de óleo de copaibas amazônicas no mercado Ver-o-peso, Bélem/PA

Descrição botânica: Da família Fabaceae, as copaibeiras são árvores de médio a grande porte, com copa ampla. As folhas são compostas, com 2 a 12 pares de folíolos, de coloração verde brilhante. As flores são minúsculas, reunidas em inflorescências de até 30 cm no final dos ramos. Os frutos são do tipo cápsula, carnosos quando imaturos e secos quando em ponto de dispersão das sementes. Contém 1 ou, mais raramente, 2 por cápsula. As sementes são bem caraterísticas deste grupo de plantas: de cor preta e parcialmente envoltas por uma membrana (arilo) carnosa, de coloração laranja, amarela, branca, vermelha ou púrpura, a depender da espécie.

Folhas e flores de C. langsdorffii

Onde ocorrem: O gênero Copaifera é nativo do Brasil, onde são descritas 27 espécies de ocorrência distribuída em todo o território nacional e, muitas delas, ocorrem também na região amazônica de países circunvizinhos. C. langsdorffii é mais comum no Cerrado, mas também pode ser vista na Mata Atlântica, Amazônia e Caatinga.

Usos: Medicinal, arborização urbana, madeireira e na recuperação de áreas degradadas são alguns dos usos mais comuns. O óleo de copaíba é um dos remédios mais antigos da farmacopeia popular do Brasil, empregado na cura de diversos males: anti-inflamatório, cicatrizante, carminativo, laxativo, diurético, estimulante, tônico e emoliente, cosmético e no tratamento de sinusites, gripes, resfriados, dores no corpo, quebraduras, picadas de insetos, disenterias, incontinência urinária, psoríase, caspa, afecções dos pulmões, da pele e doenças sexualmente transmissíveis (...). Também é possível extrair óleo essencial das folhas e do óleo-resina, produto muito procurado para aromaterapia. Embora mais difícil de ser encontrado no mercado, o óleo-resina da copaíba do cerrado é avermelhado e mais viscoso, com potencial para uso na indústria de tintas e corantes. As cascas do tronco também fornecem corante amarelado para tecidos. O óleo de copaíba pode ser usado como fixador de perfumes e como ingrediente de produtos de higiene como sabonetes, espumas de banho, xampus, condicionadores, hidratantes corporais e capilares.

Frutos imaturos de C. langsdorffii

Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por sementes, da mesma forma que outras árvores, em saquinhos ou recipientes próprios para esta finalidade. Se as sementes forem recém colhidas, germinam entre 20 e 50 dias e estarão prontas para o plantio definitivo entre 9 a 10 meses. O solo deve ser leve, bem drenado e rico em matéria orgânica. O plantio deve ser feito longe de construções, calçadas ou muros, pois as árvores, embora cresçam lentamente, podem ultrapassar 10 m de altura, o que dificulta podas e tratos culturais. Recomenda-se que o cultivo seja feito em áreas abertas, a exemplo de parques urbanos e jardins tropicais amplos. As plantas perdem muitas folhas, especialmente a copaíba-do-cerrado, e não devem ser cultivadas próximas de piscinas ou lagos ornamentais, pois pode causar entupimento dos sistemas de filtragem.

Semente de C. langsdorffii

Curiosidades: O óleo de copaíba é extraído por meio de um furo no tronco, que vai até o cerne da planta onde estão os vasos que contém o óleo. Um pequeno cano é introduzido no local para facilitar o escoamento e coleta do óleo-resina. Já existem regras e manuais que orientam sobre a exploração sustentável do produto, frequência e modo correto de fazer a coleta. Por exemplo, coletas muito frequentes ou exposição do ferimento do tronco podem matar a planta em pouco tempo.

Atenção: Ao adquirir o óleo de copaíba, certifique-se de comprar de fornecedores idôneos, pois existe muita adulteração nos produtos vendidos no comércio informal. Vários estudos indicam adulteração do produto e/ou adição de óleo de soja para aumentar o volume e assim baratear o preço.

Óleo de copaíba e outros óleos vendidos no mercado Ver-o-peso, Bélem/PA

Bibliografia recomendada

Camillo, J. Copaifera langsdorffii (Copaíba). In: Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. 2018. https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade/fauna-e-flora/manejo-e-uso-sustentavel 

Costa, J.A.S. Copaifera in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB22895


Ah o amor! E se é agarradinho, fica ainda melhor! Ok, clichês à parte, o amor-agarradinho quando florido é um encanto! Chama atenção pela delicadeza de suas flores e pelo zumbido das abelhas ao seu redor. Para quem gosta de plantas atrativas ou trabalha com apicultura, essa pode ser uma boa opção para atrair abelhas. Mas há quem tenha repulsa da planta por este mesmo motivo. Entretanto, pode ser apenas por desinformação. As abelhas estão se alimentando e, à menos que sejam atacadas, não causarão qualquer problema a quem estiver por perto. O amor-agarradinho é planta de crescimento rápido, floresce quase o ano todo e é muito versátil. Vai bem como cerca-viva e no recobrimento de pergolados ou daquele canto sem graça no jardim. É bom lembrar que não é planta nativa do Brasil e tem alto potencial invasivo, por isso seu cultivo deve ser sempre monitorado para evitar problemas.

Descrição botânica: Da família Polygonaceae, trepadeira com gavinhas, ou seja, possui estruturas que permite subir (agarrar) com facilidade em troncos, cercas ou muros. Planta muito ramificada e de abundante folhação; folhas pecioladas de 5 a 10 cm de comprimento e formatos variando entre oval, oblonga, cordada (forma de coração) ou deltoide (triangular). As inflorescências são tipo racemos ou panículas, que reúnem centenas de pequenas flores brancas, rosadas ou, mais raramente, esverdeadas. Os frutos medem menos de 1 cm de comprimento e abrigam numerosas sementes de cor preta.


Onde ocorre: Planta de origem mexicana, cultivada em boa parte dos países tropicais devido à sua boa adaptação à diferentes tipos de clima e solo. No Brasil só é encontrada na condição de cultivada, mas está presente em praticamente todos os estados. Por aqui são cultivadas duas espécies, o A. leptopus e o A. guatimalense, de flores dobradas.

Usos: Planta para uso ornamental e apícola. Como planta ornamental pode ser usada para recobrir muros, cercas, treliças ou pergolados. Suas delicadas flores em forma de coração, atraem abelhas e pássaros, que se alimentam do néctar, flores e sementes. Como alimento apícola é importante ressaltar que existem plantas até mais eficientes, mas a importância do amor-agarradinho se dá especialmente em regiões de clima mais seco. Essa espécie pode florescer praticamente o ano todo, inclusive nos períodos de entressafra das plantas convencionais e, assim, fornece alimento e abrigo às abelhas nos períodos de maior escassez. Apesar de não ser uma planta nativa do Brasil, também fornece alimento para as abelhas nativas como as meliponas, por exemplo.


Aspectos agronômicos: A propagação é feita facilmente por sementes, por estaquia ou de ramos jovens ou alporquia. As sementes germinam em poucos dias e as mudas estão prontas para o replantio entre 90 a 120 dias. O cultivo é feito em pleno sol e não exige grandes cuidados com adubação. O uso de esterco (de gado, de aves ou uma mistura de ambos) ou composto orgânico já é suficiente para garantir uma boa floração. A adubação deve ser feita no plantio e, ao menos, 2 vezes ao ano a depender da condição das plantas e da intensidade da floração. As regas devem ser frequentes. O crescimento é vigoroso e em pouco tempo pode recobrir muros, cercas ou pergolados. Não exige grandes cuidados de manutenção, mas é importante efetuar podas de limpeza para que fique sempre bonita e florida, além de evitar o recobrimento de áreas não desejadas.


Cuidados: Planta com alto potencial invasivo. Deve ser cultivada sob monitoramento constante. A elevada quantidade de sementes pode facilitar sua propagação para áreas nativas, o que pode prejudicar a biodiversidade local. Existem vários artigos científicos relatando problemas com esta espécie em diversas ilhas do Caribe consideradas hotspots de biodiversidade. Por lá a planta é chamada de coralita e tem se alastrado de forma descontrolada causando prejuízos à fauna e flora locais.


Bibliografia recomendada

Heger, W.T.; van Andel, T. A social-ecological perspective on ecosystem vulnerability for the invasive creeper coralita (

Antigonon leptopus
) in the Caribbean: A review. Global ecology and conservation, 18, e00605, 2019.

Lorenzi, H.; Souza, H.M. Plantas ornamentais no Brasil: arbustiva, herbáceas e trepadeiras. 4ª ed. Ed. Plantarum. 2008.


Conhecida pelos nomes de flor-morcego ou planta-morcego, ela vem sendo popularizada no mundo todo como planta ornamental de vaso. Sua inflorescência negra é uma raridade no mundo das flores e, por isso, muito cobiçada. Apesar de suas folhas se parecerem muito com as do lírio-da-paz (Spathiphyllum spp. - Araceae), são plantas botanicamente distintas. Entretanto, o cultivo de ambas é muito parecido: sombra, luz difusa e boa umidade. O nome “flor-morcego” se deve a aparência das flores, parecidas com grandes morcegos que ocorrem no sudeste asiático, sua região de origem. Há ainda os que a chamam de bigodes-de-tigre, porque creem que suas inflorescências refletem um sinistro rosto de tigre com longos bigodes. Ou ainda, aqueles que a chamam de flor-do-diabo, pois acreditam ver a figura do “tinhoso” refletida em suas brácteas. Verdades ou lendas, sou fascinada por plantas com história!

Descrição botânica: Da família Dioscoreaceae, erva rizomatosa, com crescimento vertical até 1m de altura. Folhas grandes, com pecíolo de até 30 cm de comprimento, formato oblongo, com nervuras bem marcadas, 20 a 60 cm de comprimento, de coloração verde escura e textura lisa. As inflorescências são cimosas, com grandes brácteas de cor marrom, quase negras, e numerosas bractéolas filiformes (semelhantes a bigodes). Cada inflorescência pode conter de 15 a 20 flores igualmente negras, com base levemente esverdeada. Cada flor é composta por seis estames bem visíveis sobre o estigma floral. Após a polinização, forma-se o fruto, do tipo cápsula, que abriga muitas sementes pequenas, inicialmente de coloração marrom claro, passando a preto quando maduras. Já existe no mercado plantas desta mesma espécie com inflorescências e flores inteiramente verdes.


Onde ocorre: Espécie nativa das florestas tropicais do sudeste asiático, englobando Índia, China, Bangladesh, Laos, Camboja, Malásia, Siri Lanka, Tailândia, Vietnam e Mianmar. Nestas regiões ocorrem pelo menos 12 espécies do gênero Tacca, quase todas ameaçadas de extinção devido à fragmentação e destruição dos seus ambientes naturais.

Usos: A flor-morcego é planta de uso milenar na medicina chinesa e tailandesa, pois os rizomas são ricos em espirostanol, uma saponina com potencial para o tratamento de leucemia, além de anti-inflamatório e no trato de males do sistema digestivo. Existem muitos estudos científicos comprovando as propriedades farmacológicas desta planta, basta uma busca simples nos portais de artigos científicos para se encontrar um mundo de informações.

No paisagismo, a flor-morcego ainda é novidade por estas terras brasílicas. Atualmente seu uso mais expressivo tem sido como planta de vaso. Mas nos países de origem, a espécie é usada também em jardins e como flor de corte, que, neste caso, precisa ser cultivada em telados com pelo menos 30% de proteção solar ou, 60 a 70%, no caso de plantas envasadas. Como planta de vaso pode compor diversos espaços e vai bem mesmo em lugares com menor intensidade de luz.


Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, divisão dos rizomas ou por cultura de tecidos, no caso da produção comercial. No ambienta natural, a espécie produz grande quantidade de sementes viáveis, que germinam com facilidade. A grande vantagem da propagação por sementes para esta espécie é que os descendentes serão praticamente iguais à planta matriz, uma vez que a autopolinização é a sua principal forma de reprodução. Para fins de conservação de germoplasma, as sementes são ortodoxas e podem ser conservadas em câmaras frias por longos períodos.

Pouco se sabe sobre a produção de mudas e o cultivo na planta em condições brasileiras, mas os artigos científicos recomendam que a germinação seja feita em condição de boa luminosidade, em solo leve e úmido (60 a 70% de umidade) e temperatura entre 25 a 30◦C. As plantas em vaso podem ser cultivadas com facilidade em ambiente com luminosidade indireta e umidade constante. Tolera bem o transplantio e as mudas retiradas dos rizomas pegam com facilidade. Minha casa funciona como um laboratório e assim que tiver minhas primeiras sementes conto a vocês como foi a germinação.


Curiosidades: Os filamentos que circundam as flores, também chamados popularmente de bigodes, são, na verdade, bractéolas que ajudam na proteção das flores e na atração de moscas, que atuam como polinizadores eventuais. Considerando o alto investimento da planta em estrutura floral, até há pouco tempo os pesquisadores achavam que as flores-morcego precisavam obrigatoriamente de polinizadores para sua reprodução. Mas estudos mostraram que a maioria das sementes foi produzida por autopolinização, ou seja, não é preciso ter planta macho e fêmea para se obter sementes. Outros estudos, porém, associaram a cor e o odor das flores, imitando material orgânico em decomposição, como sendo um atrativo que facilita a polinização cruzada feita por moscas. O que estes estudos sugerem, na verdade, é que a espécie apresenta diferentes formas de reprodução que podem se adaptar mais a uma ou outra conforme os tipos de ambientes e/ou as ameaças a que as populações naturais sejam submetidas. É ou não é uma planta fantástica!!!


Bibliografia recomendada

Baruah, S. et al. Tacca chantrieri André (Taccaceae): A beautiful ornamental flora recorded as a new for India. NeBio, 6(1), 18-20, 2015.

Couto, R.S. 2020. Taccaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB232

Zhang, L. et al. Predicting mating patterns from pollination syndromes: the case of “sapromyiophily” in Tacca chantrieri (Taccaceae). American Journal of Botany, 92(3), 517-524, 2005.

Wiendi, N.M.A.; Palupi, E.R. Evaluation of horticultural traits and seed germination of Tacca chantrieri ‘André. Agriculture and Natural Resources, 51(3), 169-172, 2017.

As begônias arbustivas já foram muito cultivadas em quintais e jardins no século passado. Mas assim como acontece com a alimentação e o vestuário, as plantas ornamentais também entram e saem de moda. Por muitos anos as begônias nativas foram esquecidas e se perderam no tempo, mas hoje voltaram ao mercado e fazem a sensação dos amantes de plantas para interior. É fácil encontrar quem diga que “tinha muito delas na casa da minha avó/mãe, mas que nunca mais vi”. Muitos híbridos se mantiveram no mercado neste tempo, mas, para mim, nenhum tem a beleza das plantas originais. Então agora que elas voltaram à moda, podemos aproveitar para cultivar muitas espécies diferentes. São plantas lindas, resistentes e perfeitas para compor vasos, floreiras e aquele cantinho especial no seu jardim.

Descrição botânica: Da família Begoniaceae, plantas semi-herbáceas, medindo entre 1 a 1,5 m de altura, formando touceiras ralas que podem tomar conta de grandes espaços. Os caules são alongados, com nós e entrenós bem destacados. As folhas alongadas, pontudas e recortadas em maior ou menor grau, de coloração verde escura com pontuações prateadas e nervuras avermelhadas bem destacadas. As inflorescências formam cachos com inúmeras flores rosadas, com aspecto ceroso perolado. Os frutos são pequenos, tipo cápsulas aladas, para facilitar a dispersão.

Onde ocorre: Planta nativa do Brasil, só encontrada em estado natural na Mata Atlântica dos estados do Rio de Janeiro e Espirito Santo. Nas demais regiões é encontrada na condição de cultivada.

Usos: Planta de uso ornamental, cultivada no jardim em renques, maciços ou como planta isolada. Pode ser cultivada no chão, em floreiras ou vasos e, inclusive, como planta de interior, desde que em sacadas ou salas amplas com boa luminosidade. As flores são comestíveis e tem sabor levemente ácido, ideal também para enfeitar pratos de saladas ou sobremesas.

Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por estaca de galhos ou pela divisão das touceiras, e deve ser feita logo após a floração. As estacas devem ser enraizadas em ambiente quente e úmido, o que favorece a sobrevivência das mudas. Esta espécie pode ser cultivada em pleno sol ou meia-sombra, em solo rico em matéria orgânica e sempre com água em abundância. Não tolera seca. Em locais com estação fria bem definida, a floração é mais intensa durante o verão. Já onde a temperatura é elevada, a floração pode ser constante o ano todo.


Curiosidade: Se o leitor tiver a curiosidade de pesquisar pelo nome científico desta espécie, vai ver que existe pouquíssima literatura científica sobre ela. Ou seja, existe uma espécie nativa ornamental de alta relevância econômica, alta demanda de mercado e que praticamente nada se conhece sobre ela. Então de onde vem as mudas que abastecem o mercado atual? DE onde vem os híbridos e plantas selecionadas? Possivelmente tenham se originado de mudas retiradas da natureza e multiplicadas nos viveiros pelo Brasil a fora ou, até mesmo, por empresas internacionais, até chegar aos tipos de plantas cultivadas que temos hoje. Para que uma espécie chegue ao mercado com segurança, é fundamental que se rastreie todas as etapas produtivas, desde a coleta das mudas na natureza, a multiplicação e todo o processo de melhoramento. Isso favorece não apenas o desenvolvimento de novas variedades, mas também a conservação da espécie no seu ambiente natural. Fica a dica!

Bibliografia recomendada 

Jacques, E.L.; Gregório, B.S. 2020. Begoniaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB5565
Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.