A alface-d’água é uma das plantas aquáticas mais amplamente usadas no aquarismo e no paisagismo. Sua folhagem pilosa e sempre verdinha é o maior atrativo ornamental. Em lagos ornamentais, ajuda na manutenção do microclima, fornece proteção e alimento para peixes e outros microrganismos, além de proteger a fauna aquáticos da insolação direta. Entretanto, é planta de alto potencial invasivo, que deve ser usada com cuidado e em locais específicos.

Descrição botânica: Da família Araceae, a alface d’água é uma erva aquática flutuante, perene, que pode medir de 15 a 20 cm de altura. As folhas possuem aspecto aveludado, coloração verde-amarelada, textura interna esponjosa (ajuda na flutuação), com nervuras longitudinais bem marcadas; as folhas são reunidas em roseta, com raízes pendentes e alongadas. As flores são diminutas, esbranquiçadas e quase imperceptíveis entre a folhagem.


Onde ocorre: Planta nativa do Brasil, porém, não endêmica. Encontrada em boa parte dos países de clima tropical e subtropical. Conhecida também como repolho-do-nilo (Nile cabbage), devido à sua ocorrência comum às margens do Rio Nilo, fazendo crer que a espécie fosse originária da África. Entretanto, novos estudos mostraram se tratar de uma espécie com distribuição pantropical (por todas as regiões dos trópicos), e seu centro de origem ainda é considerado incerto.

Usos: Planta de uso ornamental, muito comum em aquários, lagos e espelhos d’água. Na Índia, é usada na medicina popular no controle de tosse, asma, como laxativa, diurética e antimicótica. Suas folhas são ricas em vitaminas A e C, além de fitoesteroides que podem ser usados na produção de medicamentos. Com potencial de uso na fitorremediação de ambientes naturais.


Aspectos agronômicos: Multiplica-se com facilidade pela separação das plantas que surgem no final dos ramos (estolões). É comum ver uma planta adulta com uma dezena, ou mais, de plantas pequenas em volta, cada uma forma uma nova muda. Prefere climas quentes, onde se propaga com maior velocidade. Periodicamente, deve ser feita a retirada do excesso de plantas, a fim de evitar que a espécie cubra toda a superfície do tanque e cause a morte dos demais organismos aquáticos, necessários para o equilíbrio do ambiente.

A espécie possui ampla capacidade reprodutiva tanto por meio de estolões quanto por sementes, produzidas o ano inteiro e em grande quantidade. Prolifera-se descontroladamente em águas poluídas, sendo considerada invasora de canais e margens de rios urbanos.


Curiosidades: Na Índia, Estados Unidos e em alguns países africanos a infestação das águas por P. stratiotes é tão grande que tem sido estudado diferentes formas de erradicação e/ou aproveitamento econômico da espécie. Estudos mostraram que sua biomassa pode ser usada na produção de biogás; na remoção de arsênico, cádmio, cromo e mercúrio em ambientes aquáticos contaminados por vazamentos de produtos químicos; e ainda, pode ser insumo para a produção de biomoléculas e compostos farmacêuticos.

Cuidados: Espécies aquáticas são frequentemente associadas à procriação de mosquitos da dengue. Para evitar infestação, uma ou duas vezes por semana, deve-se efetuar uma boa rega sobre essas plantas. O que parece uma horrível redundância é, na verdade, uma forma natural eficiente de manter as plantas sempre limpas e livres das temidas larvas. A lavagem das plantas interrompe o ciclo das larvas e dificulta sua chegada à fase adulta. No caso dos lagos ornamentais, essa prática facilita que as larvas caiam no interior do tanque e sejam comidas pelos peixes.


Bibliografia recomendada

Mayo, S.J.; Andrade, I.M. 2021. Pistia in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB5070

Tripathi, P. et al. (2010). Pistia stratiotes (Jalkumbhi). Pharmacognosy Reviews, 4(8), 153, 2010.


Muitas pessoas ainda se referem à erva-de-jabuti como espécie invasora e de pouca serventia. Mas não é bem assim. Esta planta já é bastante usada na medicina tradicional do Norte do Brasil e em países vizinhos. Recentemente foi classificada como PANC (Planta Alimentícia Não Convencional) e foi descoberta pelos chefes de cozinha, que já criaram iguarias muito interessantes. De risotos a ceviches, a erva-de-jabuti é mais um caso de planta nativa que é mais conhecida fora do País do que em sua própria casa. Imagina o quanto perdemos em sabor e nutrientes por não conhecermos e valorizarmos nossa flora nativa? É isso que move o trabalho da Planta da Vez: fazer conhecer a riqueza de cores, sabores e saberes do Brasil!

Descrição botânica: Da família Piperaceae, planta herbácea, anual, ereta, ramificada, com caules tenros e quase translúcidos, medindo até 40 cm de altura. Seu crescimento pode ser ereto ou mais prostrado, conforme a região e o clima. Possui folhas simples, pecioladas, alternadas, com nervura central saliente, bordas lisas, formato de coração e comprimento entre 1 a 3 cm. As inflorescências são do tipo espigas, eretas, cilíndricas, reunindo numerosas flores diminutas e de cor esverdeada.


Onde ocorre: Planta nativa do Brasil com ocorrência natural em praticamente todo o território nacional. Cresce em áreas abertas e úmidas, sendo considerada invasora em vários locais. Muito presente em pomares e estufas de plantas, onde cresce viçosa e abundante.

Usos: Seus ramos e folhas jovens podem ser consumidos crus ou refogados, usados no preparo de saladas, bolinhos fritos ou assados, pizzas, risotos e o que mais sua imaginação culinária permitir. Cada 100g de folhas secas contém, em média, 258 kcal, 46,5 g de carboidratos e 6.977 mg de potássio. Atualmente, em algumas boas feiras regionais, é possível encontrar a planta sendo vendida como hortaliça folhosa fresca. As inflorescências, muito aromáticas, podem ser usadas como tempero, semelhante ao uso que se faz com as inflorescências de pimenta-longa (Piper aduncum).

A erva-de-jabuti também é usada na medicina popular da região Norte contra tosses, resfriados, como anti-inflamatória e no controle do colesterol e pressão alta. No México e em outros países da América Central, a espécie também é bastante conhecida na medicina tradicional, onde é chamada de corazon de hombre, yerba de la planta ou herbe a la curesse. Na Malásia, é consumida como alimento e chamada de ketumpangan air. Em inglês, a espécie é conhecida pelos nomes de greenhouse tea plant, pepper elder ou rat ear.


Aspectos agronômicos: Pouco se conhece sobre o cultivo desta espécie, uma vez que é mais comum a colheita em áreas onde ela cresce espontaneamente. A propagação é feita unicamente por sementes, que possuem alta germinação e crescimento rápido das mudas. O cultivo pode ser feito com base na observação dos locais de ocorrência natural da espécie: em áreas sombreados ou semi-sombreados, com solo rico em matéria orgânica e água em abundância.

Cuidados: Quando se conhece pouco a respeito de uma planta e alguém lhe diz que é comestível, inicialmente, consulte um agrônomo, um biólogo ou outro profissional que conheça muito sobre identificação botânica. O consumo de plantas e cogumelos sem a correta identificação pode causar intoxicações graves ou até levar à morte do indivíduo. Seja prudente, cuide-se e aproveite os sabores com segurança!

Bibliografia recomendada

Carvalho-Silva, M.; Monteiro, D. Peperomia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB12686

Kinupp, V.F.; Lorenzi, H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. Ed. Plantarum. 2014.
Peperomia circinnata

As peperômias formam um dos grupos de plantas mais amplamente utilizados no paisagismo e na composição de vasos para decoração de interiores. Algumas espécies são minúsculas e pouco conhecidas da maioria das pessoas. Elas crescem sobre pedras e trocos de árvores e são belíssimas. Estas duas que vamos falar hoje podem ser cultivadas em vasos, da mesma forma que as suculentas, ou sobre troncos no jardim. Além disso, são plantas nativas das florestas úmidas do Cerrado, belezas da nossa biodiversidade que precisam ser mais bem conhecidas.

Peperomia circinnata

Descrição botânica: Ervas epífitas (crescem sobre os troncos de outras espécies sem parasitá-las) com caules finos e alongados, que se estendem ao longo do hospedeiro, de crescimento ascendente (P. campinasana) ou não-ascendente (P. circinnata). As folhas são pequenas e suculentas: arredondadas e levemente rosadas em P. circinnata, ou com base aguda e levemente rajadas em P. campinasana. As inflorescências são pequenas, em forma de espigas, eretas, solitárias, contém muitas flores pequenas esbranquiçadas ou acobreadas, a depender da espécie, e minúsculos frutinhos globosos de cor marrom ou quase pretos.

Peperomia circinnata

Onde ocorrem: Espécies nativas, porém, não endêmicas do Brasil. Peperomia circinnata apresenta ampla ocorrência natural no Brasil, com predomínio nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica. Já P. campinasana tem ocorrência mais restrita, sendo encontrada no Cerrado e na Mata Atlântica.

Usos: Plantas de uso ornamental, tanto na composição de vasos quanto no jardim, cultivadas sobre trocos ou pedras. Elas podem recobrir troncos com sua folhagem minúscula, o que confere um aspecto muito bonito e agradável ao jardim. P. circinnata, devido à característica de ramos não-ascendentes, é a mais adequada para o cultivo em vasos, onde forma uma cortina pendente muito bonita. Já P. campinasana, por seu crescimento ascendente, adapta-se melhor no recobrimento de superfícies como os caules de árvores, palmeiras e samambaiaçus.

Peperomia campinasana

Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita por meio de pedaços de ramos com folhas, colocados sobre a superfície que se quer recobrir ou sobre placas de fibras naturais (placas de fibra de coco, por exemplo). Também é possível aproveitar as sementes, colhendo-se as espiguetas com os frutos pretos maduros e colocar para germinar sobre esfagno ou outro substrato leve, com umidade constante. A germinação também pode ser feita sobre papel úmido, com posterior transplantio das mudinhas para os vasos. As plantas preferem ambientes úmidos e sombreados, mas é bom lembrar que a rega deve ser moderada. O excesso de umidade apodrece os caules. A rega deve ser feita sempre que o ambiente estiver completamente seco.

Peperomia campinasana

Recomendação: Para quem visitar Pirenópolis e Cidade de Goiás, em Goiás, observe os muros de pedra do casario histórico, são recobertos de peperômias. Em Belém/PA, essas minúsculas plantinhas crescem naturalmente sobre as mangueiras gigantes e centenárias, um deleite para quem aprecia os detalhes.

Cuidado: É sempre bom lembrar que a retirada de plantas de seus ambientes naturais é crime ambiental. Compartilhe mudas já existentes nos jardins ou, sempre que possível, procure comprar mudas de viveiristas idôneos. Entretanto, por se tratar de plantas nativas e pouco conhecidas, é difícil encontrar mudas a venda no comércio. A Planta da Vez trabalha para que, um dia, quem sabe, elas estejam disponíveis facilmente e ao alcance de todos, sem destruir a natureza.

Peperomia campinasana


Bibliografia recomendada

Carvalho-Silva, M.; Monteiro, D. Peperomia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB12633

Carvalho-Silva, M.; Monteiro, D. Peperomia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB12627

Guimarães, E.F.; Medeiros, E.V.S. Peperomia circinnata e Peperomia campinasana (Peperomia). In: Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro Região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018.


A capuchinha é uma planta nativa do Peru e regiões andinas, muito bem adaptada no Brasil. É uma das flores mais consumidas na culinária nacional. O nome “capuchinha” se deve ao fato de que as folhas, quando vistas pelo dorso, lembram um capuz. Já o epíteto científico Tropaeolum deriva da palavra grega “tropaion” ou tropa, em português. Alguns dizem que as folhas agrupadas lembram os escudos de tropas de guerreiros, outros dizem que se parece com capacetes. Escudo ou capacete, não importa, bom mesmo é aproveitar esse sabor e incorporar a capuchinha na alimentação, pois é uma planta fácil de cultivar, decorativa, tem poucas calorias e, como diria minha avó, faz bem para os olhos!


Descrição botânica: Da família Tropaeolaceae, planta de caule liso e prostrado. Folhas simples, com até 12 cm de comprimento, arredondadas (orbiculares) e com presença de pilosidade na parte inferior, possui nervuras bem-marcadas e um ponto central esbranquiçado. As flores são bem características da espécie; na parte posterior da flor existe uma estrutura comprida denominada cálcar, que pode ser reto ou recurvado, medindo entre 2 a 2,5 cm de comprimento. As pétalas são obovadas, com ápice arredondado e as cores podem variar entre diversa tonalidades de laranja, amarelo ou vermelho.


Onde ocorre: Espécie nativa do Peru e considerada naturalizada no Brasil, onde pode ser encontrada em quase todo o país, com predomínio na áreas de Mata Atlântica e regiões mais úmidas, entre o Rio Grande do Sul e o Ceará. Planta bastante cultivada em hortas caseiras ou encontrada vegetando de forma espontânea ou até como invasora em alguns locais.


Usos: As flores e folhas são comestíveis, com sabor levemente picante e azedinho, usadas em saladas cruas e na decoração de pratos. O sabor das folhas lembra um misto entre rúcula e agrião e ficam deliciosas quando mescladas em salada de folhas. As sementes são usadas em conservas e seu sabor lembra a alcaparra, razão pela qual também são conhecidas popularmente como falsa-alcaparra. As flores podem ser consumidas cruas, desidratadas, embebidas em álcool ou xarope de açúcar para uso na decoração de doces ou coquetéis. Quanto à composição nutricional, é um alimento de baixo valor calórico, rico em carotenoides, especialmente luteína, composto ligado à prevenção de catarata e glaucoma.

A folhagem e floração da capuchinha, que dura o ano todo em regiões mais quentes, propicia seu uso como planta ornamental em canteiros, vasos ou floreiras. Além disso, possui importante função ecológica por fornecer alimento à diversos tipos de abelhas e outros polinizadores importantes.


Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita por sementes, que geram plantas mais vigorosas, e deve ser priorizada quando o objetivo é renovar o canteiro. A divisão dos caules e replantio também funciona e pode ser usada para ampliar o plantio já existente. O cultivo pode ser feito o ano todo, em ambiente sombreado ou meia-sombra, desde que não falte água. O solo deve ser rico em matéria orgânica, leve e bem drenado, pois essas plantas não toleram encharcamento. A colheita pode começar cerca de 50 dias após o plantio e, em cultivo bem cuidado, pode se estender ao longo do ano todo. A colheita do dia, que não for aproveitada de imediato, pode ser higienizada e guardada em sacos plásticos na geladeira por até 7 dias.



Bibliografia recomendada

Botrel, N. et al. Hortaliças Não Convencionais – Hortaliças tradicionais: Capuchinha. Folder. Embrapa Hortaliças. 2017. https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/1071363/hortalicas-nao-convencionais-hortalicas-tradicionais-capuchinha

Souza, V.C.; Lima, A.G.; Paula-Souza, J. Tropaeolaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB599289


As ninfeias são plantas muito fotogênicas e deixam qualquer espelho d’água muito mais elegante e vistoso. Aqui em Brasília, nos lagos e espelhos d’água é muito comum a presença dessas plantas no paisagismo. Os lagos são essenciais em regiões com estação seca, como o Centro-Oeste, porque, além de beleza, propiciam conforto térmico e elevam a umidade do ar nos meses mais secos. Alguns dos lagos e espelhos d’agua mais bonitos estão nos jardins do Palácio do Itamaraty, Jardim Botânico de Brasília, na Praça dos Cristais e na Universidade de Brasília, onde costumo passar horas admirando os projetos de Burle Marx e, claro, as flores das ninfeias.
Existem ao menos três espécies mais usadas em paisagismo de lagos e espelhos d’água no Brasil: a Nymphaea alba, conhecida pelo nome popular de ninfeia-branca; a N. caerulea, conhecida como ninfeia-azul ou lírio-d’água; e a N. rubra, chamada popularmente de ninfeia-vermelha ou nenúfar.


Descrição botânica: Da família Nymphaeaceae, plantas herbáceas, aquáticas, emersas, enraizadas no lodo do fundo de lagos e locais pantanosos. As folhas podem ser flutuantes ou semiflutuantes, a depender da espécie, de formato orbicular (arredondado), com bordas lisas ou dentadas, sustentadas por longos pecíolos que as ligam com a superfície; durante os meses de temperaturas amenas ou em locais com inverno mais acentuado, as folhas caem, rebrotando dos rizomas quando se inicia a primavera. As flores são de tamanho médio a grande, solitárias, com muitos estames no centro. A floração é mais intensa nos meses mais quentes do ano.


Onde ocorrem: Embora o gênero Nymphaea seja considerado nativo do Brasil, distribuído por todo o país e com 21 espécies nativas descritas, as três usadas no paisagismo e aqui citadas são exóticas, e tem origens diversas. As ninfeias branca e azul são oriundas da África do Sul, enquanto a ninfeia-vermelha tem origem na Índia. N. alba é a que possui maior distribuição natural, ocorrendo também na Europa e Ásia. Fica aqui minha dica ao pessoal da pesquisa: que tal pesquisarmos mais sobre as ninfeias nativas para poder aproveitar essa beleza autenticamente brasileira?


Usos: No Brasil, as ninfeias são usadas exclusivamente no paisagismo de espelhos d’água, lagos e piscinas naturais. A folhagem é muito ornamental e está presente quase o ano todo. As flores são um espetáculo à parte. Em alguns países onde as plantas são nativas, podem ser usadas na biorremediação e na recuperação de cursos d’água contaminados por metais pesados, devido à sua boa capacidade de absorção dessas substâncias. N. caerulea tem sido estudada pela presença de antioxidantes em suas flores azuis, o que lhe confere potencial medicinal. Estudos em laboratório demonstraram que N. alba apresentou atividade ansiolítica, antitumoral e antifúngica, com potencial futuro para o desenvolvimento de fitofármacos.


Aspectos agronômicos: A propagação pode ser feita pela divisão de rizomas ou pelas sementes que germinam de forma espontânea dentro da água. Em espelhos d’água seu cultivo deve ser feito em pequenos tanques submersos, com 50 ou 70 cm de profundidade, para que as raízes possam se fixar no solo e onde os rizomas permaneçam dormentes nos meses mais frios. O cultivo deve ser feito em pleno sol. Periodicamente devem ser efetuadas limpezas de manutenção nos tanques, eliminando-se o excesso de plantas que podem tomar todo o espaço livre e comprometer a sobrevivência de outras plantas ou, até mesmo, dos peixes. As limpezas ajudam a manter o ambiente limpo, saudável e as plantas bonitas por muitos anos.


Cuidados: Ao implementar um projeto de paisagismo usando ninfeias não nativas, é importante tomar alguns cuidados para que as plantas não se desloquem para dentro dos rios e lagos naturais. Elas devem ser mantidas sob contenção, pois possuem alta capacidade reprodutiva e podem se tornar invasoras potenciais, comprometendo a flora e fauna nativas de áreas adjacentes. Sempre que possível, em projetos de paisagismo que envolvam lagos artificiais, piscinas naturais ou espelhos d’água, deve-se dar preferência ao uso de espécies nativas, a fim de valorizar a nossa rica biodiversidade e minimizar riscos biológicos. O equivalente nacional seria, além das próprias ninfeias nativas menos conhecidas, a vitória-régia (Victoria amazonica), que vamos falar em outra matéria.

Bibliografia recomendada

Cudalbeanu, M. et al. Antifungal, antitumoral and antioxidant potential of the danube delta Nymphaea alba extracts. Antibiotics, 9(1), 7, 2020.

Heslop-Harrison, Y. Nymphaea L. Journal of Ecology, 43(2), 719-734, 1955.

Lorenzi, H.; Souza, H.M. Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras. Ed. Plantarum. 2008.

Pellegrini, M.O.O. Nymphaeaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. 2021. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB10936

A erva-baleeira é uma ótima fonte de óleos essenciais para uso medicinal, cosmética e perfumaria. O programa Farmácia Viva do governo do Distrito Federal produz e disponibiliza à população um gel à base de erva-baleeira, para uso como anti-inflamatório. 
Laboratórios farmacêuticos já usam a planta na produção de medicamentos e produtos para a higiene de bebês. O óleo essencial é rico em α-humuleno e o β-cariofileno, com propriedades terapêuticas já comprovadas e amplamente utilizadas na medicina contemporânea. 
Esta planta é um exemplo de sucesso do aproveitamento econômico e curativo da biodiversidade brasileira.


Descrição botânica: Da família Boraginaceae, planta arbustiva, com até 1-1,5 m de altura e muito ramificada. As folhas são pecioladas, com formato alongado (lanceoladas) e ápice agudo (com ponta); as bordas podem ser crenadas (rendadas) ou denteadas. A inflorescência é tipo espiga, com até 15 cm de comprimento, composta por numerosas flores pequenas de cor branca. O fruto é bem pequeno, tipo drupa, vermelho quando maduro e contém uma semente.


Onde ocorre: A erva-baleeira é nativa, porém, não exclusiva do Brasil, com ocorrência em outros países da América do Sul, América Central e México. É encontrada com facilidade em quase todo o território nacional na condição de cultivada e em populações naturais por toda a costa brasileira. No litoral, habita com maior frequência as áreas de restinga. Nos demais locais, é frequente em pastagens, terrenos baldios, beira de estradas e de matas alteradas. Em algumas regiões é considerada invasora, pois rapidamente forma densos agrupamentos.

Usos: O maior uso comercial da erva-baleeira é a extração de óleo essencial de suas folhas por meio uma técnica chamada arraste de vapor, que preserva as qualidades medicinais e propicia seu uso em diversas aplicações farmacêuticas e cosméticas. Na medicina popular, entre outras aplicações, as folhas são usadas como anti-inflamatório, analgésico, no tratamento de artrite, contusões e ferimentos da pele. A erva-baleeira é uma das poucas plantas medicinais nativas que consta oficialmente na Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (RENISUS) e tem sido amplamente utilizada pela indústria farmacêutica na produção de um dos anti-inflamatórios mais conhecidos no Brasil, a linha Achéflan.


Aspectos agronômicos: Planta de crescimento vigoroso, cultivada em pleno sol ou meia sombra, em locais com clima quente e úmido. Prefere solos com textura arenosa, menor acidez e constantemente úmidos. 
A floração ocorre mais intensamente nos meses de verão, entre dezembro e março. 
Propaga-se facilmente por sementes ou por estacas de ramos jovens. 
O plantio deve ser feito com espaçamento de 1,2 m entre plantas e linhas e, em regiões onde há estação seca, o plantio das mudas deve ser feito no início da estação chuvosa. 
A colheita se inicia cerca de um ano após o plantio e as folhas podem ser colhidas o ano todo. Recomenda-se cautela na aquisição de mudas e a certificação da correta identificação da planta, além do conhecimento sobre a “variedade” mais adaptado para cada região. 
O rendimento de óleo essencial varia de planta para planta, conforme o clima e o horário de colheita. 
A escolha da área para o plantio deve priorizar locais livres de contaminações por metais pesados, com água de boa qualidade e em quantidade e onde seja possível implementar práticas de cultivo consorciado, rotação de culturas e/ou cultivo mínimo. 
De modo geral, a produção de plantas medicinais prima pelo cultivo orgânico e requer uso intensivo de mão de obra. Os produtos resultantes possuem elevado valor agregado, porém, as exigências quanto à qualidade e constância da matéria prima são bastante elevadas.


Curiosidades: A fama de medicinal da erva-baleeira já é bem antiga e seu nome deriva do uso feito pelas comunidades de pescadores que, durante a época de caça às baleias, usavam suas folhas na cura de feridas causadas por espetadas de peixes. Existem relatos mais antigos de que os índios Caiçaras também usavam a planta de forma semelhante. As folhas eram usadas em banhos ou maceradas e combinadas com outros ingredientes, na forma de creme ou emplastro, aplicado em ferimentos para acalmar a dor e facilitar a cicatrização.

Observação importante: Os usos medicinais aqui citados são fruto de pesquisa acadêmica e conhecimento científico validado. Mas sempre é bom salientar que não se deve fazer uso de plantas medicinais ou qualquer tipo de medicamento sem o acompanhamento de um bom profissional de saúde. Cuide-se e cuide de sua família da forma correta!

Bibliografia recomendada

Lorenzi, H.; Matos, F.J.A. Plantas medicinais no Brasil: nativas e exóticas. Instituto Plantarum. 2002.


A pitanga é um símbolo de brasilidade! Suas cores, sabor e a forma peculiar do fruto fazem dela uma das frutas queridinha dos brasileiros. Embora a planta seja considerada nativa da Mata Atlântica e muito representativa das regiões Sudeste e Sul, minhas voltas por aí mostraram que ninguém faz uso tão bem da pitanga quanto o Nordeste, onde é fácil se deliciar com o frescor de um suco ou um bom sorvete da fruta madurinha. 
Para mim a pitanga tem sabor de infância, suas flores muito perfumadas atraem as abelhas e os frutos coloridos são um banquete aos pássaros. Doce ou azedinha, vermelha ou quase preta, não se dispensa uma pitanga madurinha! 

Descrição botânica: Família Myrtaceae, arbusto de 2 a 4 m de altura, muito ramificada e com copa arredondada. Folhas simples, opostas, pecioladas, de formato ovalado e coloração variando entre avermelhadas a verdes claras quando adultas. As folhas caem parcialmente em algum período do ano. As flores são pequenas, brancas e muito perfumadas, reunidas em pequenos cachos ao longo dos ramos. Os frutos são do tipo baga, arredondados com sulcos longitudinais bem marcados, inicialmente são verdes, passando a vermelhos ou quase negros quando maduros, e podem conter de 1 a 3 sementes. 


Onde ocorre: Planta nativa, não endêmica do Brasil, sendo encontrada em outras países da América Tropical. Nativa da Mata Atlântica, encontrada naturalmente desde o Rio Grande do Sul até Alagoas. Também pode ocorrer na Caatinga, no Cerrado e no Pampa. Na Amazonia é encontrada na condição de cultivada. 


Usos: A pitanga pode ser consumida in natura ou processada, na forma de polpa, usada em sucos, geleias, sorvetes, licores, iogurte ou como aromatizante de bebidas. Uma das grandes qualidades nutricionais da polpa da pitanga é seu elevado teor de vitamina A (635mg/100g), além de conter micronutrientes com o cálcio e magnésio e apresentar baixo valor calórico. 
As folhas são fonte riquíssima em óleos essenciais, usados na aromaterapia e na produção de fitocosméticos. A polpa dos frutos também é matéria prima para a elaboração de produtos cosméticos, de higiene e limpeza como cremes, xampus e condicionadores. 
A planta, por seu porte reduzido e boa adaptação aos diferentes climas, é usada no paisagismo tanto para o cultivo no jardim quanto como planta de vaso. Suporta bem podas e pode ser indicada para uso como cerca viva. 
Na natureza possui papel ecológico importante como fonte de alimentos e abrigo para a fauna nativa. Também faz parte do compêndio de remédios da medicina popular, onde as folhas são usadas para banhos e chás no combate à febre, dores em geral e como calmante. 


Aspectos agronômicos: A pitanga pode ser cultivada em todo o Brasil. É planta rústica e se adapta com facilidade aos diferentes climas no Brasil. Pode florescer várias vezes ao ano em temperaturas mais quentes, com um pico entre os meses de agosto e dezembro e outro entre fevereiro e julho. A produção de mudas é feita mais facilmente por sementes, colhidas de frutos maduros e germinadas longo em seguida. As sementes devem ser germinadas em substrato rico em adubos orgânicos (gado e aves) e o surgimento das plantas se dá após 20 a 30 dias do plantio. As mudas devem ser plantadas em seu local definitivo quando atingirem 25 cm de altura ou mais. Também é possível adquirir mudas prontas para o plantio com seu viveirista de confiança. Mudas de boa procedência são mais saudáveis e frutificam precocemente. 

Curiosidades: A pitangueira, por seu porte elegante e crescimento moderado, tem sido muito utilizada como planta de vaso, da mesma forma que a jabuticaba. Mas é importante ressaltar que seu cultivo em apartamentos ou varandas deve ser feito em local com muita luz e, se possível, com sol em algum período do dia. Em locais com pouca luz a planta perde as folhas e morre mais facilmente. O vaso deve ser de tamanho grande para que as raízes se desenvolvam de forma satisfatória e a planta permaneça bonita por mais tempo. 


Bibliografia recomendada

Bezerra, J.E.F. et al. Eugenia uniflora (pitanga). In: Coradin, L.; Camillo, J.; Pareyn, F. G. C. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Nordeste. 2018. https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/189688/1/Livro-Nordeste-1-2018.pdf 

Mazine, F.F. et al. Eugenia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB10560

 

Você já ouviu falar no juçaí? Não? Então saiba que os frutos da juçara ou palmeira-juçara que ocorre na Mata Atlântica, são o equivalente sulista ao açaí do Norte. Pessoalmente, gosto mais do juçaí, pois acho o sabor mais suave do que o açaí comercial que conhecemos. Os sabores são mais bem comparados e apreciados quando se prova as polpas ao natural, sem adição de açúcar. A versatilidade de usos, o sabor e a composição nutricional do açaí e do juçaí são muito semelhantes: puro, gelado ou natural, doce ou salgado, com peixe, granola, farinha, sorvete ou suco, é muito bom de qualquer jeito! 

Durante muitos anos as populações naturais da palmeira juçara foram dizimadas para a extração do palmito, atividade que resulta na morte das plantas e no desaparecimento da palmeira do ambiente natural. A este fato somado à devastação da Mata Atlântica, reduzida a menos de 17% de sua cobertura original preservada (SOS Mata Atlântica, 2021), resultou no elevado risco de extinção de várias espécies, entre elas a juçara. Atualmente, essa palmeira tem seu corte proibido em ambiente natural, e o palmito nosso de cada dia já vem de fontes sustentáveis, a partir de plantios comerciais ou do manejo sustentável da pupunha (uma palmeira amazônica) e da própria juçara. Daí decorre a importância de conhecer os produtos que se consome, o consumo consciente é parte importante na conservação da nossa biodiversidade. 


Descrição botânica: Da família Arecaceae, palmeira de caule único com tronco medindo até 15 m de altura e 15 cm de diâmetro (DAP). As folhas podem medir de 2 a 2,5 m de comprimento e se desprendem com facilidade. A raque floral (cacho) mede até 70 cm de comprimento e cada ráquilas reúne numerosas flores pequenas, masculinas e femininas na mesma ráquilas. A polinização é cruzada, feita por insetos. Os frutos são drupas esféricas, de cor inicialmente verde, passando a quase pretos quando maduros. Cada cacho pode produzir, em média, 3,5 kg de frutos. 

Onde ocorre: Planta nativa, porém não endêmica do Brasil, encontrada também em países vizinhos como Bolívia e Paraguai. No Brasil a juçara pode ser encontrada em populações em áreas de Mata Atlântica desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul e, nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo em matas ciliares da bacia do Rio Paraná. 


Usos: Por muitos anos o principal uso da juçara foi a extração de palmito, de sabor adocicado, é apreciado na culinária por conter poucas fibras e ser muito macio, ideal para o consumo in natura, conservas e na elaboração de pratos diversos. O uso da polpa dos frutos como alimento não é novidade no Sul do Brasil, pois alguns registros históricos confirmam seu uso pelas comunidades locais desde o começo do século XIX. A polpa natural (sem aditivos) é uma emulsão de cor púrpura, rica em antioxidantes (antocianinas), alto valor energético e nutricional, baixo índice glicêmico (pode ser usado por diabéticos), elevadas quantidades de ácidos graxos insaturados (ômega 3) e micronutrientes. A polpa ainda é usada na produção de cosméticos, protetores solares, corantes naturais e óleo. O uso medicinal da polpa ainda está em estudo, mas a principal linha de ação aponta para a obtenção de produtos com potencial antioxidante para o tratamento de doenças cardiovasculares. A palmeira é muito elegante e pode ser usada com sucesso no paisagismo, de forma isolada, em conjuntos ou combinada com outras espécies, sua presença proporciona um visual leve e sofisticado ao jardim. 


Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita unicamente pela germinação de sementes, uma vez que não produz brotações. As sementes devem ser germinadas após a extração da polpa, em substrato próprio para produção de mudas. As mudas estarão prontas para o transplantio após os 6 meses de idade. O plantio deve ser feito em local semi-sombreado, com redução gradativa da sombra até os 3 anos de idade das plantas, quando poderão permanecer em sol pleno, o que favorece a produção de cachos e maturação dos frutos. A espécie requer água em grande quantidade, mantendo-se a umidade no solo de forma constante. As temperaturas médias ideais estão entre 17 a 23°C. A produção de frutos se inicia entre 6 a 10 anos após o plantio. O cultivo pode ser puro ou consorciado com outras frutíferas como a banana, por exemplo, o que otimiza o uso da terra e eleva o ganho financeiro. Cultivos menores, em quintais e hortas, são responsáveis por boa parte da produção de polpa que abastece o mercado desde tempos idos e é deles que vem muito do conhecimento que tem permitido o cultivo comercial da juçara. 


Curiosidades: O processamento dos frutos da juçara para obtenção de polpa resulta na produção de toneladas de resíduo, que nada mais é do que as sementes intactas, que têm sido usadas na produção de mudas para o repovoamento de áreas degradas e para atender à demanda de mudas para os plantios comerciais. Muito ainda há que se fazer para salvar a juçara, mas a valorização da polpa dos frutos como alimento foi um passo importante para a preservação da palmeira e da rica biodiversidade da Mata Atlântica. 



Bibliografia recomendada 

Bourscheid, K. et al. Euterpe edulis (palmito-juçara). In: Coradin, L.; Siminski, A.; Reis, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro Região Sul. MMA, 2011. https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade/fauna-e-flora/Regiao_Sul.pdf

Guimarães, L.A.O.P.; Souza, R.G. Palmeira juçara: patrimônio natural da Mata Atlântica no Espírito Santo. 2017. https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/item/2701/1/BRT-Livro-Palmeira-Jucara-Ainfo.pdf 

Pereira, A.G. et al. Fruto de Euterpe edulis e Euterpe oleraceae: usos alimentícios, medicinais e cosméticos. In: Miranda, F.D. et al. Tópicos especiais em genética e melhoramento II. Cap. 5. 2018. 

Vianna, S.A. Euterpe in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB15712>.

 

Foto: Dijalma Barbosa da Silva (Acervo Iniciativa Plantas para o Futuro)

Quando se fala em PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), a ora-pro-nóbis é uma das espécies que as pessoas mais conhecem. Seu nome tem origem no latim e significa “rogai por nós”. Os nomes populares são os mais diversos e variam conforme a região: azedinha, cipó-santo, espinho-preto, espinho-de-santo-Antônio, groselha-americana, lobrobó, lôbolôbo, surucucu, orabrobó, entre outros. Muitos autores citam a ora-pro-nóbis como um super alimento ou a cura para diversos males, porém, ainda existe muita desinformação a respeito. À parte suas propriedades nutricionais e medicinais, prefiro consumir a ora-pro-nóbis porque as folhas são deliciosas e, de fato, muito nutritivas. Além disso, é uma verdura fácil de cultivar, produz o ano inteiro e, para mim o aspecto mais importante, é uma planta com muita história e sabor envolvidos em seus pratos.


Descrição botânica: Planta trepadeira perene, da família Cactaceae. Os caules são finos e podem medir até 10 m de comprimento, com espinhos distribuídos por toda a extensão. As são folhas simples e de coloração verde claro, quando novas, e verde escuro quando adultas. As flores são brancas, numerosas, de odor agradável e medem cerca de 4 cm de diâmetro. Os frutos são verdes quando imaturos e alaranjados quando maduros. A floração mais intensa ocorre nos meses de janeiro a abril. 

Observação importante: Sabe-se que esta espécie apresenta alguma variabilidade de características botânicas, especialmente na coloração das folhas, que pode se acentuar conforme a região e o clima. Embora o gênero Pereskia apresente espécies com folhas muito parecidas, as plantas comestíveis são aquelas que produzem flores brancas com miolo alaranjado e folhas menores. Na dúvida quanto à correta identificação da planta, busque ajuda de um especialista da área. Nunca consuma plantas que você não tem certeza da identificação. 


Onde ocorre: Nativa da flora do Brasil, ocorre naturalmente na maioria dos estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, além do estado de Goiás. Habita os biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Não é exclusiva do Brasil, sendo encontrada em boa parte dos países da América Tropical. 

Usos: Suas folhas jovens e tenras são utilizadas como alimento. Estudos da Embrapa mostram que as folhas apresentam teor de proteína bruta superior a 20%, o que justifica seu uso como alimento rico em proteínas. As folhas podem ser consumidas cruas, na forma de salada, ou como ingrediente de refogados, tortas e farinha para a elaboração de massas variadas. É uma excelente fonte de vitaminas, minerais e aminoácidos e por isso, considerada um alimento funcional. A farinha, obtida das folhas desidratadas e trituradas, pode entrar como complemento na fabricação do macarrão e na panificação, elevando os teores de proteínas e cinzas e tornando o prato mais nutritivo. Os frutos também podem ser consumidos in natura, são ricos em carotenoides e vitamina A. Na medicina popular a planta é utilizada como emoliente e cicatrizante. A planta adulta apresenta formato bastante ornamental, podendo ser utilizada em cercas vivas ou barreira de quebra vento. 


A ora-pro-nóbis é bastante utilizada na culinária de Minas Gerais, já faz parte da cultura local e está presente em diversas preparações. Anualmente, a cidade histórica de Sabará sedia o Festival da Ora-pro-nóbis, onde a hortaliça é a grande estrela. A cada ano o festival tem recebido mais destaque, com a presença de chefes renomados demonstrando suas criações exclusivas ao lado de pratos já muito tradicionais, como a carne com ora-pro-nóbis, croquetes, pasteis, coxinhas, quiches, tortas e até sorvetes. 


Mas o Sul também tem seus encantos com a ora-pro-nóbis! Em uma de minhas viagens divulgando a biodiversidade brasileira, tive a grata satisfação de experimentar a culinária tradicional do Rio Grande do Sul, uma parte importante que eu pouco conhecia. Em visita à Porto Alegre, na feirinha da Redenção, experimentei alguns pratos deliciosos, como o pastel de ricota com recheio de patê de ora-pro-nóbis, o croquete de carne com folhas refogadas e o mais surpreendente sabor foi o pão de beterraba com patê verde de ora-pro-nóbis: todos muito delicados e saborosos.


Aspectos agronômicos:
De fácil propagação por estacas (mais usual) ou por sementes. O cultivo deve ser feito em pleno sol, com rega abundante. Plantas cultivadas na sombra ficam mais alongadas (estioladas) e produzem menos folhas e flores, algumas nem florescem. Embora a planta suporte bem a seca, produz mais folhas quando bem irrigada e adubada com bastante matéria orgânica. As plantas apresentam crescimento rápido e vigoroso, baixa incidência de pragas e doenças e adaptabilidade a solos e climas variados. Na horta ou pomar, o plantio das mudas deve ser feito, preferencialmente, no início das chuvas, para o bom estabelecimento das plantas. Para quem não tem muito espaço, a planta se adapta bem ao cultivo em vaso, sendo possível mantê-la em varandas de apartamentos, desde que haja boa insolação. A colheita das folhas se inicia entre 60 e 90 dias após o plantio, preferindo-se sempre as folhas mais jovens e tenras. Em pequenos ambientes ou mesmo áreas urbanas maiores, é importante atentar para o fato de que as plantas produzem grande quantidade de espinhos e exige cuidados ao manejar. O local de plantio deve ficar afastado de áreas de circulação de pessoas (especialmente as crianças) ou animais domésticos, porque os espinhos podem causar ferimentos ao menor toque. 


Curiosidades: Esta espécie tem sido considerada como uma hortaliça não convencional, ou seja, planta com distribuição limitada à determinada região, que não faz parte de uma cadeia produtiva como as hortaliças convencionais, mas que exerce grande influência na alimentação e na cultura de populações tradicionais. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2010 através do lançamento do Manual de Hortaliças Não-Convencionais, vem disponibilizando informações e estimulando o consumo e plantio da ora-pro-nóbis nas diversas regiões do Brasil. Informações mais detalhadas sobre plantio e tratos culturais é possível se obter no manual “Cultivo de Ora-pro-nóbis (Pereskia) em Plantio Adensado sob Manejo de Colheitas Sucessivas”, de autoria do pesquisador Nuno Madeira et al. (2016), e disponível gratuitamente na biblioteca virtual da Embrapa. 

Bibliografia recomendada 

AGOSTINI-COSTA, T.S. et al. "Carotenoids profile and total polyphenols in fruits of Pereskia aculeata Miller." Revista Brasileira de Fruticultura, 34(1), 234-238, 2012. 

CEMBROLA, C.T. et al. Pereskia aculeata (Ora-pro-nobis). In: VIEIRA, R. F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. (Ed.). Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: Região Centro-Oeste. 2018. 

QUEIROZ, C.R.A.A. Cultivo e composição química de Ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Mill.) sob déficit hídrico intermitente no solo. Tese. Jaboticabal, 2012. 144 f. 

ROCHA, D.R.C., et al. Macarrão adicionado de ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Miller) desidratado." Alimentos e Nutrição Araraquara, 19(4), 459-465, 2009. 

TAKEITI, C.Y. et al. Nutritive evaluation of a non-conventional leafy vegetable (Pereskia aculeata Miller). International journal of food sciences and nutrition, 60(S1), 148-160, 2009. 

ZAPPI, D.; TAYLOR, N.P. Cactaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB1633>


As helicônias são plantas típicas das regiões tropicais do mundo, surgem em abundantes cores, formas e numerosas espécies. Apenas no Brasil, já foram identificadas 30 espécies nativas do gênero
Heliconia, além de uma grande quantidade de espécies exóticas que se adaptaram às condições climáticas do país e são cultivadas para o mercado de flor de corte. A helicônia-papagaio é uma das espécies nativas, com ocorrência natural em boa parte dos estados brasileiros, exceto o sul do País, onde só é encontrada em cultivo.

Descrição botânica: Família Heliconiaceae, erva rizomatosa formando touceiras com múltiplos caules finos e entrenós alongados. As folhas são pecioladas, com lâmina linear, de formato oblongo, elíptico ou lanceolado e base acuminada (formato pontiagudo). As inflorescências saem no final dos caules e têm forma de tirso (pequenos cachos com muitas flores reunidas), eretas, com brácteas coloridas vistosas, de coloração variando entre o alaranjado e o avermelhado. 


Onde ocorre: Heliconia psittacorum é nativa do Brasil, mas não endêmica, isto é, pode ser encontrada naturalmente em outros países tropicais da América do Sul. Planta de área de floresta quente e úmida, comum na Amazônia e nas matas de galeria do Cerrado. O epíteto psittacorum é uma referência à família dos papagaios e araras (Psittacidae), devido às cores e formatos das inflorescências, que se assemelham ao colorido das plumas desses pássaros. Daí também resulta o nome popular da espécie: helicônia -papagaio. 

Usos: Amplamente usada no paisagismo e como flor de corte, devido à grande durabilidade de suas inflorescências. No paisagismo pode ser cultivada em renques, maciços, canteiros elevados, floreiras ou acompanhando o traçado de muros ou paredes. As inflorescências cortadas são resistentes ao calor e possuem alta durabilidade, ideal para uso como flor de corte na elaboração de arranjos florais tropicais. O tamanho reduzido, quando comparada à outras espécies do gênero, a durabilidade e a leveza de suas inflorescências, tornam esta helicônia uma das mais comercializadas no mercado de flores tropicais no Brasil. A espécie também foi utilizada na produção de híbridos com inflorescências menores e cores entre o rosa-chá e o vermelho-fogo, muito apreciadas na elaboração de arranjos florais. 


Aspectos agronômicos: A helicônia-papagaio prefere clima quente e úmido, embora tolere um pouco de frio e o clima seco do Cerrado. A propagação é feita pela divisão dos rizomas, que devem se plantados sob sol pleno ou meia sombra, com rega constante. Embora tolere seca, a produção de folhas e flores é mais vigorosa quando a rega é abundante. O solo deve ser leve, bem drenado e rico em matéria orgânica (esterco de aves, de gado e/ou humus). Quando cultivada em jardim, deve-se atentar para as podas de limpeza e formação das touceiras, a fim de manter a floração e o viço das plantas o ano todo, bem como, diminuir a incidência de pragas e doenças. 


Bibliografia recomendada 

Heliconiaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB7962>. 2020.

Kuhlmann, M.; Gomes-Bezerra, K.M.; Reis, P.A. Heliconia psittacorum (heliconia). In: Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. 2018. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade
Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.