Cidreiras

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      Recentemente um colega me perguntou sobre a erva-cidreira, mas não nos entendemos porque ele falava de uma coisa e eu de outra. Cidreira é o nome popular de um sem-número de plantas utilizadas na medicina caseira. Em cada região do Brasil vamos encontrar um ou vários tipos diferentes de cidreiras, que embora tenham usos semelhantes, são plantas distintas.
            Tentando esclarecer essa confusão, vou descrever rapidamente as quatro espécies mais utilizadas no Brasil e que chamamos de cidreira: a erva-cidreira (Melissa officinalis), a cidreira-de-arbusto (Lippia alba), o cidrão (Aloysia citriodora) e o capim-cidreira (Cymbopogon citratus). Este último, frequentemente confundido com a citronela (Cymbopogon nardus), planta utilizada como repelente e tóxica se ingerida.
Portanto, pra quem gosta de tomar um chazinho de cidreira vez ou outra, é importante conhecer as diferenças, até para evitar intoxicações. Lembrando sempre que, o uso de plantas medicinais deve ser feito sempre com cautela e sob a orientação de um profissional de saúde.

Erva-cidreira (Melissa officinalis L.)

           Conhecida também como melissa ou erva-melissa, é originária da Europa meridional e o nome melissa, que evoca o mel, é atribuído por suas qualidades como planta melífera. A planta é conhecida e utilizada na cultura mediterrânea a mais de 2000 anos. Conta a história, que os árabes antigos, utilizavam-na como cura para a melancolia e para acalmar crises de mau humor das moças jovens e “mulheres débeis”.

Erva-cidreira (Melissa officinalis). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Erva rasteira, pertencente à família botânica Lamiaceae. Quando adulta pode atingir de 30 a 50 cm de altura. Suas folhas são simples, opostas, ovaladas, com margens crenadas e de cor verde-clara. Os ramos são quadrangulares, ramificados de cor verde ou avermelhada, eretos ou prostrados. Podem ser encontradas plantas de coloração variegada entre amarelo e verde. As flores são pequenas, de cor branca a rosada. Floresce na primavera/verão. Os frutos, são do tipo aquênio, oblongos e pardacentos.
Usos: Na forma de chá como tranquilizante, sedativo, no tratamento da insônia, cólicas, gases, má digestão, analgésico em geral e até mesmo, no controle da pressão alta. Externamente, é aplicado na forma de compressas contra picadas de inseto e herpes. Na culinária pode ser empregada como aromatizante. Também possui aplicações na fabricação de bebidas, cosméticos, aromaterapia e como repelente de insetos.
Aspectos agronômicos: Cresce em touceiras em jardins ou hortas. Deve ser cultivada sob sol pleno ou meia sombra, em solo fértil, bem drenado, enriquecido com matéria orgânica. Prefere regiões de clima subtropical a temperado, não tolera extremos de temperatura. Multiplica-se mais facilmente por divisão das touceiras ou por sementes. O plantio pode ser feito entre setembro a janeiro, direto no campo, efetuando-se irrigações diárias, até o enraizamento. O espaçamento pode ser de 30 x 30 cm, entre linhas e entre plantas.

Cidreira-de-arbusto {Lippia alba (Mill.) N.E.Br. ex P. Wilson}

              Também chamada de alecrim-do-campo, erva-cidreira-de-arbusto ou erva-cidreira-brasileira, por ser nativa da flora do Brasil. Tem sido estudada como matéria prima na produção de óleo essencial rico em linalol, empregado na indústria de cosméticos e aromas.

Cidreira-de-arbusto (Lippia alba). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Verbenaceae, planta de formato irregular, bastante ramificada, com altura entre 2 e 3 metros, quando adulta. Com ramos finos e alongados, quando jovens apresentam formato quadrangular. Folhas pequenas, levemente pubescentes e com margens serrilhadas. Flores pequenas e de coloração rosa-claro, reunidas em pequenas inflorescências nas axilas das folhas. Os frutos são secos, do tipo aquênio, com numerosas sementes.
Usos: Suas folhas, ramos jovens e até as flores são utilizados frescos ou secos, no preparo de chás com efeito sedativo, analgésico geral, ansiolítico, antidepressivo, para tratar males do aparelho digestivo, cólicas e resfriados, principalmente.
Aspectos agronômicos: A planta pode ser encontrada naturalmente nos diversos bioma do Brasil, em solos arenosos pobres em nutrientes. No entanto, cresce com mais vigor em solos enriquecidos com matéria orgânica e com água em boa quantidade. A propagação pode ser feita com facilidade através de estaca de ramos, embora também possa ser feita por sementes. Cresce tanto em condições de sol pleno como meia sombra.

Cidrão (Aloysia citriodora Palau)

       Também conhecida como limonete, erva-luísa,verbena-limão, cidreira ou cidró. A espécie é nativa do Peru, mas também encontrada em outras regiões frias da América do Sul como Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile. No Brasil, é encontrada mais facilmente na região Sul do país. Também é conhecida pela sinonímia botânica de Aloysia triphylla.

Cidrão (Aloysia citriodora). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Verbenaceae, arbusto de folhas perenes, com até 3 m de altura, muitos ramos e tortuosos. Folhas simples, com 8 a 12 cm de comprimento, alongadas e estreitas com margens levemente serrilhadas. As flores são pequenas, de coloração predominantemente branca, com sombra lilás, reunidas em panículas na porção terminal dos ramos.
Usos: Culinário, medicinal e ornamental. Suas folhas e ramos jovens são utilizados no preparo chás e como aromatizante culinário para peixes, aves, saldas, refogados e bebidas. Na medicina caseira, o chá é empregado no tratamento de males respiratórios, digestivos e como calmante. Recomenda-se cautela no seu uso, pois diversos relatos informam que o uso prolongado do chá desta planta, pode causar irritação gástrica, depressão e aumento da sonolência, bem como manchas na pele após exposição solar.
Aspectos agronômicos: O cultivo deve ser realizado em condição de sol pleno, em solo fértil, profundo e bem drenado. As regas devem ser frequentes, pois a planta é bastante sensível à falta de água. A espécie prefere climas temperados e a alta luminosidade é condição importante para o acumulo de óleo essencial nas folhas (acumulo de aroma). A propagação é feita por estaquia de ramos, uma vez que nas condições climáticas do Brasil a produção de sementes viáveis é baixa. A estaquia deve ser feita entre a primavera e o verão, depois disso a planta entra em dormência.

Capim-cidreira {Cymbopogon citratus (DC.) Stapf}

       Também conhecida como capim-limão ou capim-santo, é uma espécie originária do sul da India e, atualmente, aclimatada e cultivada em todas as regiões tropicais do mundo.

Capim-cidreira (Cymbopogon citratus). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Poaceae/Panicoideae. Planta perene, herbácea, mas que pode atingir até 2 m de altura; caule curto formando touceiras. Folhas alongadas e ásperas em ambas as faces, podendo causar ferimentos na pele se não for manuseada com o devido cuidado. Nas condições climáticas do Brasil, as plantas praticamente não florescem.
Usos: Medicinal, condimentar, aromático, ornamental, entre outros. O chá das folhas é utilizado, principalmente, para o tratamento de males do estomago, calmante e analgésico em geral. Podem ser utilizadas folhas frescas, secas ou óleo essencial, este empregado como aromatizante em perfumaria e cosmética, pelo seu odor característico de limão. As partes jovens da planta possuem sabor adocicado e bastante aromático, muito apreciado na elaboração de pratos culinários, como ingrediente principal ou como condimento. Na região Sul do Brasil é muito utilizada em hortas, jardins e beira de estradas como cerca viva, como ornamental ou sobre terraços nas lavouras, visando a sua manutenção e reforço na contenção da erosão do solo.
Aspectos agronômicos: A planta prefere clima quente e úmido, mas também pode ser cultivada em locais mais frios. Prefere solos bem drenados, leves e com boa fertilidade. A propagação é feita pela divisão de touceira, retirando-se os perfilhos de plantas bem estabelecidas e sadias. A muda deve ser retirada com algumas raízes para facilitar o pegamento. O cultivo pode ser feito em vasos, desde que sejam bastante espaçosos (mínimo 30 cm de diâmetro) para permitir o crescimento do sistema radicular. Como é uma planta rica em óleos essenciais, a colheita das folhas deve ser realizada nas primeiras horas da manhã.

ATENÇÃO: Como já mencionei no início, o capim-cidreira (Cymbopogon citratus) é frequentemente confundido com a citronela (Cymbopogon nardus), pois as semelhanças morfológicas entre as duas espécies são muito grandes. Embora não seja considerada venenosa, a ingestão do chá da citronela não é recomendado pelo risco de irritação das mucosas gástricas. Sendo, inclusive, relatada a ocorrência de intoxicação em animais domésticos, após a ingestão de folhas da planta.

Aqui vão algumas dicas que podem ajudar a evitar confusões:

1)    Porte:  a planta do capim-cidreira é menor e tem folhas mais curtas;
2)    Formato da planta: a imagem acima, mostra claramente que o capim-cidreira forma uma touceira mais cheia e ereta, enquanto que a touceira de citronela tende a se abrir e cair, sendo necessário em alguns casos, efetuar amarrio para evitar o tombamento da planta;
3)  Aroma: esmague levemente as folhas e cheire: o capim-cidreira tem aroma adocicado que lembra o limão; já a citronela tem um aroma mais forte, e até desagradável, que lembra desinfetante industrial, aqueles que se usam nos banheiros.

Referências Bibliográficas

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