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Você já ouviu falar no juçaí? Não? Então saiba que os frutos da juçara ou palmeira-juçara que ocorre na Mata Atlântica, são o equivalente sulista ao açaí do Norte. Pessoalmente, gosto mais do juçaí, pois acho o sabor mais suave do que o açaí comercial que conhecemos. Os sabores são mais bem comparados e apreciados quando se prova as polpas ao natural, sem adição de açúcar. A versatilidade de usos, o sabor e a composição nutricional do açaí e do juçaí são muito semelhantes: puro, gelado ou natural, doce ou salgado, com peixe, granola, farinha, sorvete ou suco, é muito bom de qualquer jeito! 

Durante muitos anos as populações naturais da palmeira juçara foram dizimadas para a extração do palmito, atividade que resulta na morte das plantas e no desaparecimento da palmeira do ambiente natural. A este fato somado à devastação da Mata Atlântica, reduzida a menos de 17% de sua cobertura original preservada (SOS Mata Atlântica, 2021), resultou no elevado risco de extinção de várias espécies, entre elas a juçara. Atualmente, essa palmeira tem seu corte proibido em ambiente natural, e o palmito nosso de cada dia já vem de fontes sustentáveis, a partir de plantios comerciais ou do manejo sustentável da pupunha (uma palmeira amazônica) e da própria juçara. Daí decorre a importância de conhecer os produtos que se consome, o consumo consciente é parte importante na conservação da nossa biodiversidade. 


Descrição botânica: Da família Arecaceae, palmeira de caule único com tronco medindo até 15 m de altura e 15 cm de diâmetro (DAP). As folhas podem medir de 2 a 2,5 m de comprimento e se desprendem com facilidade. A raque floral (cacho) mede até 70 cm de comprimento e cada ráquilas reúne numerosas flores pequenas, masculinas e femininas na mesma ráquilas. A polinização é cruzada, feita por insetos. Os frutos são drupas esféricas, de cor inicialmente verde, passando a quase pretos quando maduros. Cada cacho pode produzir, em média, 3,5 kg de frutos. 

Onde ocorre: Planta nativa, porém não endêmica do Brasil, encontrada também em países vizinhos como Bolívia e Paraguai. No Brasil a juçara pode ser encontrada em populações em áreas de Mata Atlântica desde o sul da Bahia até o Rio Grande do Sul e, nos estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná e São Paulo em matas ciliares da bacia do Rio Paraná. 


Usos: Por muitos anos o principal uso da juçara foi a extração de palmito, de sabor adocicado, é apreciado na culinária por conter poucas fibras e ser muito macio, ideal para o consumo in natura, conservas e na elaboração de pratos diversos. O uso da polpa dos frutos como alimento não é novidade no Sul do Brasil, pois alguns registros históricos confirmam seu uso pelas comunidades locais desde o começo do século XIX. A polpa natural (sem aditivos) é uma emulsão de cor púrpura, rica em antioxidantes (antocianinas), alto valor energético e nutricional, baixo índice glicêmico (pode ser usado por diabéticos), elevadas quantidades de ácidos graxos insaturados (ômega 3) e micronutrientes. A polpa ainda é usada na produção de cosméticos, protetores solares, corantes naturais e óleo. O uso medicinal da polpa ainda está em estudo, mas a principal linha de ação aponta para a obtenção de produtos com potencial antioxidante para o tratamento de doenças cardiovasculares. A palmeira é muito elegante e pode ser usada com sucesso no paisagismo, de forma isolada, em conjuntos ou combinada com outras espécies, sua presença proporciona um visual leve e sofisticado ao jardim. 


Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita unicamente pela germinação de sementes, uma vez que não produz brotações. As sementes devem ser germinadas após a extração da polpa, em substrato próprio para produção de mudas. As mudas estarão prontas para o transplantio após os 6 meses de idade. O plantio deve ser feito em local semi-sombreado, com redução gradativa da sombra até os 3 anos de idade das plantas, quando poderão permanecer em sol pleno, o que favorece a produção de cachos e maturação dos frutos. A espécie requer água em grande quantidade, mantendo-se a umidade no solo de forma constante. As temperaturas médias ideais estão entre 17 a 23°C. A produção de frutos se inicia entre 6 a 10 anos após o plantio. O cultivo pode ser puro ou consorciado com outras frutíferas como a banana, por exemplo, o que otimiza o uso da terra e eleva o ganho financeiro. Cultivos menores, em quintais e hortas, são responsáveis por boa parte da produção de polpa que abastece o mercado desde tempos idos e é deles que vem muito do conhecimento que tem permitido o cultivo comercial da juçara. 


Curiosidades: O processamento dos frutos da juçara para obtenção de polpa resulta na produção de toneladas de resíduo, que nada mais é do que as sementes intactas, que têm sido usadas na produção de mudas para o repovoamento de áreas degradas e para atender à demanda de mudas para os plantios comerciais. Muito ainda há que se fazer para salvar a juçara, mas a valorização da polpa dos frutos como alimento foi um passo importante para a preservação da palmeira e da rica biodiversidade da Mata Atlântica. 



Bibliografia recomendada 

Bourscheid, K. et al. Euterpe edulis (palmito-juçara). In: Coradin, L.; Siminski, A.; Reis, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro Região Sul. MMA, 2011. https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade/fauna-e-flora/Regiao_Sul.pdf

Guimarães, L.A.O.P.; Souza, R.G. Palmeira juçara: patrimônio natural da Mata Atlântica no Espírito Santo. 2017. https://biblioteca.incaper.es.gov.br/digital/bitstream/item/2701/1/BRT-Livro-Palmeira-Jucara-Ainfo.pdf 

Pereira, A.G. et al. Fruto de Euterpe edulis e Euterpe oleraceae: usos alimentícios, medicinais e cosméticos. In: Miranda, F.D. et al. Tópicos especiais em genética e melhoramento II. Cap. 5. 2018. 

Vianna, S.A. Euterpe in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB15712>.
Jardim Botânico de Brasília, Brasília, DF

O capim-dos-pampas ou "pampas glass", sua denominação em inglês, é nativo dos pampas do Rio Grande do Sul e vem sendo bastante usado no paisagismo. Para quem, como eu, se dedica ao uso, conservação e valorização das nossas espécies nativas, sempre é muito gratificante observar essas plantas em cultivo nos jardins brasileiros e pelo mundo a fora. Assim como as bouganvilles, que já falamos aqui, o capim-dos-pampas também é adorado pelo europeus, sendo comum encontrar a planta cultivada como elemento central nos jardins, desde os vitorianos mais clássicos até os contemporâneos. 

A literatura cita ao menos duas espécies de capim-do-pampas para uso paisagístico: C. selloana e C. jubata. Observei que existe uma confusão taxonômica entre ambas pois, algumas fontes consideram C. jubata como subespécie de C. selloana, outras fontes consideram como espécies distintas. Como meu objetivo é exemplificar o uso, aqui tratarei tudo como C. selloana

Parque Amantikir, Campos do Jordão, SP.

Descrição botânica: Da família Poaceae, planta herbácea, com amplo rizoma, típico das gramíneas, e perene; de crescimento ereto, altura entre 1,5 a 2,5 m, formando grandes touceiras. As folhas são estreitas, alongadas, com borda áspera (muito cortante) e coloração que varia entre o verde claro a verde azulado quando adultas. A flores são minúsculas, numerosas e reunidas em belas inflorescências terminais plumosas, de coloração variando entre o branco (mais comum), amarelado e arroxeado (mais raras). As inflorescências aparecem com maior intensidade entre o verão e o outono, porém, em regiões mais quentes, plantas bem manejadas podem florescer quase o ano todo. 


Onde ocorre: Planta nativa do bioma Pampa do sul do Brasil, com ocorrência natural também em algumas áreas do Cerrado e da Mata Atlântica. Não é endêmica (exclusiva) do Brasil, ocorrendo também nos pampas do Uruguai e Argentina, onde é conhecida pelo nome popular de “cola de zorro”. Sabe-se que a espécie foi levada para a Europa como planta ornamental e seu cultivo é anterior a 1800, principalmente, na França e Irlanda. Acredita-se que as sementes tiveram origem no Equador, onde foi documentada a ocorrência natural desta espécie e outras do mesmo gênero. 


Usos: A planta pode ser usada no paisagismo e, na forma de planta seca, para a decoração e composição de arranjos florais. No paisagismo, é cultivada em jardins de forma isolada, como elemento central, ao longo de muros, em conjuntos ou renques, conferindo um belo aspecto ornamental, tanto pela folhagem densa e azulada (conforme a incidência de luz) quanto pela beleza da floração. Como planta seca pode ser usada na composição de grandes arranjos florais puros ou em combinação com outras flores, galhos ou folhagens. Apresenta grande durabilidade como flor seca. Na Argentina, as folhas, flores e talos são usados na medicina popular em diversas preparações com fins digestivo, laxante, diurético e hepático. Apresenta importância ecológica estratégica na recuperação de áreas degradadas do bioma Pampa. 

Whiststable, Inglaterra.

Aspectos agronômicos: Planta típica de climas frios, suporta bem as geadas, mas pode vegetar intensamente também no calor. A produção de mudas é feita facilmente o ano inteiro pela divisão de touceiras. Deve ser cultivada em solo leve, bem adubado, em sol pleno e com irrigação constante. A umidade favorece a manutenção da folhagem bonita por mais tempo. Entretanto, a planta é tolerante à grande variação climática e ambiental, adaptando-se com facilidade à condições adversas. 

Cuidados: Assim como outros capins, seu uso no paisagismo demanda cuidados com poda de formação e manutenção. As touceiras devem ser mantidas limpas e bem podadas para evitar o alojamento de bichos, especialmente as cobras. No Sul do Brasil, o capim-dos-pampas é considerado espécie invasora e erradicado das pastagens, entre outros motivos, por ser um alojamento perfeito para as cascavéis e outras cobras peçonhentas, podendo causar acidentes sérios com o gado e com humanos. Por sua característica invasora, a espécie deve ser cultivada sob contenção, ou seja, no paisagismo existem algumas barreiras mecânicas que podem ser usadas para impedir que a planta se alastre para outras áreas. A alocação do capim-dos-pampas no jardim também deve ser estrategicamente pensada. Não se recomenda o plantio em área estreita onde há circulação de pessoas e animais, pois as folhas cortantes podem causar ferimentos. Sempre opte por colocar a planta em área ampla, aberta, com largo espaço de passagens e muito sol. 

Parque Amatikir, Campos do Jordão, SP


Bibliografia recomendada 

Berkenbrock, I.A. Cortaderia selloana (capim-dos-pampas). In: Coradin, L.; Siminski, A.; Reis, A. Espécies Nativas da Flora Nativa de Valor Econômico Atual e Potencial - Plantas para o Futuro - Região Sul. 2011. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade 

Cortaderia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB13137>. Acesso em: 25 out. 2020. 

Lorenzi, H.; Souza, H.M. Plantas ornamentais no Brasil: arbustivas, herbáceas e trepadeiras. Ed. Plantarum. 2008. 

Starr, F. et al. Cortaderia spp. 2003. Disponível em http://hear.its.hawaii.edu/Pier/pdf/pohreports/cortaderia_spp.pdf

O jatobá é uma planta típica do Cerrado, com sabor e aroma bem marcantes. Em minhas andanças pelo Brasil, pude perceber que este fruto está intimamente ligado às memórias afetivas (algumas boas, outras nem tanto) de muitas pessoas. Há alguns anos, principalmente no sertão de Goiás e Minas Gerais, era comum as famílias usarem a farinha de jatobá para matar a fome. Ouvi vários relatos de que, muitas vezes, o jatobá era o único alimento disponível, o que associou o fruto à condição de pobreza extrema. Esse estigma o jatobá carrega até os dias de hoje, o que criou uma barreira para que as pessoas experimentem novos sabores regionais.

Na verdade, esse é um estigma que muitas frutas nativas carregam. Já ouvi essa mesma história com o jenipapo, a guabiroba e, até mesmo, com algumas hortaliças regionais. Mas essa barreira precisa ser quebrada para que as novas gerações possam experimentar essa riqueza de sabores. Permita-se experimentar de novo: são outros tempos, outra realidade e outras percepções. 

Jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa)

Descrição botânica: Da família Fabaceae, árvore com até 10 metros de altura, embora no Cerrado tenha porte mais baixo, com galhos e troncos retorcidos. Folhas alternas, caducas e de coloração verde escura quando adulta. Inflorescências terminais com até 30 flores, de coloração marrom clara e estames alongados. O fruto é do tipo legume, indeiscente (não se abre quando maduro), alongado, com casca dura e coloração inicialmente verde, passando para marrom quando maduro. A polpa farinácea tem coloração variando de creme a creme esverdeada, conforme a espécie e/ou variedade. 

Flor de jatobeira

É importante mencionar que existem, ao menos, 16 espécies de jatobás usados como alimento no Brasil (além de algumas variedades dentro das espécies), o que reflete a diversidade de frutos, coloração das farinhas e intensidade de aromas que podem ser explorados. No Cerrado existem duas espécies mais conhecidas: o jatobá-do-cerrado (Hymenaea stigonocarpa Mart. ex Hayne), que tem porte menor, ramos retorcidos, frutos maiores e é encontrado em áreas abertas. Já o jatobá-da-mata (Hymenaea courbaril L.) é caracterizado por árvores de maior porte, frutos menores e, como o próprio nome já diz, habita áreas de mata fechada próxima de cursos d’água. Ambas possuem frutos comestíveis e geralmente são vendidos nas feiras e mercados sem fazer distinção de quem é quem. 

Onde ocorre: Planta nativa, mas não endêmica do Brasil, ocorrendo no Cerrado e também em áreas da Caatinga. No Cerrado, ocorre em áreas abertas, conhecidas como campo cerrado e/ou campo sujo. 

Frutos verdes e maduros

Usos: A farinha de jatobá é um dos produtos mais conhecidos desta espécie. Ela pode ser produzida pela raspagem dos frutos maduros e secos. A farinha pode ser peneirada para eliminar o excesso de fibras e melhorar a palatabilidade. Se mantida em saco plástico em geladeira, pode se conservar por período superior a um ano, mantendo aroma e sabor originais. A farinha pode ser usada no preparo de mingaus, bolos, doces e uma infinidade de pratos. Pode ser usada pura ou misturada com farinha branca ou integral, o que ajuda a suavizar o sabor. A farinha de jatobá também pode ser adicionada à massa de brigadeiro branco, resultando um doce gourmet com sabor pra lá de especial. Biscoitos, sequilhos e salgadinhos com farinha de jatobá apresentaram boa aceitação em feiras de sabores no Brasil inteiro. A farinha ainda tem a vantagem de ser livre de glúten e rica em ferro, sendo um bom complemento alimentar e na dieta de pessoas com restrições alimentares. A resina do tronco, cascas dos ramos e as folhas são usadas na medicina popular. Existe uma extensa bibliografia sobre o uso medicinal da espécie, indo desde o consumo da farinha como tonificante até o uso ritualístico dos frutos na cura e equilíbrio energético. As árvores retorcidas são muito bonitas e podem ser usadas na arborização urbana. 

Pão integral com farinha de jatobá e castanha de baru

Aspectos agronômicos: A floração apresenta um período bem extenso, podendo se entender de outubro a abril, mas o forte da safra no cerrado goiano ocorre de agosto a novembro. Entretanto, esses períodos podem variar conforme a região e o clima local. As mudas podem ser feitas por sementes, germinadas logo após a colheita. A germinação ocorre entre 5 e 35 dias e pode chegar a 80%. No cerrado, observa-se o crescimentos das plantas em áreas de baixa fertilidade, o que permite inferir que o solo para a produção de mudas não necessita muita adubação, apenas que seja leve e bem permeável. Havendo possibilidade, é recomendável fazer a germinação em ambiente protegido, onde se pode controlar melhor a rega e a intensidade luminosa. 

Dicas e curiosidades: Alguma pessoas consideram que o jatobá tem cheiro de “chulé”, o que causa repulsa em muita gente. Minhas experiências culinárias (não sou especialista, mas gosto de experimentar) me mostraram que colocar a farinha no forno a temperatura de 180º C por uns 10 a 15 minutos, além de ajudar na conservação, suaviza o aroma. O aroma é dado por uma mistura de compostos voláteis presentes no fruto e que se degradam com o aquecimento, daí a funcionalidade da secagem em forno para melhorar o aroma e o sabor da farinha. A farinha de jatobá pode ser um curinga muita fácil de usar e que pode impressionar os comensais. Porém, é sempre de bom tom conhecer o paladar dos convidados e não exagerar no ingrediente, para não correr o risco de errar na opção. Experimente! 

Da esquerda para direita: fruto aberto e farinha pronta para consumo; produção artesanal da farinha; brigadeiro branco com farinha de jatobá; biscoitinhos de jatobá

Bibliografia recomendada 

Pinto, R.B.; Tozzi, A.M.G.A.; Mansano, V.F. Hymenaea in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB83206>. 

Sano, S.M. et al. Hymenaea stigonocarpa (Jatobá-do-cerrado). IN: Vieira. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade

Uma beleza as flores da carobinha! De coloração violeta escuro, quando florida, a planta se destaca no meio da vegetação do Cerrado. Ainda não é cultivada em jardins e pouco se sabe sobre ela, mas estudos da Universidade de Brasília apontam para o potencial ornamental e medicinal dessa espécie. 

Descrição botânica: Da família Bignoniaceae, subarbusto com 0,5 a 1,8 metros de altura, pouco ramificado. As folhas jovens tem coloração verde clara, com pelos na parte inferior, o que lhe confere aspecto esbranquiçado; já as folhas adultas tem coloração verde escuro. As flores são reunidas em inflorescências (cachos) no final dos ramos, pendulas, e de cor variando entre roxo a violeta escuro. Os frutos são inicialmente verdes, passando a castanho escuro quando maduros, e se abrem liberando grande quantidade de sementes aladas. No Distrito Federal, a floração foi registrada no final do mês de abril. 


Onde ocorre: Espécie nativa do Brasil e endêmica, ou seja, só ocorre no Brasil. No Cerrado, é encontrada em área de vegetação aberta e alta luminosidade, como nos campos limpos.


Usos: Como planta ornamental, pode ser usada em vasos ou plantada em jardins em bordaduras, maciços ou em composição com outras espécies. Pode ser usada também como flor de corte. Na medicina popular é usada como anti-inflamatória, no tratamento de dores lombares, digestiva e até no controle de sarna e outras doenças parasitárias. 


Aspectos agronômicos: Embora exista pouca informação a esse respeito, estudos da Universidade de Brasília apontam para a possibilidade de se fazer mudas por sementes, colhidas de frutos maduros (cor castanha escura), um pouco antes da abertura dos mesmos. A germinação é feita em substrato leve, tipo vermiculita ou areia, com germinação de até 50%. Havendo possibilidade, a germinação in vitro pode ser uma boa opção para aumentar o número de plantas e acelerar o processo. Observações de campo e mesmo de espécies similares, permitem recomendar o cultivo a pleno sol, em solo arenoso e com regas espaçadas.


Bibliografia recomendada

Silveira, C.E.S. et al. Jacaranda ulei (Carobinha-do-campo). IN: Vieira. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade




O Brasil possui uma grande riqueza de jacarandás. Em cada região se conhece um tipo, uma denominação, uma flor, enfim, cada um descreve um jacarandá diferente. Mas a planta da vez é o jacarandá-de-minas, que floresce no final da seca e, muitas vezes, é confundido com ipê-roxo. Aliás, muitas pessoas me mandam fotos para identificação porque acharam lindo o ”ipê-roxo”, que na verdade era um dos muitos jacarandás. Então vamos conhecer melhor essa árvore linda, que embeleza e se destaca no cinza das matas secas.


Descrição botânica: Família Bignoniaceae, árvore com 5 a 10 metros de altura, copa arredondada e bastante ramificada. As folhas são bipinadas, com 20 a 40 cm de comprimento. As flores são tubulosas e medem entre 5 a 7 cm de comprimento, tem cor arroxeada e são reunidas em cachos no final dos ramos. Os frutos são secos e se abrem quando maduros, expondo numerosas sementes aladas. 

Onde ocorre: Planta típica do Cerrado, Pantanal e áreas de transição com a Mata Atlântica. Pode ser observado em floração em áreas de encosta, se destacando na mata. O nome “jacarandá-de-minas” se deve à sua alta ocorrência nas matas do estado de Minas Gerais, sobretudo na região do Triângulo Mineiro e norte de São Paulo. A espécie não é endêmica da flora brasileira, sendo encontrada também em países vizinhos, especialmente, nas áreas pantaneiras da Bolívia e Paraguai. 



Usos: De uso comum no paisagismo urbano do Brasil central, o jacarandá-de-minas pode ser facilmente avistado, quando em floração, nas quadras e avenidas de Brasília e outras cidades do Centro-Oeste. Apresenta importante função ecológica quando usado na recuperação de áreas degradas e como espécie melífera, sendo importante fonte de alimento para abelhas nativas. As folhas são usadas na produção de inseticida caseiro e o chá da raiz usado como sarnicida. Folhas e cascas são usadas na medicina popular como depurativo do sangue, no combate à febre e no trato de infecções bacterianas. 



Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por sementes, plantadas logo após a colheita. Sementes armazenadas por mais de 4 ou 5 meses, requerem quebra de dormência por imersão em água fervente e permanência em água por 24 horas. O plantio é feito em sacos plásticos pretos próprios para mudas, em solo leve (1 parte de solo/1parte de areia), e a germinação ocorre em 1 ou 2 semanas. Também é possível adquirir mudas de qualidade em viveiristas especializados. 



Bibliografia recomendada

Gomes-Bezerra, K.M.; Reis, P.A.; Kuhlmann, M. Jacaranda cuspidifolia (Jacarandá-de-Minas). In: Vieirra. R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018.
https://www.mma.gov.br/publicacoes/biodiversidade/category/54-agrobiodiversidade

Jacaranda in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB114124. 2020.

Hoje vamos conhecer duas frutinhas deliciosas do interior do Brasil, diferentes na aparência mas muito similares no sabor: a gabiroba e a guabiroba. No sul do País vamos encontrar a guabiroba [Campomanesia xanthocarpa (Mart.) O.Berg.], árvore imponente com vistosos frutos alaranjados, de polpa suculenta e adocicada. Já no Cerrado é mais comum a gabiroba [Campomanesia adamantium (Cambess.) O.Berg.], um arbusto com frutos verde-amarelados a acinzentados, polpa aromática e muito saborosa. Independente das diferenças botânicas, ambas produzem frutos muito saborosos, verdadeiras iguarias que atraem pássaros e humanos. Uma fez parte da minha infância (guabiroba), e a outra (gabiroba), da infância dos meus filhos. 

Frutos maduros e polpa de gabiroba (C. adamantium)
Descrição botânica: Ambas pertencem à família Myrtaceae. C. xanthocarpa é uma árvore com até 15 m de altura, tronco recoberto por cascas pardacentas que se desprendem ao longo do tempo. Copa arredondada ou levemente alongada, muito ramificada; a folhagem é verde-clara e as folhas medem 3 a 7 cm de comprimento, ovaladas ou oblongas. As flores são pequenas e brancas. O fruto é uma baga amarelo-alaranjada quando madura, 2 a 3 cm de diâmetro, casca lisa e fina, polpa suculenta, doce e muito aromática, contendo numerosas sementes. 

Planta de C. xanthocarpa. Foto: Flora SBS.
C. adamantium é um arbusto ou subarbusto, medindo entre 30 cm a 2 m de altura, com caules amarelados e ásperos. A folhagem tem coloração avermelhada quando jovem, passando para verde-azulada na fase adulta; as folhas são simples, opostas, alongadas. As flores são pequenas, brancas e abundantes. Os frutos medem até 2 cm de diâmetro, globosos, com casca fina de coloração verde-amarelada quando maduros; a polpa é alaranjada, suculenta, doce e aromática, com numerosas sementes. Os frutos de ambas espécies apresentam pequenas pontuações na casca, que nada mais são do que as glândulas que contém óleo essencial, responsável pelo aroma intenso dos frutos. 

Planta de C. adamantium
Onde ocorrem: Ambas são nativas, porém, não endêmicas do Brasil. A gabiroba (C. adamantium) é típica do Cerrado das regiões Centro-Oeste e Sudeste. Já a guabiroba (C. xanthocarpa) é típica da Mata Atlântica do Sul e Sudeste do País. Existe uma zona de sobreposição onde seria possível encontrar as duas espécies, que são os fragmentos de Mata Atlântica das Regiões Centro-Oeste e nos fragmentos de Cerrado a sul, que podem ser encontrados até no noroeste do estado do Paraná. 

Flor de gabiroba (C. adamantium), típica de myrtaceas.
Usos: Os frutos são muito saborosos e, quando maduros, são consumidos in natura ou usados para sucos, geleias, doces, sorvetes, licores ou para aromatizar cachaça e vinho. Os frutos são ricos em vitamina C. A gabiroba possui 234mg vitamina C/100g de polpa. As cascas e folhas possuem propriedades medicinais e, juntamente com as flores, são matéria prima para a produção de óleos essenciais, usados para aromatizar bebidas e cosméticos. A guabiroba, por seu porte arbóreo elegante, pode ser usada no paisagismo e arborização de parques urbanos. Na zona rural pode recompor ou enriquecer áreas degradas de matas nativas. 
Na primeira foto, os frutos alaranjados de guabiroba (C. xanthocarpa) e na segunda, frutos verde-amarelados
de gabiroba (C. adamantium)
Uma ótima experiência gustativa é provar o sorvete, o suco concentrado e o licor da guabiroba produzidos na Serra gaúcha e comercializados em feiras e mercados locais, além de deliciosos, trazem o sabor da infância no sul do Brasil. No Cerrado, os picolés e o sorvete de gabiroba são encontrados com relativa facilidade em sorveterias de várias cidades de Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais. Minha dica é aproveitar um passeio pela bela Cidade de Goiás-GO e dar uma paradinha na praça principal, no final da tarde, para experimentar o sorvete de gabiroba da sorveteria do coreto: simplesmente perfeito! 

Sorvete de polpa de guabiroba da Serra Gaúcha
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, retiradas de frutos maduros, após lavagem em água corrente para completa remoção da polpa. As sementes devem ser semeadas em sacos plásticos contendo substrato leve e bem drenado, em profundidade de 2 cm, com regas constantes e mantidas na sombra. A germinação pode demorar de alguns dias até semanas e pode atingir mais de 70%. Por se tratar de espécies nativas ainda pouco conhecidas e estudadas, não existem informações sobre cultivo comercial de uma ou outra espécie, de modo que tudo o que se encontra no mercado é oriundo de produção extrativista. 
Bebida fermentada de guabiroba da Serra Gaúcha (esq.) e licor de gabiroba do cerrado (dir.)
Além de escassas informações sobre produção de mudas e cultivo, um dos maiores gargalos à inserção dessas espécies no mercado é o curto período anual de frutificação e a perecibilidade dos frutos, o que obriga os produtores a colher grande quantidade de frutos de uma vez e processar no mesmo dia. Entretanto, depois de extraída a polpa, esta pode ser congelada e usada praticamente o ano todo. C. xanthocarpa floresce entre os meses de setembro e outubro, com frutos maduros durante 15 a 20 dias no mês de novembro. Já a C. adamantium floresce entre agosto a novembro, com frutos maduros de outubro a dezembro. 

Bibliografia recomendada 

LISBOA, G.N. et al. Campomanesia xanthocarpa (guabiroba). In: CORADIN, L.; SIMINSKI, A.; REIS, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro – Região Sul. Brasília: MMA, 2011. (Link

PORTO, A.C. et al. Campomanesia adamantium (gabiroba). In: VIEIRA, R.F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

De acordo com o site da Flora do Brasil, existem 64 espécies nativas do gênero Arachis catalogadas no País hoje, sendo 48 endêmicas, ou seja, só ocorrem no Brasil. Entre elas, duas tem grande destaque pelo uso paisagístico: Arachis pintoi Krapov. & W.C.Greg. e Arachis repens Handro, mais conhecidas como amendoim-rasteiro ou grama-amendoim. 

Estas espécies são parentes próximas do amendoim comum (Arachis hypogaea L.), que usamos na alimentação. Entretanto, o amendoim é uma espécie nativa da região andina da América do Sul, considerada como naturalizada no Brasil. 

Descrição botânica: Da família botânica Fabaceae, são ervas estoloníferas, rasteiras, perenes, que formam um denso tapete verde ao crescerem sobre o solo. As folhas são compostas, com 4 folíolos (2 pares), de formato ovalado, e cor variando entre verde-claro e verde-escuro. As flores são numerosas, pequenas e de cor amarela. Na espécie A. pintoi pode ocorrer plantas com flores brancas, ainda que raramente. São consideradas plantas autógamas. 


Onde ocorrem: Ambas espécies são nativas e endêmicas do Brasil, tendo sua ocorrência associada aos cursos d’água. A. pintoi é encontrada naturalmente nas bacias dos rios Jequitinhonha, São Francisco e Paraná, chegando até o litoral atlântico. A. repens é encontrada naturalmente apenas na região Norte de Minas Gerias, porém, atualmente é cultivada como planta ornamental em todas as regiões do Brasil. 


Usos: Ambas são usadas no paisagismo ou como forrageiras, na alimentação animal. No paisagismo tem sido cada vez mais usadas como forração, para recobrir grandes áreas de solo descoberto, desde que não haja pisoteio. Podem ser empregadas tanto em jardins residenciais quanto em parques, jardins ou canteiros de ruas e avenidas. Devido ao crescimento rápido, boa capacidade de recuperação retenção de solo, a grama-amendoim tem sido muito usada na cobertura funcional do solo, especialmente em encostas resultantes de construções urbanas, rurais e, até mesmo, no paisagismo rodoviário. 


O potencial ornamental da grama-amendoim reside muito mais no crescimento da folhagem do que propriamente na floração. Mas em condições de boa disponibilidade de água, as plantas florescem quase o ano todo, com picos entre outubro e dezembro, formando um cenário de grande beleza estética. Tem a vantagem de não necessitar podas, apenas quando se deseja controlar o crescimento horizontal
das plantas. 



Aspectos agronômicos: A grama-amendoim tem a vantagem de se adaptar com facilidade à solos ácidos, de baixa fertilidade e com alta concentração de alumínio, características de solo de Cerrado e onde a maioria das forrações ornamentais não se dá bem. Podem ajudar, inclusive, na recuperação e conservação do solo, devido à elevada capacidade de fixação de nitrogênio dessas plantas. 

Arachis pintoi tolera sombreamento, podendo ser cultivada em áreas com insolação parcial, a exemplo de vãos entre prédios, e apresenta maior resistência à seca, mantendo folhagem verde nos períodos mais secos do ano. A. repens também possui alta capacidade de adaptação às diferentes condições de clima e solo do Brasil. Entretanto, a experiência prática mostra que é mais sensível à falta de água e não tolera geadas. Sob irrigação constante, tanto em sistemas automatizados quanto manuais, produz um tapete verde de grande beleza ornamental. 


A produção de mudas é feita por estaquia de ramos ou estolhos, retirando-se estacas com 4 a 6 nós para garantir bom pegamento. Também é possível comprar mudas em lojas de paisagismo. A quantidade de mudas por metro linear vai depender do custo da obra e da pressa do jardineiro: se desejar um fechamento mais rápido usa-se 10 mudas/m. É recomendável manter as plantas sob contenção, pois podem facilmente invadir áreas adjacentes de gramados e outros canteiros.


O plantio pode ser feito a pleno sol ou meia sombra, de acordo com a característica de cada espécie. O solo deve ser preparado previamente com boa quantidade de adubo orgânico e boa drenagem, a fim de evitar encharcamento. Atenção para os períodos de seca, as plantas ficam mais bonitas se houver água de forma constante o ano todo. Quando fizer adubação de cobertura, prefira adubos orgânicos ou formulações organominerais, que liberam nutrientes de forma mais lenta (menos adubações por ano, menor custo) e são menos poluentes ao meio ambiente. 


Bibliografia recomendada 

Favero, A. P.; Valls, J.F.M. Arachis repens – grama amendoim. In: Coradin, L.; Camillo, J.; Pareyn, F.G.C. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro: Região Nordeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link

Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.Link 

Valls, J.F.M.; Coradin, L. Arachis pintoi – amendoim forrageiro. In: Vieira, R.F.; Camillo, J.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

A cana-do-brejo ou cana-de-macaco, como também é conhecida em várias regiões do Brasil, é muito usada na medicina popular e sempre suscita muitas dúvidas se é uma única espécie ou se existe mais de uma, devido às diferenças marcantes que se observa nas plantas conforme o clima e a região. De acordo com o site da Flora do Brasil, existe pelo menos 16 espécies do gênero Costus catalogadas no Brasil, a maioria nativa da floresta amazônica. A cana-do-brejo é a mais comum delas e devido às suas diferenças morfológicas, foi classificada em duas variedades: Costus spiralis (Jacq.) Roscoe var. spiralis e Costus spiralis var. villosus Maas, sendo esta última, de ocorrência restrita à região amazônica. Para simplificar, aqui trataremos da espécie principal Costus spiralis, sem entrar nos detalhes das variedades. 

Descrição botânica: Família Costaceae, planta de 1 a 2 m de altura, com rizomas. As folhas são grandes, de formato alongado, glabras e dispostas em espiral (daí o nome da espécie). As flores são reunidas em inflorescências terminais (estróbilos) e podem ter coloração variando de avermelhado à rosa claro ou branco. Os frutos são pequenos (1,5 cm de comprimento), tipo cápsula, com até 20 sementes de cor preta. 

Estróbilos de C. spiralis com flores de cores diferentes

Onde ocorre: Planta nativa, porém, não endêmica do Brasil, com ocorrência desde o México até a porção sul do Brasil. Mais comum em áreas úmidas, como beira de rios ou lagos, mas também pode ocorrer em áreas de savana ou afloramentos rochosos. 

Devido à similaridade entre plantas, é muito comum a confusão entre Costus spiralis e Costus spicatus, inclusive no uso popular e até mesmo em trabalhos científicos. Embora ambas sejam usadas para as mesmas finalidades, a espécie nativa e mais comum no Brasil é Costus spiralis

Usos: É muito usada com fins ornamentais, tanto para o cultivo em jardins quanto para flor de corte, devido à beleza de suas inflorescências. Vai bem na montagem de arranjos tropicais, juntamente com helicônias, estrelitzias e filodendros. No jardim pode ser cultivada junto a muros, em renques ou à beira de lagos ou piscinas naturais. 

Também apresenta amplo uso medicinal. As folhas, hastes e rizomas são usados na medicina popular para o tratamento de cálculos renais, sífilis, nefrite, cistite, controle da diabetes e como anti-inflamatória. Em algumas regiões, o chá das folhas é usado contra hipertensão e como diurético, as folhas cozidas são usadas no controle de diarreias; o chá ou suco dos colmos (caules) é usado no combate à hepatite e dores de barriga. No Distrito Federal, um laboratório farmacêutico possui cultivo da espécie para a produção de chá medicinal. 

Cultivo de C. spiralis no DF para a produção de chá medicinal
É possível encontrar na literatura uma centena de relatos sobre o uso medicinal da cana-do-brejo, porém, existe pouca confirmação científica. Uma revisão bem interessante sobre estudos químicos e farmacológicos a cerca desta espécie foi publicada por Duarte et al. (2017) na revista Fitos (Link). 

Quando se fala em planta medicinal é importante sempre mencionar que o uso nunca deve ser feito de forma indiscriminada e deve-se atentar sempre para a correta identificação da planta. Assim como outras da mesma família botânica, a cana-do-brejo possui em sua composição o ácido oxálico, que ingerido em excesso pode causar intoxicações graves. 

Distribuição das folhas em espiral, aspecto que ajuda a identificar a espécie
Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita tanto por sementes quanto por rizomas e estacas do caule. As plantas desta espécie preferem clima quente e úmido, mas podem se desenvolver satisfatoriamente também em regiões mais secas, desde que irrigadas. O plantio deve ser feito em solos ricos em matéria orgânica e, preferencialmente, mantidos úmidos. Pode ser cultivada em meia sombra ou sol pleno e floresce quase o ano todo. Observando plantas em diversos locais do Brasil, notei que no Cerrado, durante a seca, as plantas podem definhar, mas mantém o rizoma intacto, rebrotando vigorosamente assim que se inicia a época chuvosa. Já em regiões mais frias, durante o inverno, a parte aérea pode secar totalmente devido a ocorrência de geada, porém, os rizomas rebrotam logo que acaba o frio. 

As flores também cumprem papel ecológico, fornecendo abrigo e alimento para a fauna

Bibliografia recomendada 

Costaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 06 Nov. 2019 

Vieira, R.F.; Camillo, J.C.; Coradin, L. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial : plantas para o futuro : região Centro-Oeste. Ministério do Meio Ambiente, Secretaria de Biodiversidade. – Brasília, DF: MMA, 2018. (Link)

A secura produz paisagens lindas no Cerrado! O pôr do sol é de tirar o folego, florescem os ipês, os pau-rosas, os jacarandás e as sapucaias, com suas folhas e flores roxas que se destacam em meio à paisagem cinza das cidades do Centro-Oeste do Brasil. Por vezes confundidas com “algum tipo de ipê”, as sapucaias são árvores de médio a grande porte, com potencial ornamental para uso em áreas amplas e podem ser cultivadas em várias regiões do Brasil. 

Descrição botânica: Da família Lecythidaceae, a sapucaia é uma árvore que pode medir entre 15 a 30 m de altura e o tronco pode chegar a 90 cm de diâmetro. Obviamente que nas condições de restrição hídrica do Cerrado as plantas crescem menos, porém apresentam um colorido muito mais vibrante. As folhas jovens possuem cor arroxeada, passando a verde escuro à medida que maturam. As flores, também arroxeadas, desabrocham simultaneamente ao surgimento das folhas jovens e ambas se confundem na monocromia. Os frutos são grandes cápsulas lenhosas, que podem pesar mais de 1 kg, e abrigam em seu interior de 10 a 40 sementes (castanhas). A floração e frutificação ocorrem de junho a outubro, com variação conforme o clima e a região. 

Folhas novas e flores que se confundem na monocromia
Onde ocorre: Planta nativa, de ocorrência exclusiva no Brasil, nos biomas Amazônia e Mata Atlântica, nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste. É possível encontrar a espécie de forma natural em área antropizada e em florestas úmidas. Nas áreas urbanas, geralmente é encontrada na condição de cultivada. 
Detalhe de flores de sapucaia em planta com as folhas verdes

Usos: A espécie é mais conhecida pelos seus usos ornamental e madeireiro. Para fins ornamentais é preciso levar em consideração que a espécie cresce bastante e, por isso, deve ser cultivada em áreas amplas e ensolaradas, tais como praças, parques ou avenidas largas, onde não haja muita circulação de pessoas. A presença de frutos grandes e pesados, ainda que em pequeno número, inviabilizam o uso da sapucaia em estacionamentos e passeios públicos de grande circulação, bem como em áreas próximas a fontes ou piscinas, pois a espécie perde as folhas durante a estação seca. A madeira é moderadamente dura, empregada na fabricação de estacas, mourões e construções rurais em geral. Os frutos lenhosos podem ser usados como adorno e na fabricação de peças decorativas para interiores. 

Exemplo do uso da sapucaia na arborização de avenidas
As castanhas são comestíveis e muito saborosas. Cada 100g de castanha contém, aproximadamente, 55% de lipídios, 27% de proteínas, 5% de carboidratos, 3% de cinzas e 10% de umidade. O perfil lipídico é composto de 43% de ácidos graxos poli-insaturados, 42% ácidos graxos monoinsaturados e 15,2% ácidos graxos saturados. São fontes riquíssimas em fósforo, magnésio e manganês, além de fornecer energia, proteínas e outros minerais importantes para a saúde humana. As sementes são levemente aromáticas e oleaginosas e podem ser consumidas cruas, cozidas ou assadas, porém, sempre com moderação, pois cada 100g de castanha de sapucaia fornece, em média, 620 kcal. 

Aspectos agronômicos: A propagação pode ser feita por sementes ou por estaquia. As sementes devem ser colhidas e semeadas logo em seguida, pois perdem a viabilidade rapidamente. Antes do plantio em canteiros ou em saquinhos, recomenda-se escarificar com lixa as sementes, a fim de aumentar a germinação. As sementes devem ser regadas diariamente e a germinação pode levar entre 15 a 45 dias. Quando a propagação for por estacas, deve-se dar preferência às estacas herbáceas, que são menos lignificadas e enraízam com mais facilidade. Já existem estudos que demonstram a viabilidade da propagação in vitro da sapucaia, via cultivo em embriões e por microestaquia. A espécie prefere regiões com clima quente e, pelo menos, 1000 mm
anuais de chuvas. Desta forma, deixe para transplantar as mudas para o local definitivo no início da estação chuvosa, assim aumentarão as chances de pegamento das mudas. 

Frutos imaturos, porém, já bem grandes

Bibliografia recomendada 

Carvalho, I.M.M. et al. Caracterização química da castanha de sapucaia (Lecythis pisonis Cambess.) da região da zona da mata mineira. Bioscience Journal, 28(6), 2012. 

Flora do Brasil. Lecythidaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 21 Set. 2019
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