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Foto: Dijalma Barbosa da Silva (Acervo Iniciativa Plantas para o Futuro)

Quando se fala em PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), a ora-pro-nóbis é uma das espécies que as pessoas mais conhecem. Seu nome tem origem no latim e significa “rogai por nós”. Os nomes populares são os mais diversos e variam conforme a região: azedinha, cipó-santo, espinho-preto, espinho-de-santo-Antônio, groselha-americana, lobrobó, lôbolôbo, surucucu, orabrobó, entre outros. Muitos autores citam a ora-pro-nóbis como um super alimento ou a cura para diversos males, porém, ainda existe muita desinformação a respeito. À parte suas propriedades nutricionais e medicinais, prefiro consumir a ora-pro-nóbis porque as folhas são deliciosas e, de fato, muito nutritivas. Além disso, é uma verdura fácil de cultivar, produz o ano inteiro e, para mim o aspecto mais importante, é uma planta com muita história e sabor envolvidos em seus pratos.


Descrição botânica: Planta trepadeira perene, da família Cactaceae. Os caules são finos e podem medir até 10 m de comprimento, com espinhos distribuídos por toda a extensão. As são folhas simples e de coloração verde claro, quando novas, e verde escuro quando adultas. As flores são brancas, numerosas, de odor agradável e medem cerca de 4 cm de diâmetro. Os frutos são verdes quando imaturos e alaranjados quando maduros. A floração mais intensa ocorre nos meses de janeiro a abril. 

Observação importante: Sabe-se que esta espécie apresenta alguma variabilidade de características botânicas, especialmente na coloração das folhas, que pode se acentuar conforme a região e o clima. Embora o gênero Pereskia apresente espécies com folhas muito parecidas, as plantas comestíveis são aquelas que produzem flores brancas com miolo alaranjado e folhas menores. Na dúvida quanto à correta identificação da planta, busque ajuda de um especialista da área. Nunca consuma plantas que você não tem certeza da identificação. 


Onde ocorre: Nativa da flora do Brasil, ocorre naturalmente na maioria dos estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, além do estado de Goiás. Habita os biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Não é exclusiva do Brasil, sendo encontrada em boa parte dos países da América Tropical. 

Usos: Suas folhas jovens e tenras são utilizadas como alimento. Estudos da Embrapa mostram que as folhas apresentam teor de proteína bruta superior a 20%, o que justifica seu uso como alimento rico em proteínas. As folhas podem ser consumidas cruas, na forma de salada, ou como ingrediente de refogados, tortas e farinha para a elaboração de massas variadas. É uma excelente fonte de vitaminas, minerais e aminoácidos e por isso, considerada um alimento funcional. A farinha, obtida das folhas desidratadas e trituradas, pode entrar como complemento na fabricação do macarrão e na panificação, elevando os teores de proteínas e cinzas e tornando o prato mais nutritivo. Os frutos também podem ser consumidos in natura, são ricos em carotenoides e vitamina A. Na medicina popular a planta é utilizada como emoliente e cicatrizante. A planta adulta apresenta formato bastante ornamental, podendo ser utilizada em cercas vivas ou barreira de quebra vento. 


A ora-pro-nóbis é bastante utilizada na culinária de Minas Gerais, já faz parte da cultura local e está presente em diversas preparações. Anualmente, a cidade histórica de Sabará sedia o Festival da Ora-pro-nóbis, onde a hortaliça é a grande estrela. A cada ano o festival tem recebido mais destaque, com a presença de chefes renomados demonstrando suas criações exclusivas ao lado de pratos já muito tradicionais, como a carne com ora-pro-nóbis, croquetes, pasteis, coxinhas, quiches, tortas e até sorvetes. 


Mas o Sul também tem seus encantos com a ora-pro-nóbis! Em uma de minhas viagens divulgando a biodiversidade brasileira, tive a grata satisfação de experimentar a culinária tradicional do Rio Grande do Sul, uma parte importante que eu pouco conhecia. Em visita à Porto Alegre, na feirinha da Redenção, experimentei alguns pratos deliciosos, como o pastel de ricota com recheio de patê de ora-pro-nóbis, o croquete de carne com folhas refogadas e o mais surpreendente sabor foi o pão de beterraba com patê verde de ora-pro-nóbis: todos muito delicados e saborosos.


Aspectos agronômicos:
De fácil propagação por estacas (mais usual) ou por sementes. O cultivo deve ser feito em pleno sol, com rega abundante. Plantas cultivadas na sombra ficam mais alongadas (estioladas) e produzem menos folhas e flores, algumas nem florescem. Embora a planta suporte bem a seca, produz mais folhas quando bem irrigada e adubada com bastante matéria orgânica. As plantas apresentam crescimento rápido e vigoroso, baixa incidência de pragas e doenças e adaptabilidade a solos e climas variados. Na horta ou pomar, o plantio das mudas deve ser feito, preferencialmente, no início das chuvas, para o bom estabelecimento das plantas. Para quem não tem muito espaço, a planta se adapta bem ao cultivo em vaso, sendo possível mantê-la em varandas de apartamentos, desde que haja boa insolação. A colheita das folhas se inicia entre 60 e 90 dias após o plantio, preferindo-se sempre as folhas mais jovens e tenras. Em pequenos ambientes ou mesmo áreas urbanas maiores, é importante atentar para o fato de que as plantas produzem grande quantidade de espinhos e exige cuidados ao manejar. O local de plantio deve ficar afastado de áreas de circulação de pessoas (especialmente as crianças) ou animais domésticos, porque os espinhos podem causar ferimentos ao menor toque. 


Curiosidades: Esta espécie tem sido considerada como uma hortaliça não convencional, ou seja, planta com distribuição limitada à determinada região, que não faz parte de uma cadeia produtiva como as hortaliças convencionais, mas que exerce grande influência na alimentação e na cultura de populações tradicionais. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2010 através do lançamento do Manual de Hortaliças Não-Convencionais, vem disponibilizando informações e estimulando o consumo e plantio da ora-pro-nóbis nas diversas regiões do Brasil. Informações mais detalhadas sobre plantio e tratos culturais é possível se obter no manual “Cultivo de Ora-pro-nóbis (Pereskia) em Plantio Adensado sob Manejo de Colheitas Sucessivas”, de autoria do pesquisador Nuno Madeira et al. (2016), e disponível gratuitamente na biblioteca virtual da Embrapa. 

Bibliografia recomendada 

AGOSTINI-COSTA, T.S. et al. "Carotenoids profile and total polyphenols in fruits of Pereskia aculeata Miller." Revista Brasileira de Fruticultura, 34(1), 234-238, 2012. 

CEMBROLA, C.T. et al. Pereskia aculeata (Ora-pro-nobis). In: VIEIRA, R. F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. (Ed.). Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: Região Centro-Oeste. 2018. 

QUEIROZ, C.R.A.A. Cultivo e composição química de Ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Mill.) sob déficit hídrico intermitente no solo. Tese. Jaboticabal, 2012. 144 f. 

ROCHA, D.R.C., et al. Macarrão adicionado de ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Miller) desidratado." Alimentos e Nutrição Araraquara, 19(4), 459-465, 2009. 

TAKEITI, C.Y. et al. Nutritive evaluation of a non-conventional leafy vegetable (Pereskia aculeata Miller). International journal of food sciences and nutrition, 60(S1), 148-160, 2009. 

ZAPPI, D.; TAYLOR, N.P. Cactaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB1633>



Hoje vamos falar de outra espécie muito conhecida no Brasil, a Pereskia grandifolia, de uso semelhante à Pereskia aculeata, que é a ora-pró-nobis verdadeira, de uso alimentício e descrita em outro post mais recente. Esta espécie é encontrada com maior facilidade nos jardins, em vários estados do Brasil, como elemento decorativo. Também pode ser utilizada como alimento, mas em menor escala quando comparada à P. aculeata.

Inflorescência e folhas

Descrição botânica: Planta da família Cactaceae, com porte variando entre arbustivo e arbóreo, altura entre 3 a 6 metros. Suas folhas tem coloração verde-escuro, simples, com bordas onduladas e comprimento de até 10 centímetros. Na base de cada folha forma-se os espinhos, em tufos numerosos. As flores possuem seis pétalas de coloração rosa brilhante e textura lisa. No centro de cada flor concentram-se numerosos estames. As flores concentram-se em pequenos cachos (cimeiras), nas pontas dos galhos. Os frutos tem formato de baga e tem coloração verde-avermelhado quando jovens (com presença de pequenas folhas na superfície) e passando a verde-amarelados quando se inicia a maturação. 
Na literatura é relatada a ocorrência de duas subespécies para essa espécie: Pereskia grandifolia Haw. subsp. grandifolia e Pereskia grandifolia subsp. violacea (Leuenb.) N.P.Taylor & Zappi.
 
A) Planta jovem arbustiva; B) Planta adulta com porte arbóreo

Onde ocorre: A espécie é nativa e endêmica da flora do Brasil, ocorre naturalmente nos biomas Caatinga e Mata Atlântica.

Fruto verde.
































Usos: Ornamental, alimentícia e medicinal. Esta planta é bastante ornamental, especialmente, pela sua floração delicada e, mesmo quando sem flores, a folhagem verde brilhante confere um bonito aspecto visual. A presença de espinhos no caule e ao longo dos galhos permite que a planta possa ser utilizada em cercas vivas, no entanto, este fato também limita seu uso principalmente em locais onde brincam crianças ou animais domésticos.
As folhas são uma boa fonte de proteína, vitaminas e minerais, podem ser consumidas refogadas ou no preparo de omeletes, saladas, cozidos e tortas. Os frutos também são comestíveis. Na medicina tradicional as folhas da ora-pro-nobis são empregadas para o controle do diabetes, ou ainda, na preparação de emplastro para infecções da pele. 

Espinhos no tronco da planta adulta.  
             
Flores.




Aspectos agronômicos: No Distrito Federal podem ser observadas plantas floridas entre os meses de outubro a março, no período chuvoso. A produção de mudas é feita através da estaquia de ramos jovens. A propagação por sementes também é possível, no entanto o percentual de germinação é baixo devido a dormência e contaminação das sementes por fungos. 
O plantio das mudas deve ser feito em covas com 50 x 50 cm, em solo fértil e bem drenado. As regas devem ser frequentes até os 90 dias, nesta fase de estabelecimento a planta é bastante sensível a falta de água. Quando adulta, a espécie é resistente à seca e adapta-se bem em diferentes temperaturas, tanto locais frios com geadas ocasionais, como aqueles de temperaturas mais elevadas. Seu cultivo deve ser feito e condição de sol pleno ou em sombra parcial, associada com outras espécies arbóreas 
A planta é cultivada de forma insipiente nos quintais e jardins das casas, não existem dados agronômicos disponíveis sobre o seu cultivo em escala comercial. 








Bibliografia recomendada

GASPARETTO, B.F. Estudo do enraizamento de estacas foliares de Pereskia grandifolia Haw.(ora-pro-nóbis) Cactacea, sob diferentes doses de AIB e diferentes substratos. (2013).
GASPARETTO, B.F. Análise da germinação de sementes de ora-pro-nobis (Pereskia grandifolia Haw.) Submetidas a diferentes condições de temperatura e fotoperíodo. (2014).
Pereskia grandifolia. Disponível em: Link. 2015
Ora-pro-nobis (Pereskia grandifolia). Disponivel em: Link. 2015.

TAYLOR, N. et al. Cactaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: Link. 2015.
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