Unha-de-gato {Dolichandra unguis-cati (L.) L.G. Lohman}

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Unha-de-gato
{Dolichandra unguis-cati (L.) L.G.Lohmann}

Neste mês de outubro é bastante comum, especialmente na região central do Brasil, observarmos esta espécie florida, em geral no alto da copa das árvores, avistando-se de longe uma florada intensa e de coloração amarelo forte. Trata-se da unha-de-gato, espécie nativa da flora do Brasil e que, apesar da beleza e do potencial paisagístico, é mais reconhecia como uma espécie invasora de áreas cultivadas.
Estrutura de fixação em forma de "garrinha", que dá nome à espécie.
Foto; J. Camillo.
A espécie é conhecida popularmente no Brasil com os nomes de unha-de-gato, cipó-de-gato, cipó-de-morcego ou cipó-ouro. Em inglês, recebe os nomes de cat's-clawcat’s-claw-creeper, catclawvine ou cat-claw-ivy. A denominação mais usual é unha-de-gato, nome atribuído pela característica da sua estrutura de fixação, que apresenta três “garrinhas” recurvadas, semelhantes às unhas dos gatos. 
No entanto, não devemos confundir esta espécie com as unhas-de-gato utilizadas tradicionalmente na fitoterapia da região Amazônica (Uncaria guianensis e U. tomentosa). Embora todas tenham propriedades medicinais, ocorram nas mesmas regiões e apresentem alguma similaridade, são espécies distintas e pertencem à famílias botânicas diferentes.

Detalhes da flor. Foto: J. Camillo.
Descrição botânica: A unha-de-gato D. unguis-cati, pertence à família botânica Bignoniaceae. A planta apresenta ramos finos, com folhas oposta e de formato ovado-acuminadas. Pode apresentar variação na morfologia foliar, ligada provavelmente à diferenças genotípicas e plasticidade adaptativa, ou seja, as adaptações estruturais da planta aos diferentes ambientes. Apresenta gavinha trifurcada no ápice, terminadas em garras. As flores são amarelas e em formato campanulado, com cinco pétalas fundidas; ocorrem isoladas ou em grupos de 2 a 3 unidades. Os frutos são cápsulas deiscentes, alongadas e finas, contendo numerosas sementes aladas, que se dispersam com facilidade pelo vento.
Folhas jovens. Foto: J. Camillo.
Apresenta uma lista grande sinonímias botânicas, com pelo menos 40 nomes diferentes, como pode ser conferido no site da Lista de Espécies da Flora do Brasil (Link). Destas, a sinonímia mais relevante é Macfadyena unguis-cati (L.) A.H.Gentry, sendo este o nome científico mais comum encontrado na literatura internacional.

Onde ocorre: A espécie é considerada nativa da flora brasileira, mas não é endêmica, ou seja, não ocorre exclusivamente no Brasil, podendo ser encontrada em vários países da América Latina, desde o México até a Argentina. Ocorre também nos Estados Unidos, África do Sul, Austrália e vários outros, na condição de “invasora”, introduzida principalmente como planta ornamental. No Brasil, ocorre em todos os estados e em diversos tipos de vegetação, desde áreas abertas alteradas (antropizadas), até matas mais fechadas e ambientes mais conservados.

Usos: A espécie possui potencial para uso ornamental, principalmente na decoração e cobertura de muros e paredes externas, semelhante ao uso da hera (Hedera helix). Ainda pode ser cultivada na forma de maciços no meio ou na bordadura do jardim. Sua florada é curta, não mais do que uma semana. A espécie é mais cultivada no sul do Brasil sobre cercas, pérgulas, caramanchões, muros ou árvores.
Na época da floração, forma uma cascata de flores no alto da copa das árvores, ou sobre muros e pergolados.
Foto: J. Camillo
Na região Centro-Oeste do Brasil, a espécie é pouco cultivada, em parques e jardins onde é vista, ocorre de forma espontânea. Como exemplo, as imagens que ilustram esta publicação, foram tiradas no Parque dos Jequitibás em Sobradinho – DF, onde as plantas ocorrem de forma espontânea sobre as copas das árvores.
A unha de gato (D. unguis-cati) é utilizada na medicina tradicional, não apenas no Brasil, mas também em outros países, para o tratamento de doenças venéreas, como antiinflamatório e antimalárico. Estudo farmacológicos indicam que a espécie tem mesmo potencial medicinal. Suas propriedades antiinflamatória são atribuídas à presença de lapachol, um composto que também está presente em outras Bignoniáceas, como nas cascas do Ipê-roxo (Handronathus impetiginosus) e teve estrutura e função bastante estudadas. A espécie é rica em flavonoides e também em ácido quinóvico, um composto que pode ser utilizado como antidoto nos acidentes com cobras venenosas. O caule ainda pode ser fonte de tanino, utilizado em curtumes e corante para tinturaria.
A floração da unha-de-gato na mata do Parque dos Jequitibás,
em Sobradinho - DF. Foto: J. Camillo.

Limitações: A espécie produz grande quantidade de sementes e diversas formas de propagação, características que conferem alto potencial invasivo. Além de produzir grande quantidade de sementes viáveis, estas se depositam no solo formando imensos bancos de sementes. Sua germinação é regulada ao longo do tempo, garantindo assim, o recrutamento de novas plantas por longos períodos. Suas raízes apresentam crescimento agressivo e são de difícil remoção.
Diversos países tem relatado prejuízos em decorrência da invasão desta espécie a ecossistemas nativos. Na Austrália, uma infestação de grandes proporções, obrigou o país a traçar um plano de contenção para evitar maiores transtornos aos ecossistemas locais. Na África do Sul, onde a espécie foi introduzida como planta ornamental, também busca-se formas de controlar sua disseminação e uma das alternativas testadas, tem sido o controle biológico.
Provavelmente uma das maiores limitações ao uso econômico desta espécie, além do potencial invasivo, seja a ausência de informações agronômicas, como época de plantio, produção de mudas e tratos culturais Sabe-se que a espécie necessita de podas e uma série de cuidados para sua manutenção, porém, os dados disponíveis são adaptações feitas a partir de estudos com outras espécies, que nem sempre são as técnicas mais adequadas para a unha-de-gato.

Propagação: De fácil propagação, produz grande quantidade de sementes viáveis. Além disso, também pode ser propagada por divisão de túberas e estaquia de galhos.

Ramos finos que se enredam no tronco das arvores ou em outras
trepadeiras, para atingir a copa. 
Foto: J. Camillo
Aspectos ecológicos e agronômicos: É uma liana, trepadeira, ou seja, vive sobre outras espécies vegetais, em geral arbóreas. Devido à presença de uma mecha de garras, a espécie pode “escalar” qualquer superfície, subindo a altura de 9-10 metros, sendo observada em árvores, a mais de 15 metros de altura. Dependendo da região pode ser considerada uma espécie de folhagem sempreverde. Mas no Cerrado, observa-se que a espécie perde as folhas na época da seca, conferindo um tom ainda mais cinza à paisagem.
Durante a fase de crescimento e ascensão dos ramos, que pode corresponder a vários anos, não há florescimento, o que só vai acontecer com a ramagem madura e pendente, na primavera, quando forma uma vistosa cascata de flores amarelas com a ramagem sem folhas. A produção de flores pode variar entre os anos, em um ano a florada pode ser bastante intensa, mas no ano seguinte o número de flores pode se reduzir drasticamente. Talvez esta variação, esteja relacionada com o regime hídrico do ano ou com o estado nutricional da planta.
Adapta-se bem a diversos tipos de ambientes e não exige grande quantidade de água para o seu desenvolvimento. Pode ser cultivada em condição de pleno sol ou sombreamento parcial. O solo dever ser bem drenado, leve e com alguma quantidade de matéria orgânica. Entre a primavera e o final do verão, pode ser incorporado um pouco de esterco curtido próximo à base da planta.
Quanto utilizada como planta ornamental, é necessário efetuar poda para controlar o crescimento, que pode ser realizada no verão, após o período de florescimento. Por ser uma espécie nativa da flora do Brasil, é bastante adaptada à condições adversas e também à pragas e doenças.
Exemplo de uso ornamental da unha-de-gato, recobrindo um muros externos na Califórnia - EUA. Foto: Daves Garden. (http://davesgarden.com/guides/pf/showimage/341589/#b)

Referências bibliográficas
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