Butiá (Butia spp.)

by 1/31/2015 03:36:00 PM 8 comentários

Planta de Butia capitata.
    Quem nunca ouviu a expressão "foi de cair os butiás do bolso", provavelmente nunca esteve no Sul do Brasil. É uma forma popular, sobretudo no Rio Grande do Sul, de exprimir admiração, perplexidade ou o quanto uma festa estava animada, por exemplo. A origem da expressão (entre outras explicações), deve-se ao fato de que, quando maduros, os butiás caem no chão e as pessoas vão coletando e guardando nos bolsos, de onde facilmente poderiam cair, em caso de movimentos ou paradas bruscas do seu portador.
     Butiá é o nome mais comum no sul do Brasil. Em Goiás e Minas Gerais, é chamado de coquinho-azedo ou também de coco-cabeçudo, uma alusão ao formato arredondado das plantas que ocorrem na região, parecendo mesmo o formato de uma cabeça. São mais de 20 espécies de butiás diferentes, aqui vou fazer um apanhado geral.

Frutos maduros de Butia capitata. Foto: Roberto Fontes Vieira.
Descrição botânica: São plantas de caule único, que pode chegar a 4 ou 5 metros de altura, quando adulto. O pecíolo das folhas apresenta um prolongamento, similar a espinhos. As folhas são pinadas, arqueadas, com coloração variando entre verde-claro a verde-azulada, dependendo da espécie; quando adultas podem medir entre 2 a 3 metros de comprimento. As inflorescências são protegidas por espatas; a raque floral contém numerosas ráquilas com flores femininas e masculinas; pode atingir até 1 metro de comprimento. Os frutos apresentam coloração predominantemente amarela (quando maduros), mas também pode ocorrer frutos avermelhados e até arroxeados, dependendo da espécie; o formato varia entre ovalado a oblongo; a intensidade de aroma a espessura da polpa, também variam entre as diferentes espécies.

Onde ocorre: O gênero Butia é nativo da América do Sul. No Cerrado, as espécies mais conhecidas são o coquinho-azedo ou coco-cabeçudo (Butia capitata), a palmeira-jataí (Butia purpurascens) e o butiazinho (Butia archeri), o qual já foi assunto deste blog (Link). Na região sul do Brasil os butiás mais comuns são das espécies Butia catarinensis, B. eriospatha, B. odorata e B. paraguayensis.
Planta de Butia eriospatha, mais comum no sul do Brasil.
Usos: O butiá é o fruto comestível (quando maduro) e muito versátil para uso gastronômico. Pode ser consumido in natura e a polpa é matéria-prima para a elaboração de sucos, geleias e doces. A polpa fatiada ou ralada, pode ser utilizada na elaboração de pratos salgados, como recheio para pastéis, tortas ou quiches. Uma das formas de uso mais popular do butiá, é o curtimento dos frutos em aguardente para a elaboração da famosa cachaça de butiá. Também podem ser macerados e adicionados de açúcar, para a fabricação de licor. A amêndoa produz óleo comestível, mas também pode ser consumida in natura, possui sabor suave que lembra uma castanha. Em Goiás e Minas Gerais, são bastante apreciados os picolés e sorvetes de coquinho-azedo, encontrados com facilidade em sorveterias, restaurantes e feiras livres que comercializam produtos do Cerrado. 
     Outro uso bastante expressivo é na ornamentação, tanto em jardins particulares como na arborização urbana, no Brasil e também em outros países do mundo. O formato da copa e a coloração das folhas das palmeiras butiá, conferem um aspecto escultural à planta, característica importante na ornamentação. O emprego destas plantas no paisagismo pode ser tanto na forma de plantios mistos, em composição com outras espécies, como de forma isolada, conforme a criatividade do paisagista.
Bebida (polpa) e cachaça de butiá.
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes e é muito importante efetuar uma limpeza cuidadosa dos coquinhos antes da germinação, com a finalidade de evitar o ataque de fungos e formigas. As sementes germinam entre 60 e 300 dias após o semeio e algumas, dependendo do nível de dormência, podem levar até mais de dois anos para germinarem. A quebra de dormência pode ser feita com uso de tratamento térmico ou reguladores vegetais específicos para esta finalidade. No entanto, para maior comodidade, as mudas podem ser adquiridas, com relativa facilidade, diretamente em viveiros de plantas. O cultivo ornamental é feito em pleno sol, em plantios agrupados ou isolados e preferencialmente em áreas amplas.
     Não é comum encontrar cultivos comerciais destas espécies, no entanto maiores informações acerca do manejo sustentável das mesmas, podem ser obtidas no livro Boas Práticas de Manejo Para o Extrativismo Sustentável do Coquinho-azedo (Lima, 2010). É preciso lembrar que a coleta indiscriminada dos frutos, levou algumas espécies de butiás a serem incluídas na lista de Plantas Brasileiras Ameaçadas de Extinção. Desta forma, a observação das boas práticas, ao se coletar frutos na natureza, é fundamental para que as gerações futuras também tenham a oportunidade de conhecer essa riqueza de sabores.

Frutos de Butia eriospatha. Foto: Jair Longo, SP.
Curiosidades: O butiá tem sido descrito em inúmeros artigos, livros, teses e dissertações acadêmicas, sob variados pontos de vista, mas principalmente porque está enredado na cultura gastronômica de vários povos brasileiros. Em especial no Rio Grande do Sul, encontram-se maciços de plantas conhecidos como Butiazais (sul do Estado), alguns deles coincidem com o traçado de antigas linhas férreas. Um agricultor gaúcho me contava, que este fato não é apenas coincidência, uma vez que os frutos serviam de alimento aos passageiros que durante suas viagens de trem, ao descartar os coquinhos, colaboravam para a disseminação das plantas pela região. Este e outros fatos, podem ser creditados através de achados arqueológico, comprovando que o butiá fez, e faz, parte da história cultural da região há vários séculos.
Frutos de butiá madurinhos.
     Outro relato interessante, consta no trabalho de Rossato e Barbieri (2007), constatando que o butiá era utilizado como fonte de alimento pelos indígenas rio-grandenses, uma vez que podia ser armazenado por um longo período. As folhas eram empregadas no artesanato, fabricação de cestas, chapéus, bolsas, redes, armadilhas para caça e pesca e até na cobertura de cabanas. Índios nômades que habitavam a região das Missões e Planalto Central gaúcho no período de verão, no inverno partiam para o Paraná, na região de Foz do Iguaçu, e levavam consigo frutos de butiá para alimentação. Como muitos jogavam as sementes pelo caminho, a rota que os índios faziam ficou evidenciada pelos palmares remanescentes, plantados aleatoriamente por este processo, chamado de “caminho dos butiás”, hoje transformado na Rota dos Butiazais (link).
Exemplo do uso ornamental do butiazeiro no Jardim Botanico de Curitiba.
Bibliografia recomendada

ARTESANATO GIRUÁ. Receitas com butiá. Disponível em: Link. 2015.

LIMA, V.V.F. Boas Práticas de Manejo Para o Extrativismo Sustentável do Coquinho-azedo. Embrapa. 2010. Disponível em: Link.

MOURA, R.C. et al. Biometria de frutos e sementes de Butia capitata (Mart.) Beccari (Arecaceae), em vegetação natural no Norte de Minas Gerais, Brasil. Biota Neotropica, 10(2), 415-419, 2010.

ROSSATO, M., BARBIERI, R.L. Estudo etnobotânico de palmeiras do Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Agroecologia, 2(1), 2007.

8 comentários:

  1. Julceia amei seu blog! E adoro butia pena que aqui na Irlanda nao temos gostaria de sementes seria possivel vc enviar-me? Pago gastos.
    Aguardo seu comentario.
    Grata
    viviane.barry@gmail.com

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    1. Prezada Viviane, muito obrigada! Infelizmente não posso lhe enviar sementes por conta da legislação internacional que impede o envio de partes vegetais entre os países. Mas venha ao Brasil quando puder, voce vai encontrar essas delicias do Butiá no sul e também em Goiás e Minas. Grande abraço

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  2. O nosso Butiazeriro forma cachos mas as frutas são pequenas e secas. O que pode star acontecendo e o que podemos fazer para frutificar de forma adequada ? Heinz ARthur Niederheitmann - Piraquara - PR

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    1. Prezado Arthur, desculpe a demora em responde-lo. Uma problema sério, segundo especialistas, é a polinização dos butiazeiros. Algumas espécies necessitam que se faça polinização manual para produzirem frutos em quantidade e de boa qualidade. Outro problema também pode ser a nutrição deficiente da sua planta, a falta de micronutrientes pode provocar o abortamento de flores, baixa produção de frutos ou frutos deformados. Mais informações você poderá obter clicando no link abaixo:

      http://delbutia.com/wp-content/uploads/2015/04/Manual-BP-Butia.pdf

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  3. Esta cachaça de butiá é alcoólicas certo?? O álcool vem dá frutas ou é acrescentado depois?

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  4. Em casa dos meus pais existiam três tipos de butiá com três sabores diferentes e muito saborosos. Nasciam naturalmente e sem cuidados

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  5. Em casa dos meus pais existiam três tipos de butiá com três sabores diferentes e muito saborosos. Nasciam naturalmente e sem cuidados. Morávamos na Região das Missões, onde existiram Os Sete Povos Jesuíticos. Quem se lembra? Nunca esquecerei aquela Região!! Frutas nativas? Sete Capote,Cerejas,Pitangas, Pessegueiro do Mato,Guaporiti, Guabijú,Amoras branca e preta,

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  6. Poq as folhas figam pretas

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