Elas estão por toda parte, lindas e majestosas. As quaresmeiras ou flor-da-quaresma florescem duas vezes ao ano: uma florada na primavera e outra entre verão e outono (jan/mar), época que, em geral, coincide com o período de quaresma para várias religiões, daí a origem do nome popular flor-da-quaresma. Em inglês a espécie é conhecida como glory tree ou purple glory tree.

Quaresmeira em floração no mês de janeiro em
Sobradinho/DF. Foto: J. Camillo.
Características botânicas: Espécie de porte arbóreo, da família botânica Melastomataceae, que pode medir até 12 metros de altura. O tronco é simples, com até 40 cm de diâmetro e, eventualmente, com brotações na base. As folhas são simples, alongadas e de base acuminada, com nervura central bem destacada, de coloração verde-escura e com pelos superficiais. As flores são pentâmeras (cinco pétalas), com numerosos estames alongados e retorcidos; apresenta plantas com flores roxas e outras com flores rosadas. Os frutos são de tamanho pequeno, cor marrom, deiscentes e com inúmeras sementes que são dispersadas pelo vento.

Onde ocorre: A espécie é nativa da flora do Brasil, de ocorrência natural na Mata Atlântica. Atualmente é cultivada como ornamental em quase todo o Brasil, estendendo-se também a outras regiões de clima tropical e subtropical da América do Sul, sul dos Estados Unidos, ilhas do Havaí e até na China.
 
Flores da quaresmeira com seus estames alongados e
retrocidos. Fotos: J. Camillo.



Usos: A planta é bastante ornamental e encanta pelo colorido vistoso observado durante a floração. Seu uso ornamental é bastante difundido, sendo recomendada para projetos paisagísticos variados e na arborização urbana de praças, parques e jardins. Pelo seu porte reduzido, pode ser uma alternativa para locais próximos de rede elétrica.       
          A espécie também pode ser indicada como componente em projetos de recuperação de áreas degradas e como bioindicadora, para estudos de avaliação da poluição ambiental em centros urbanos.
        Uma observação importante quanto ao uso da espécie: a planta apresenta ramos frágeis que podem ser quebrados com facilidade pelo vento, sendo necessárias podas periódicas para manter o porte baixo e evitar acidentes.





Aspectos agronômicos:  Seu cultivo deve ser feito sob sol pleno, preferencialmente em solo fértil e de boa profundidade. No entanto, como é uma espécie rustica (pioneira), adapta-se e cresce também em solos pobres. Requer irrigação frequente até o seu completo estabelecimento e não tolera solo encharcado, por isso deve-se observar que o solo seja bem drenado. Pode-se efetuar o preparo prévio do solo antes do plantio das mudas, enriquecendo-o com matéria orgânica, que pode ser oriunda de aparas de grama, folhas e restos poda ou outro composto orgânico facilmente disponível.

A mesma espécie (Tibouchina granulosa) apresenta plantas com flores roxas e outras com flores rosadas. Alguns autores consideram as plantas de flores rosadas uma variedade desta espécie, no entanto, esta informação não consta na Flora do Brasil <Link>. Fotos: J. Camillo.
            A produção de mudas pode ser feita através da estaquia de ramos semilenhosos, em casa mesmo, ou adquiridas diretamente em viveiros comerciais. A propagação via sementes também é possível, no entanto, estudos relatam a ocorrência de dormência logo após a maturação, resultando em baixo percentual de germinação. Suas sementes tem características ortodoxas e podem ser armazenadas em refrigerador (±10º), por até um ano, sem perder a viabilidade.

Botões florais e flores totalmente abertas. Fotos: J. Camillo.
            Assim como já praticada para outras espécies ornamentais, a produção de mudas via micropropagação também pode ser utilizada para as quaresmeiras, com bons resultados. A multiplicação é feita a partir de segmentos de ramos novos (miniestacas), com 85% de enraizamento das estacas após 20 dias e 100% de sobrevivência das mudas durante o processo de aclimatização. No Brasil já existem vários laboratórios especializados em micropropagação e boa parte das plantas ornamentais que compramos atualmente, são produzidas desta forma.


Momentos de contemplação. Fotos: J. Camillo.
Referências bibliográficas

GUIMARÃES, P.J.F. Tibouchina in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 04 Fev. 2015.
IBF – Instituto Brasileiro de Florestas. Mudas de quaresmeira. Disponível em: Link. 2015
JIANG, B. et al. Rapid Propagation of Tibouchina granulosa. Guangdong Landscape Architecture, 5, 19, 2010.
LOPES, J.C. et al. Maturação fisiológica de sementes de quaresmeira. Pesquisa Agropecuária Brasileira, 40(8), 811-816, 2005.
LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum, 1998. v.1. 352p
PATRO, R. Quaresmeira – Tibouchina granulosa. Disponível em: Link. 2015.
STARR, F. et al. Tibouchina granulosa. 2003. Disponível em: Link. 2015.
ZAIA, J.E.; TAKAKI, M. Estudo da germinação de sementes de espécies arbóreas pioneiras: Tibouchina pulchra Cogn. e Tibouchina granulosa Cogn. (Melastomataceae). Acta Botanica Brasilica, 12(3), 221-229, 1998.

ZAMPIERI, M.C.T. et al. Characterization of Tibouchina granulosa (Desr.) Cong. (Melastomataceae) as a biomonitor of air pollution and quantification of particulate matter adsorbed by leaves. Ecological Engineering, 61, 316-327, 2013.

Planta de Butia capitata.
    Quem nunca ouviu a expressão "foi de cair os butiás do bolso", provavelmente nunca esteve no Sul do Brasil. É uma forma popular, sobretudo no Rio Grande do Sul, de exprimir admiração, perplexidade ou o quanto uma festa estava animada, por exemplo. A origem da expressão (entre outras explicações), deve-se ao fato de que, quando maduros, os butiás caem no chão e as pessoas vão coletando e guardando nos bolsos, de onde facilmente poderiam cair, em caso de movimentos ou paradas bruscas do seu portador.
     Butiá é o nome mais comum no sul do Brasil. Em Goiás e Minas Gerais, é chamado de coquinho-azedo ou também de coco-cabeçudo, uma alusão ao formato arredondado das plantas que ocorrem na região, parecendo mesmo o formato de uma cabeça. São mais de 20 espécies de butiás diferentes, aqui vou fazer um apanhado geral.

Frutos maduros de Butia capitata. Foto: Roberto Fontes Vieira.
Descrição botânica: São plantas de caule único, que pode chegar a 4 ou 5 metros de altura, quando adulto. O pecíolo das folhas apresenta um prolongamento, similar a espinhos. As folhas são pinadas, arqueadas, com coloração variando entre verde-claro a verde-azulada, dependendo da espécie; quando adultas podem medir entre 2 a 3 metros de comprimento. As inflorescências são protegidas por espatas; a raque floral contém numerosas ráquilas com flores femininas e masculinas; pode atingir até 1 metro de comprimento. Os frutos apresentam coloração predominantemente amarela (quando maduros), mas também pode ocorrer frutos avermelhados e até arroxeados, dependendo da espécie; o formato varia entre ovalado a oblongo; a intensidade de aroma a espessura da polpa, também variam entre as diferentes espécies.

Onde ocorre: O gênero Butia é nativo da América do Sul. No Cerrado, as espécies mais conhecidas são o coquinho-azedo ou coco-cabeçudo (Butia capitata), a palmeira-jataí (Butia purpurascens) e o butiazinho (Butia archeri), o qual já foi assunto deste blog (Link). Na região sul do Brasil os butiás mais comuns são das espécies Butia catarinensis, B. eriospatha, B. odorata e B. paraguayensis.
Planta de Butia eriospatha, mais comum no sul do Brasil.
Usos: O butiá é o fruto comestível (quando maduro) e muito versátil para uso gastronômico. Pode ser consumido in natura e a polpa é matéria-prima para a elaboração de sucos, geleias e doces. A polpa fatiada ou ralada, pode ser utilizada na elaboração de pratos salgados, como recheio para pastéis, tortas ou quiches. Uma das formas de uso mais popular do butiá, é o curtimento dos frutos em aguardente para a elaboração da famosa cachaça de butiá. Também podem ser macerados e adicionados de açúcar, para a fabricação de licor. A amêndoa produz óleo comestível, mas também pode ser consumida in natura, possui sabor suave que lembra uma castanha. Em Goiás e Minas Gerais, são bastante apreciados os picolés e sorvetes de coquinho-azedo, encontrados com facilidade em sorveterias, restaurantes e feiras livres que comercializam produtos do Cerrado. 
     Outro uso bastante expressivo é na ornamentação, tanto em jardins particulares como na arborização urbana, no Brasil e também em outros países do mundo. O formato da copa e a coloração das folhas das palmeiras butiá, conferem um aspecto escultural à planta, característica importante na ornamentação. O emprego destas plantas no paisagismo pode ser tanto na forma de plantios mistos, em composição com outras espécies, como de forma isolada, conforme a criatividade do paisagista.
Bebida (polpa) e cachaça de butiá.
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes e é muito importante efetuar uma limpeza cuidadosa dos coquinhos antes da germinação, com a finalidade de evitar o ataque de fungos e formigas. As sementes germinam entre 60 e 300 dias após o semeio e algumas, dependendo do nível de dormência, podem levar até mais de dois anos para germinarem. A quebra de dormência pode ser feita com uso de tratamento térmico ou reguladores vegetais específicos para esta finalidade. No entanto, para maior comodidade, as mudas podem ser adquiridas, com relativa facilidade, diretamente em viveiros de plantas. O cultivo ornamental é feito em pleno sol, em plantios agrupados ou isolados e preferencialmente em áreas amplas.
     Não é comum encontrar cultivos comerciais destas espécies, no entanto maiores informações acerca do manejo sustentável das mesmas, podem ser obtidas no livro Boas Práticas de Manejo Para o Extrativismo Sustentável do Coquinho-azedo (Lima, 2010). É preciso lembrar que a coleta indiscriminada dos frutos, levou algumas espécies de butiás a serem incluídas na lista de Plantas Brasileiras Ameaçadas de Extinção. Desta forma, a observação das boas práticas, ao se coletar frutos na natureza, é fundamental para que as gerações futuras também tenham a oportunidade de conhecer essa riqueza de sabores.

Frutos de Butia eriospatha. Foto: Jair Longo, SP.
Curiosidades: O butiá tem sido descrito em inúmeros artigos, livros, teses e dissertações acadêmicas, sob variados pontos de vista, mas principalmente porque está enredado na cultura gastronômica de vários povos brasileiros. Em especial no Rio Grande do Sul, encontram-se maciços de plantas conhecidos como Butiazais (sul do Estado), alguns deles coincidem com o traçado de antigas linhas férreas. Um agricultor gaúcho me contava, que este fato não é apenas coincidência, uma vez que os frutos serviam de alimento aos passageiros que durante suas viagens de trem, ao descartar os coquinhos, colaboravam para a disseminação das plantas pela região. Este e outros fatos, podem ser creditados através de achados arqueológico, comprovando que o butiá fez, e faz, parte da história cultural da região há vários séculos.
Frutos de butiá madurinhos.
     Outro relato interessante, consta no trabalho de Rossato e Barbieri (2007), constatando que o butiá era utilizado como fonte de alimento pelos indígenas rio-grandenses, uma vez que podia ser armazenado por um longo período. As folhas eram empregadas no artesanato, fabricação de cestas, chapéus, bolsas, redes, armadilhas para caça e pesca e até na cobertura de cabanas. Índios nômades que habitavam a região das Missões e Planalto Central gaúcho no período de verão, no inverno partiam para o Paraná, na região de Foz do Iguaçu, e levavam consigo frutos de butiá para alimentação. Como muitos jogavam as sementes pelo caminho, a rota que os índios faziam ficou evidenciada pelos palmares remanescentes, plantados aleatoriamente por este processo, chamado de “caminho dos butiás”, hoje transformado na Rota dos Butiazais (link).
Exemplo do uso ornamental do butiazeiro no Jardim Botanico de Curitiba.
Bibliografia recomendada

ARTESANATO GIRUÁ. Receitas com butiá. Disponível em: Link. 2015.

LIMA, V.V.F. Boas Práticas de Manejo Para o Extrativismo Sustentável do Coquinho-azedo. Embrapa. 2010. Disponível em: Link.

MOURA, R.C. et al. Biometria de frutos e sementes de Butia capitata (Mart.) Beccari (Arecaceae), em vegetação natural no Norte de Minas Gerais, Brasil. Biota Neotropica, 10(2), 415-419, 2010.

ROSSATO, M., BARBIERI, R.L. Estudo etnobotânico de palmeiras do Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Agroecologia, 2(1), 2007.
      Recentemente um colega me perguntou sobre a erva-cidreira, mas não nos entendemos porque ele falava de uma coisa e eu de outra. Cidreira é o nome popular de um sem-número de plantas utilizadas na medicina caseira. Em cada região do Brasil vamos encontrar um ou vários tipos diferentes de cidreiras, que embora tenham usos semelhantes, são plantas distintas.
            Tentando esclarecer essa confusão, vou descrever rapidamente as quatro espécies mais utilizadas no Brasil e que chamamos de cidreira: a erva-cidreira (Melissa officinalis), a cidreira-de-arbusto (Lippia alba), o cidrão (Aloysia citriodora) e o capim-cidreira (Cymbopogon citratus). Este último, frequentemente confundido com a citronela (Cymbopogon nardus), planta utilizada como repelente e tóxica se ingerida.
Portanto, pra quem gosta de tomar um chazinho de cidreira vez ou outra, é importante conhecer as diferenças, até para evitar intoxicações. Lembrando sempre que, o uso de plantas medicinais deve ser feito sempre com cautela e sob a orientação de um profissional de saúde.

Erva-cidreira (Melissa officinalis L.)

           Conhecida também como melissa ou erva-melissa, é originária da Europa meridional e o nome melissa, que evoca o mel, é atribuído por suas qualidades como planta melífera. A planta é conhecida e utilizada na cultura mediterrânea a mais de 2000 anos. Conta a história, que os árabes antigos, utilizavam-na como cura para a melancolia e para acalmar crises de mau humor das moças jovens e “mulheres débeis”.

Erva-cidreira (Melissa officinalis). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Erva rasteira, pertencente à família botânica Lamiaceae. Quando adulta pode atingir de 30 a 50 cm de altura. Suas folhas são simples, opostas, ovaladas, com margens crenadas e de cor verde-clara. Os ramos são quadrangulares, ramificados de cor verde ou avermelhada, eretos ou prostrados. Podem ser encontradas plantas de coloração variegada entre amarelo e verde. As flores são pequenas, de cor branca a rosada. Floresce na primavera/verão. Os frutos, são do tipo aquênio, oblongos e pardacentos.
Usos: Na forma de chá como tranquilizante, sedativo, no tratamento da insônia, cólicas, gases, má digestão, analgésico em geral e até mesmo, no controle da pressão alta. Externamente, é aplicado na forma de compressas contra picadas de inseto e herpes. Na culinária pode ser empregada como aromatizante. Também possui aplicações na fabricação de bebidas, cosméticos, aromaterapia e como repelente de insetos.
Aspectos agronômicos: Cresce em touceiras em jardins ou hortas. Deve ser cultivada sob sol pleno ou meia sombra, em solo fértil, bem drenado, enriquecido com matéria orgânica. Prefere regiões de clima subtropical a temperado, não tolera extremos de temperatura. Multiplica-se mais facilmente por divisão das touceiras ou por sementes. O plantio pode ser feito entre setembro a janeiro, direto no campo, efetuando-se irrigações diárias, até o enraizamento. O espaçamento pode ser de 30 x 30 cm, entre linhas e entre plantas.

Cidreira-de-arbusto {Lippia alba (Mill.) N.E.Br. ex P. Wilson}

              Também chamada de alecrim-do-campo, erva-cidreira-de-arbusto ou erva-cidreira-brasileira, por ser nativa da flora do Brasil. Tem sido estudada como matéria prima na produção de óleo essencial rico em linalol, empregado na indústria de cosméticos e aromas.

Cidreira-de-arbusto (Lippia alba). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Verbenaceae, planta de formato irregular, bastante ramificada, com altura entre 2 e 3 metros, quando adulta. Com ramos finos e alongados, quando jovens apresentam formato quadrangular. Folhas pequenas, levemente pubescentes e com margens serrilhadas. Flores pequenas e de coloração rosa-claro, reunidas em pequenas inflorescências nas axilas das folhas. Os frutos são secos, do tipo aquênio, com numerosas sementes.
Usos: Suas folhas, ramos jovens e até as flores são utilizados frescos ou secos, no preparo de chás com efeito sedativo, analgésico geral, ansiolítico, antidepressivo, para tratar males do aparelho digestivo, cólicas e resfriados, principalmente.
Aspectos agronômicos: A planta pode ser encontrada naturalmente nos diversos bioma do Brasil, em solos arenosos pobres em nutrientes. No entanto, cresce com mais vigor em solos enriquecidos com matéria orgânica e com água em boa quantidade. A propagação pode ser feita com facilidade através de estaca de ramos, embora também possa ser feita por sementes. Cresce tanto em condições de sol pleno como meia sombra.

Cidrão (Aloysia citriodora Palau)

       Também conhecida como limonete, erva-luísa,verbena-limão, cidreira ou cidró. A espécie é nativa do Peru, mas também encontrada em outras regiões frias da América do Sul como Uruguai, Argentina, Paraguai e Chile. No Brasil, é encontrada mais facilmente na região Sul do país. Também é conhecida pela sinonímia botânica de Aloysia triphylla.

Cidrão (Aloysia citriodora). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Verbenaceae, arbusto de folhas perenes, com até 3 m de altura, muitos ramos e tortuosos. Folhas simples, com 8 a 12 cm de comprimento, alongadas e estreitas com margens levemente serrilhadas. As flores são pequenas, de coloração predominantemente branca, com sombra lilás, reunidas em panículas na porção terminal dos ramos.
Usos: Culinário, medicinal e ornamental. Suas folhas e ramos jovens são utilizados no preparo chás e como aromatizante culinário para peixes, aves, saldas, refogados e bebidas. Na medicina caseira, o chá é empregado no tratamento de males respiratórios, digestivos e como calmante. Recomenda-se cautela no seu uso, pois diversos relatos informam que o uso prolongado do chá desta planta, pode causar irritação gástrica, depressão e aumento da sonolência, bem como manchas na pele após exposição solar.
Aspectos agronômicos: O cultivo deve ser realizado em condição de sol pleno, em solo fértil, profundo e bem drenado. As regas devem ser frequentes, pois a planta é bastante sensível à falta de água. A espécie prefere climas temperados e a alta luminosidade é condição importante para o acumulo de óleo essencial nas folhas (acumulo de aroma). A propagação é feita por estaquia de ramos, uma vez que nas condições climáticas do Brasil a produção de sementes viáveis é baixa. A estaquia deve ser feita entre a primavera e o verão, depois disso a planta entra em dormência.

Capim-cidreira {Cymbopogon citratus (DC.) Stapf}

       Também conhecida como capim-limão ou capim-santo, é uma espécie originária do sul da India e, atualmente, aclimatada e cultivada em todas as regiões tropicais do mundo.

Capim-cidreira (Cymbopogon citratus). Fotos: J. Camillo.

Descrição botânica: Pertence à família botânica Poaceae/Panicoideae. Planta perene, herbácea, mas que pode atingir até 2 m de altura; caule curto formando touceiras. Folhas alongadas e ásperas em ambas as faces, podendo causar ferimentos na pele se não for manuseada com o devido cuidado. Nas condições climáticas do Brasil, as plantas praticamente não florescem.
Usos: Medicinal, condimentar, aromático, ornamental, entre outros. O chá das folhas é utilizado, principalmente, para o tratamento de males do estomago, calmante e analgésico em geral. Podem ser utilizadas folhas frescas, secas ou óleo essencial, este empregado como aromatizante em perfumaria e cosmética, pelo seu odor característico de limão. As partes jovens da planta possuem sabor adocicado e bastante aromático, muito apreciado na elaboração de pratos culinários, como ingrediente principal ou como condimento. Na região Sul do Brasil é muito utilizada em hortas, jardins e beira de estradas como cerca viva, como ornamental ou sobre terraços nas lavouras, visando a sua manutenção e reforço na contenção da erosão do solo.
Aspectos agronômicos: A planta prefere clima quente e úmido, mas também pode ser cultivada em locais mais frios. Prefere solos bem drenados, leves e com boa fertilidade. A propagação é feita pela divisão de touceira, retirando-se os perfilhos de plantas bem estabelecidas e sadias. A muda deve ser retirada com algumas raízes para facilitar o pegamento. O cultivo pode ser feito em vasos, desde que sejam bastante espaçosos (mínimo 30 cm de diâmetro) para permitir o crescimento do sistema radicular. Como é uma planta rica em óleos essenciais, a colheita das folhas deve ser realizada nas primeiras horas da manhã.

ATENÇÃO: Como já mencionei no início, o capim-cidreira (Cymbopogon citratus) é frequentemente confundido com a citronela (Cymbopogon nardus), pois as semelhanças morfológicas entre as duas espécies são muito grandes. Embora não seja considerada venenosa, a ingestão do chá da citronela não é recomendado pelo risco de irritação das mucosas gástricas. Sendo, inclusive, relatada a ocorrência de intoxicação em animais domésticos, após a ingestão de folhas da planta.

Aqui vão algumas dicas que podem ajudar a evitar confusões:

1)    Porte:  a planta do capim-cidreira é menor e tem folhas mais curtas;
2)    Formato da planta: a imagem acima, mostra claramente que o capim-cidreira forma uma touceira mais cheia e ereta, enquanto que a touceira de citronela tende a se abrir e cair, sendo necessário em alguns casos, efetuar amarrio para evitar o tombamento da planta;
3)  Aroma: esmague levemente as folhas e cheire: o capim-cidreira tem aroma adocicado que lembra o limão; já a citronela tem um aroma mais forte, e até desagradável, que lembra desinfetante industrial, aqueles que se usam nos banheiros.

Referências Bibliográficas

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COUTO, M.E.O. Coleção de plantas medicinais, aromáticas e condimentares. Embrapa Clima Temperado, 2006.
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GILBERT, B.; FERREIRA, J.L.P.; ALVES, L.F. Monografias de plantas medicinais brasileiras e aclimatadas. Curitiba: ABIFITO. 2005.
JANNUZZI, H. et al. Avaliação agronômica e química de dezessete acessos de erva-cidreira [Lippia alba (Mill.) NE Brown]-quimiotipo citral, cultivados no Distrito Federal. Revista Brasileira de Plantas Medicinais13(3), 2011.
JANNUZZI, H. et al. Avaliação agronômica e identificação de quimiotipos de erva cidreira no Distrito Federal. Horticultura Brasileira28, 412-417, 2010.
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PAULUS, D. et al. Vegetative propagation of Aloysia triphylla (L'Hér.) Britton according to IBA and length of cuttings. Revista Brasileira de Plantas Medicinais16(1), 25-31, 2014.
VALMORBIDA, R. et al.  Desenvolvimento e produção de óleo essencial de plantas de Aloysia triphylla em função do espaçamento e horário de colheita. Seminário: Sistemas de Produção Agropecuária-Ciências Agrárias, Animais e Florestais. 2010.

       O oiti é uma planta bastante comum na arborização urbana Brasil afora, mas quase não prestamos atenção nele. No entanto, durante os meses de novembro a janeiro, período de frutificação, nota-se grande quantidade de frutos caídos, deixando o chão amarelinho.
         Foi este fato que chamou a atenção da professora Raquel Santiago, do departamento de Nutrição de Universidade Federal de Goiás, ao observar as ruas de Goiânia - GO. Então, será que esses frutos são comestíveis? Como podemos aproveitá-los? Que árvore é essa afinal?
        Assim, procurando responder em parte essas dúvidas, resolvi iniciar o ano escrevendo sobre esta planta, uma espécie nativa da flora brasileira com muito potencial de uso. E aproveitando, agradeço à Professora Raquel pela cessão de algumas imagens que ilustram esta publicação.       
Na primeira imagem observa-se a folha com
o verso recoberto de pelos e na segunda, frutos
ainda verdes. Fotos: J. Camillo.
Características botânicas: Espécie de porte arbóreo, pertencente à família botânica Chrysobalanaceae, quando adulta pode medir entre 9 a 12 metros, ou mais. Perenifólia. Com tronco ereto, cujo diâmetro pode variar de 30 a 65 cm, e cascas acinzentadas; copa densa e de formato globoso. As folhas são simples, alternas, de formato variando entre elíptico a oblongo e base acuminada; tomentosas (cobertas de pelos), com margens inteiras e nervura central destacada; a coloração varia entre amarelo claro quando jovens a verde escuro quando adultas. A inflorescência é do tipo racemosa, medindo entre 3 a 7 cm de comprimento, com verticilos que contém entre 4 e 5 flores pequenas, de cor creme ou branca. O fruto é uma drupa carnosa, elipsoide, odorífera, de coloração variando entre amarelo e alaranjado quando maduro, medindo entre 6 a 12 cm de comprimento e 3 a 5 cm de diâmetro. A polpa pode ter espessura entre 1 a 2,5 cm, pegajosa, com grande quantidade de fibras e envolve a semente, que corresponde a maior parte do fruto.
            O oiti também é conhecido pelos nomes populares de goiti, goiti-iba, manga-da-praia, milho-cozido, oiti-cagão, oiti-da-praia, oiticica, oitizeiro, entre outros. Também apresenta algumas sinonímias botânicas: Licania tomentosa var. angustifolia (Benth.) Cowan; Moquilea tomentosa Benth.; M. tomentosa var. angustifolia Hook.f.; M. tomentosa var. latifolia Hook.f. e Pleragina odorata Arruda.


Onde ocorre: A espécie é nativa e endêmica da flora brasileira, ou seja, ocorre apenas no
Mapa da distribuição do Oiti (Licania tomentosa) no Brasil.
Fonte: Sothers et al. (2015). Link. 
Brasil. Ocorre nas regiões de Mata Atlântica e também em outras formações florestais, adaptando-se muito bem à regiões com temperatura mais elevada, como o Norte e Nordeste do Brasil.

Usos: O uso mais comum é na arborização urbana, pois sua copa densa proporciona boa sombra o ano todo. Pode ser encontrado com relativa facilidade ornamentando praças, parques, jardins e calçadas em diversos estados do Brasil. Em Goiânia e Brasília é planta bastante comum na arborização de ruas e avenidas, chamando atenção na época da frutificação pelos frutos dispersos no chão. Também pode ser empregada em reflorestamentos, recuperação de áreas degradadas ou como bioindicadora, esta qualidade atribuída à algumas alterações foliares que podem fornecer informações sobre a qualidade do ar em ambientes urbanos.
        O fruto é comestível, bastante odorífero, de sabor adocicado e um pouco adstringente. Alguns relatos informam que o fruto lembra o sabor da manga, mas para mim, a textura mais áspera e seca, lembra milho cozido. Possivelmente, esta também deve ser a razão pela qual a espécie é chamada popularmente de milho-cozido.
     Diversos relatos informam que o fruto deve ser consumido maduro, deixando-se descansar por pelo menos 4 a 5 dias após a colheita. O mais comum é consumi-lo in natura, mas também pode-se efetuar a extração da polpa, que depois será utilizada no preparo de vitaminas, sucos e sorvetes.
        A polpa do fruto maduro tem coloração alaranjada, bastante perfumada e com boa quantidade de amido, o que permite o seu aproveitamento para diversos fins industriais. A polpa desidratada pode ser utilizada como incremento de diversos produtos alimentícios.
Frutos de Oiti quando maduros. No detalhe (esquerda em baixo), o fruto cortado ao meio mostrando uma fina camada de endocarpo que envolve a semente, a polpa amarela e fibrosa. Fotos: Raquel Santiago.

     Estudos fitoquímicos demonstraram que as folhas e os frutos contém taninos, flavonoides, saponinas, alcaloides, esteroides e triterpenoides. Entre estas substancias, destacam-se o licanolide, lupeol, ácidos oleanolico, palmitoleico, hexadecanoico, tormentico, ursólico e betulínico, além de uma mistura de estigmasterol e sitosterol. Os frutos também são ricos em componentes voláteis e as folhas contém lectinas.
     Estudos farmacológicos indicam que a planta apresenta potencial viricida, antibacteriano, antioxidante e a polpa possui efeito laxativo. Outro importante estudo demonstrou, ação antitumoral atribuída a presença de triterpenos nas folhas e frutos e com isso, evidenciando o potencial da espécie para o tratamento da leucemia.

Uso na arborização urbana, a copa globosa e folhas perenes,
conferem boa sombra durante o ano todo.
Foto: J. Camilo.
Aspectos agronômicos: Deve ser cultivada sob sol pleno e apresenta crescimento inicial relativamente rápido. Prefere solo fértil, bem drenado, profundo, enriquecido com matéria orgânica, pH entre 4,8 a 5,9 e irrigado regularmente no primeiro ano de implantação. Não tolera encharcamento por períodos prolongados e depois de completamente estabelecidas, as plantas mostram-se resistentes à estiagem. Desenvolve-se melhor em clima ameno a quente, pois em locais de frio subtropical ou temperado, sofre danos com as geadas e raramente frutifica.
            A propagação pode ser feita por sementes, sendo estas obtidas de frutos maduros, recém colhidos, despolpados e secos à sombra. Não se recomenda o armazenamento das sementes por período maior que 40 dias, no entanto pouco se sabe sobre o assunto e a realização de experimentos é fundamental para avaliar as condições ideais de conservação. As sementes devem ser plantadas individualmente em sacos plásticos próprios para este fim, contendo substrato composto por areia, terra vermelha de barranco e esterco bem curtido na proporção de 30:40:30 (%), respectivamente. A germinação é bastante variável, podendo ocorrer entre 10 a 60 dias após o plantio e as mudas estarão prontas para o plantio definitivo entre 6 a 8 meses após a germinação. Maiores informações sobre plantio e substrato podem ser obtidos em Alves & Passoni (1997).
            Alguns cuidados adicionais devem ser tomados quanto a produção de mudas, pois a espécie é suscetível à ferrugem (Phakopsora tomentosae), conforme descrito por Ferreira et al. (2001).
            A propagação por estaquia também pode ser um método viável e bastante eficiente, uma vez que uniformiza as mudas e permite a seleção de matrizes de alta qualidade para o objetivo desejado. No entanto, o método carece de estudos que demonstrem sua eficiência para esta espécie, bem como a melhor maneira de efetuar a extração dos explantes.
            Quanto aos tratos culturais, as plantas são pouco exigentes em cuidados para sua manutenção. Recomenda-se que o plantio seja realizado em covas com dimensões de 50 cm de largura, profundidade e altura. Deve-se separar uma parte do solo retirado da cova e misturar com esterco curtido, 0,2 kg de calcário e 1 kg de cinzas, deixar curtir por 2 meses antes de efetuar o plantio da muda. Adubações complementares, após o plantio até o 4º ano, podem ser feitas com composto orgânico elaborado a partir de folhas e esterco de gado curtido, na proporção de 1:1, adicionado de 40 gramas de NPK 10-10-10.    Lembrando que a adubação não deve ser feita diretamente no tronco da árvore, mas efetuar a distribuição do adubo em círculos distanciados à 30 cm do tronco e a uma profundidade de 5 a 10 cm.
 
Árvores de Oiti ornamentando as ruas de Sobradinho-DF. Foto: J. Camillo.
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