O pequi é um fruto típico do Cerrado brasileiro e característico da culinária do Centro-Oeste, especialmente do estado de Goiás. Está presente em uma infinidade de pratos e produtos da gastronomia regional, além de contar um pouco da história cultural e colonial do Brasil central. A poetisa brasiliense Hull de La Fuente, no poema Flor do pequi, resume em versos as belezas da nossa planta da vez:

Uma estrela assim formosa
Que nasce aqui no cerrado
Do pequizeiro é a rosa
E seu fruto é afamado.
Esta flor é bem sensível,
Não se pode apertar não
Sua reação é incrível,
Ela murcha e cai ao chão.
O seu fruto é saboroso
Quem o come não esquece.
Sem espinhos é gostoso,
Vem provar, se não conhece.

Descrição botânica: Família Caryocaraceae, porte arbóreo (até 10m de altura) ou, algumas vezes, reduzido e tronco bastante retorcido, conforme o solo da região; o caule é recoberto por uma casca espessa e fendida (adaptação ao fogo); as folhas são trifolioladas, apostas, pilosas, com bordos ondulados e cor verde-escuro; as flores são reunidas em cachos no final dos ramos e cada cacho pode conter entre 2 a 30 botões florais de coloração avermelhada, as flores abertas tem coloração creme, com numerosos e alongados estames; os frutos são do tipo drupa, com 1 a 4 sementes (caroços) recobertas por uma camada de polpa alaranjada, aromática e rica em óleo; as sementes são envoltas por uma densa camada de espinhos, que funciona como proteção contra os predadores.

Onde ocorre: A espécie é nativa da flora do Brasil e ocorre naturalmente em áreas de Cerrado, desde o norte do Paraná até o Tocantins e o Pará. No Centro-Oeste, é possível encontrar cultivos destinados à produção comercial de frutos, embora raros e em pequena escala.

Usos: A planta pode ser utilizada como alimentícia, oleaginosa e ornamental. Os frutos são consumidos cozidos ou simplesmente refogados em azeite e alho. Da polpa alaranjada pode-se preparar conserva, cremes doces e salgados, geleias doces e salgadas, farinha, óleo, licores, molhos e uma infinidade de outras preparações. O prato mais famoso é o arroz com pequi, presença obrigatória no dia-a-dia da boa cozinha goiana. A casca dos frutos também pode ser utilizada para o preparo de farinha e pode substituir parcialmente a farinha de trigo. O óleo pode ser utilizado com condimento, cosmético e medicinal. A castanha (semente) pode ser utilizada para produção de óleo ou ser consumida torrada, da mesma forma que outras castanhas. A conformação retorcida do tronco e dos galhos formam um belo conjunto ornamental, além de ser uma espécie pouco exigente em água e de fácil manutenção.
Produtos preparados a partir da polpa do pequi: o arroz com pequi é o prato mais famoso, mas ainda tem
geleia (doce), licor, polpa em conserva, óleo e o molho de pequi com pimenta.
Dicas: Receitas deliciosas preparadas com pequi podem ser encontradas no livro Alimentação Saudável na Culinária Regional, de autoria da professora Raquel Santiago, da Universidade Federal de Goiás.
Atualmente é possível, sem muito esforço, comprar produtos à base de pequi em diversos supermercados de quase todo o Brasil, inclusive no Sul. Recentemente estive em Florianópolis e encontrei molho de pequi sendo comercializado em supermercados e nos quiosques do Mercado Municipal, o mesmo observei na cidade de Porto Alegre/RS.
 
Quiche de ricota com pequi, a melhor receita com pequi que já provei. O sabor é muito suave, agrada até quem não é muito fã do fruto.
Aspectos agronômicos: A multiplicação pode ser feita por sementes ou por estaquia. Mudas oriundas de semente demoram até 8 anos para iniciar a frutificação, sendo mais recomendável, portanto, o uso de mudas propagadas por estaquia, adquiridas em viveiros especializados. O plantio deve ser feito no início do período chuvoso e o cultivo, feito à pleno sol, em solo bem drenado, leve e adubado, para uma boa produção de frutos. A frutificação ocorre nos meses de dezembro a fevereiro, havendo alguma variação conforme a região do País, sendo possível encontrar plantas frutificadas também entre os meses de março a maio. A espécie pode ser cultivada tanto na forma de plantios puros, como em consorciação com outras culturas.
 
Uso do pequi como planta ornamental.
Cuidado: A melhor forma de comer pequi é literalmente “roer o caroço” e nunca, já mais, morder para tirar pedaço. Por isso recomenda-se muita cautela a quem for experimentar pequi pela primeira vez. Ao morder o caroço expõe-se os espinhos que recobrem as sementes e que poderão causar extremo desconforto por ficarem aderidos à mucosa bucal, podendo, inclusive, causar lesões mais graves se não forem removidos rapidamente e de forma correta.



Referências bibliográficas complementares
AGEITEC – Agencia Embrapa de Informação Tecnológica. Pequi. 2016. Link
CAMARGO, M.P. et al. A cultura do pequi (Caryocar brasiliense Camb.) na recuperação de áreas degradas e como alternativa para a produção de biodiesel no Brasil. Journal of Agronomic Sciences, v.3, n. especial, p.180-192, 2014.
CARYOCARACEAE in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 2016. Disponível em: <Link>.
EMATER-MG. A cultura do pequi. 2016. Link

OLIVEIRA, W.L.; SCARIOT, A. Boas práticas de manejo para o extrativismo sustentável do pequi. Brasília: Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, 2010. 84 p. Link

O lírio-do-brejo é uma planta muito utilizada em paisagismo e ornamentação de jardins, principalmente, associada a áreas com presença de água (lagos, riachos ou cascatas). As flores possuem um perfume suave, que lembra os lírios-do-campo. É popularmente conhecida como gengibre-branco, borboleta, borboleta-amarela, cardamomo-da-praia, cardamomo-do-mato, escalda-mão, flor-de-lis, jasmim, jasmim-borboleta, jasmim-do-brejo, lágrima-de-moça, lágrima-de-napoleão, lágrima-de-vênus, lírio-branco, napoleão, narciso, olímpia, entre outros nomes conforme a Região.

Descrição botânica: Planta da família Zingiberaceae, perene, herbácea rizomatosa, com crescimento bastante vigoroso formando grandes touceiras, medindo entre 1 a 2m de altura; caule ereto e avermelhado na base, enfolhado; as folhas têm formato lanceolado, com ápice acuminado e base angustiada, medindo entre 25-40cm de comprimento por 5-6cm de largura; as flores são reunidas em inflorescências tipo espiga, cada flor é formada por quatro brácteas oblongas, planas e de coloração branca (pode ocorrer uma variedade com flores rosadas); os frutos são tipo baga, deiscentes, de formato elíptico, inicialmente verdes, passando a alaranjado conforme avança a maturação, medem entre 2 a 3cm de comprimento por 1,0 a 1,5cm de largura e contém, em seu interior, numerosas sementes envoltas em mucilagem vermelha; as sementes são ovaladas e avermelhadas. No Brasil, o lírio-do-brejo floresce o ano todo, porém, com maior intensidade nos meses de verão.



Onde ocorre: A espécie é nativa da Ásia tropical. No Brasil a espécie é considerada naturalizada, devido à sua grande capacidade de adaptação às diferentes condições climáticas das Regiões e pode ser encontrada em, praticamente, todos os estados da Federação. Possui ampla dispersão pelo mundo, sendo encontrada facilmente nos diversos países de clima tropical.

Usos: A folhagem verde brilhante e as flores brancas formam um conjunto bastante ornamental, sendo esta a principal utilidade da espécie no Brasil. Também possui propriedades medicinais e o aroma de suas flores podem ser utilizados em aromaterapia ou na extração de essências para perfumaria. Os rizomas podem ser fonte de fibras para a fabricação de artesanato ou para a extração de fécula utilizada na alimentação humana.



Aspectos agronômicos: A propagação é feita por divisão de touceiras. É planta palustre, ou seja, seu cultivo deve ser feito em áreas brejosas ou bastante úmidas, porém, o crescimento ocorre acima da lamina de água. O solo deve ser rico em matéria orgânica. Embora cresça a pleno sol, prefere locais de sombra ou meia-sombra.

Cuidados: O lírio-do-brejo possui alto potencial invasivo e é considerado uma espécie exótica invasora no Brasil. Portanto seu uso deve ser muito bem planejado dentro do projeto paisagístico, a fim de evitar a invasão de áreas não desejadas no jardim, ou mesmo, de cursos d’água próximos. Em alguns locais é necessário efetuar, com frequência, podas de contenção. Devido ao seu crescimento bastante agressivo, a presença de densas populações de lírio-do-brejo pode comprometer a existência de outras espécies da flora nativa local, recomendando-se, portanto, bastante cautela no manejo desta espécie. As espécies exóticas invasoras são uma grande ameaça à biodiversidade dos biomas brasileiros.


** As imagens são do Parque Municipal de Itiquira, Formosa-GO Link.

Referências bibliográficas

FLORA SBS. Hedychium coronarium - Lírio-do-brejo. Disponível em Link. Acesso em 12 mar 2016.

SILVA, D.T.L. Caracterização de invasão da espécie exótica lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) em área de mata ciliar no município de Joanópolis/SP. Enciclopédia Biosfera, Centro Científico Conhecer - Goiânia, 7(12), 1-17, 2011.


Zingiberaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 12 Mar. 2016.

O Cerrado é muito rico em tipos de maracujás: tem plantas de flores brancas, roxas, vermelhas, algumas com frutos azedos e outros deliciosamente doces. Dia desses, entre uma andança e outra, me deparei com essa planta, que considero uma das flores mais lindas dentre os diversos tipos de maracujás.
A espécie é conhecida por diversos nomes, conforme a região do Brasil: passionária, maracujá-azul, maracujá-verde, maracujá-do-campo, maracujá-da-serra, maracujá-de-cobra ou maracujazinho-do-mato.

Descrição botânica: Plantas trepadeiras herbáceas, glabras ou pubescentes, com caules cilíndricos, estriados, verdes. As folhas são 3-lobadas, com lobos alongados e margem inteira, face adaxial lustrosa, nervação reticulada, pecíolo cilíndrico e gavinhas axilares. As flores são solitárias, de coloração lilás-claro, com os filamentos longos da corona violeta-claro a violeta-escuro e filamentos curtos violeta-escuro. Os frutos têm formato elipsoides, coloração verde-clara e medem até 6cm de comprimento. As sementes são ovaladas, marrons, com arilo mucilaginoso e transparente. É uma das espécies com maior variabilidade genética dentre o gênero Passiflora. É uma planta predominantemente alógama e polinizada por abelhas, principalmente, aquelas dos gêneros Xylocopa, Centris e Eulaema. Floresce intensamente entre os meses de fevereiro a março e, em menor abundancia, de julho a novembro, conforme a região e o clima predominante.


Onde ocorre: A espécie é nativa, mas não endêmica do Brasil. Pode ser encontrada em todos os biomas, entretanto, parece ser mais abundante nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, nas matas ciliares e matas de galeria, desde o Rio Grande do Sul até o Mato Grosso e Bahia. A planta pode ser vista, com facilidade, em matas recentemente atingidas pelo fogo, como uma espécie predominante na vegetação em recomposição.

Usos: A planta, embora pouco conhecida para a maioria da população, pode ser utilizada como ornamental pela beleza da folhagem e floração vistosa. As sépalas e pétalas apresentam coloração lápis-lazúli e corona com filamentos externos de cor roxo-escuro. Os frutos podem ser consumidos in natura, pois possuem polpa muito saborosa. Também podem ser consumidos na forma de sucos e geleias, da mesma forma que o maracujá convencional.

Aspectos agronômicos: Não existe informações acerca do cultivo desta espécie. Sabe-se, por meio de observações, que a planta prefere locais úmidos, nas margens de córregos e lagos. A propagação é feita por meio de sementes e, assim como outros maracujás, necessita estrutura de tutoramento para o seu crescimento.

Referências bibliográficas

      AUKAR, A.P.A. et al. Genetic variations among passion fruit species using rapd markers. Revista Brasileira de Fruticultura, 24(3), 738-740, 2002.
    BRAGA, M.F.; JUNQUEIRA, N.T.V. Uso potencial de outras espécies do gênero Passiflora. Informe Agropecuário, 21 (206), 72-75, 2000.
       FLORA RS. Flora digital do Rio Grande do Sul. Passiflora amethystina J.C. Mikan – maracujá-azul. Disponível em: Link. 2016.
     FLORA SBS. Passiflora amethystina - Maracujá-verde. Disponível em: Link. 2016.
     Passiflora in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: Link. Acesso em: 25 Fev. 2016.
       KOSCHNITZKE, C.; SAZIMA, M. Biologia floral de cinco espécies de Passiflora L. (Passifloraceae) em mata semidecídua. Brazilian Journal of Botany, 20(2), 119-126, 1997.
 
 
          Uma das coisas que mais gosto é escrever sobre temas que lembram minha infância, e o hibisco é uma delas. É uma flor linda e me encanto até hoje cada vez que descubro um hibisco diferente. Tenho coleção de fotos de hibiscos de todas as partes do Brasil e preparei uma pequena amostra para quem, como eu, também admira essa planta maravilhosa.
          A espécie é cultivada no mundo todo e recebe dezenas de nomes diferentes: china-rose, china-rose-plant, dasani, gudhal, gurhal, jaba, joba, mandaar, sadaphool, senicikobia, japaphool, japa, japakusam, jasum, jasunt, jaswand, jia pushpa, kante, mandasa, sambathoo chedi, senitoa yaloyalo. No Brasil é conhecida pelos nomes de mimo-chinês, rosa-da-china, brinco-de-princesa, mimo-de-vênus, papoula-hibisco ou graxa-de-estudante. O hibisco é a flor símbolo do Havaí e é considerada a flor nacional da Malásia desde 1960.

Descrição da planta: Da família botânica Malvaceae, porte variando entre 2 a 4 metros de altura, crescimento ereto e bastante ramificada; as folhas são simples, alternadas, pecioladas, de coloração verde-escuro, formato ovalado, margens dentadas, base acuminada e tamanho variando entre 4 a 9 cm de comprimento. As flores são solitárias, saindo das axilas das folhas na porção terminal dos galhos, com pedúnculo de 1 a 5cm de comprimento; cada flor simples contém cinco pétalas de formato ovalado e margem lisa ou irregular (conferindo um aspecto rendo às flores); em geral, o miolo das flores possui colorações distintas: o fundo é geralmente vermelho ou bordô e contornado, em algumas variedades, por outro alo esbranquiçado; do centro da flor emerge uma longa coluna com numerosos estames concentrados na porção terminal, a maioria estéril, especialmente nas variedades hibridas. É possível encontrar plantas com flores simples ou dobradas.

Onde ocorre: A espécie é nativa do sudoeste asiático onde ocorre de forma espontânea na vegetação da região. É uma das plantas ornamentais mais cultivadas por todo o mundo, especialmente nos países de clima tropical e subtropical, a exemplo do Brasil. Alguns relatos dão conta que a espécie foi trazida para o Brasil por escravos africanos, ainda no século XVII.

Usos: Como planta ornamental pode ser cultivada em jardins na formação de cerca-viva, renques, composições com outras espécies, planta isolada ou como planta de vaso. Também é bastante utilizada para a confecção de bonsai. Produz grande quantidade de flores o ano todo, atraindo diversos polinizadores ao jardim. As folhas podem ser fonte para obtenção de corante, cascas e ramos podem fornecer fibra para a confecção de artesanato.

As flores do hibisco são comestíveis, com sabor levemente ácido, são muito versáteis na cozinha e podem ser utilizadas na composição de saladas e guarnições, além de ser uma excelente opção na decoração de pratos variados. As folhas jovens também podem ser consumidas refogadas ou na forma de salada. As flores podem ser utilizadas na produção de geleia, chutney, patês e cremes doces ou salgados.

Folhas jovens e flores também são a matéria-prima do chá de hibisco, apreciado no mundo todo. O chá é rico em flavonoides de ação antioxidante, além de conter diversos tipos de fitosteróis, que são aliados no controle do colesterol. No entanto, estudos demonstraram que o chá possui ação contraceptiva e abortiva, não devendo, portanto, ser ingerido em grande quantidade por gestantes ou mulheres que desejam engravidar. 
Outras espécies do gênero Hibiscus são cultivadas no Brasil e fazem parte da história e cultura gastronômica do Brasil, a exemplo do Hibiscus sabdariffa e H. acetosella, ambas conhecidas como vinagreira e que já foram assunto aqui neste blog (Link).

Aspectos agronômicos: A propagação do hibisco se dá por via vegetativa, por meio de estaquia de ramos herbáceos, alporquia ou mergulhia. As mudas também podem ser adquiridas em viveiristas especializados. O plantio das mudas é feito em covas, com solo adubado, rico em matéria orgânica, leve e bem drenado. As regas devem ser frequentes até o completo estabelecimento da muda, posteriormente, poderão ser mais espaçadas ou até dispensadas, naquelas regiões onde a chuva é bem distribuída ao longo do ano. A espécie, embora seja cultivada em regiões frias, prefere climas mais quentes e não tolera geadas fortes.

Para o cultivo, estão disponíveis no mercado brasileiro diversos híbridos e variedades com diferentes tamanhos, cores e formato de flores, podendo sem de flores simples ou dobradas. A espécie adapta-se muito bem aos diversos tipos de clima e solo brasileiros e demanda poucos cuidados para sua manutenção como planta ornamental. No entanto, como todo arbusto de jardim, recomenda-se efetuar podas periódicas para estimular a brotação, eliminar ramos mortos ou doentes e, se desejado, manter a planta com um formato específico.
 

 
Referências bibliográficas

ESTEVES, G.L. et al. Sinopse de Hibiscus L. (Malvoideae, Malvaceae) do Estado de São Paulo, Brasil: espécies nativas e cultivadas ornamentais. Hoehnea, 41(4), 529-539, 2014.
KUMAR, A.; SINGH, A. Review on Hibiscus rosa-sinensis. International Journal of Research in Pharmaceutical and Biomedical Sciences, 3(2), 534-538, 2012.
LIM, T.K. Edible medicinal and non-medicinal plants - Flowers. Vol. 8 Springerlink. 2014.
ROSS, I.A. Hibiscus rosa-sinensis. In: Medicinal Plants of the World. Humana Press, 2003. p. 253-266.

Quando lhe disserem que alguém ou alguma coisa é “bonita feito flor de jambo” pode acreditar, por que é bonita mesmo! A flor e os frutos do jambeiro só podem ser vistos quando se observa o interior da planta. Mas a visão é um espetáculo da natureza. No período da floração, as flores caem formando um tapete rosa na base da planta, convidando a todos que passam por perto, para conferir a beleza da florada.
O jambo ou jambo-da-índia, como a planta é conhecida no Brasil, é também chamado em inglês de moutain-apple, malay-apple, malay-rose-apple, malacca-apple ou pomerac. Em espanhol e conhecido pelos nomes de pomagás ou pomalaca. No Brasil, esta espécie também é chamada de jambo-vermelho, pois existem outras espécies do mesmo gênero (Syzygium) que produzem frutos de cores diferentes (amarelo-claro e roxo) e também são conhecidas popularmente como jambo.
 
Bonita feito flor de jambo. 
Descrição botânica: Pertence à família Myrtaceae. Árvore perene, de copa densa e formato piramidal, medindo entre 7 a 13 metros de altura (eventualmente até 20m); as folhas são simples, com pecíolos curtos, de cor verde-escuro brilhante e textura lisa na parte superior, medindo entre 15 a 30cm de comprimento; as flores são compostas por numerosos estames de cor rosa-magenta, reunidas em uma estrutura denominada cimeira, curta, diretamente sobre os ramos, na porção interna da planta; os frutos tem o formato piriforme, textura lisa, coloração vermelho brilhante (quando maduros) e polpa branca com sabor levemente ácido. Em geral, a floração ocorre entre agosto e fevereiro e a frutificação (colheita) nos meses de janeiro a maio. Nas regiões Norte e Centro-Oeste, pode ocorrer mais de um período de frutificação anual.

Jambeiro ornamental, Sobradinho-DF.
Onde ocorre: O jambo é nativo, provavelmente, da Papua Nova Guiné e Austrália, mas ocorre naturalmente na Malásia e demais países do sudoeste do Pacífico. A espécie foi trazida para o Brasil onde adaptou-se muito bem e, atualmente, pode ser encontrada com facilidade em todas as Regiões do País, sobretudo, em climas mais quentes. O jambeiro não é tolerante ao frio.

Usos: No Brasil a planta é mais utilizada com finalidade ornamental, na arborização urbana, em parques e jardins. A copa piramidal e a beleza da folhagem, por si só, formam um conjunto bastante ornamental e conferem sombra, leveza e beleza ao jardim. Apesar das flores serem belíssimas para decoração, tem durabilidade muito curta.
A espécie também é cultivada para produção de frutos, que são comestíveis e bastante versáteis para uso culinário. Quando bem maduros, podem ser consumidos in natura, quando maduros “de vez” podem ser utilizados para a produção de doces em calda (fruto inteiro ou fatiado) e passa (fruto desidratado). A utilização culinária dos frutos vai até onde alcança a criatividade do cheff: mousses, cremes, flans, coquetéis, saladas salgadas, salada de frutas, bolos, recheios, decoração de pratos diversos, entre outros. As flores também podem ser utilizadas no preparo de saladas, mousses e na decoração de pratos.
Doce de jambo em calda: a cor vermelha é natural, sem adição de
corante.
Frutos e folhas possuem propriedades antioxidantes e são ricos em óleos essenciais que podem ser utilizados como fonte de aromas para alimentos e cosméticos; os frutos podem ser fonte de corante para uso alimentar e possuem, ainda, outras propriedades medicinais: antiespasmódica, antiviral, antimicrobiana, anti-inflamatória e moluscicida.
           
O jambeiro em plena época de frutificação, Universidade de Brasilia - DF.
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes ou por meio de estacas de ramos herbáceos. A planta prefere climas mais quentes, solo leve e bem drenado. Não existem cultivos comerciais em larga escala no Brasil, mas alguns estudos mencionam que a espécie pode ser cultivada em espaçamento de 5x5 metros. A colheita inicia-se aproximadamente aos 5 anos após o plantio.
            Alguns autores citam que o jambo não exige grandes cuidados para seu cultivo. Porém, é bom ressaltar que se o objetivo é a produção de frutos, o jambeiro necessita sim de adubação equilibrada, bem como, solo rico em matéria orgânica, regas frequentes, cuidados fitossanitários (mosca-das-frutas) e todos os tratos culturais aplicados às espécies frutíferas convencionais.
Formação inicial dos frutos: inicialmente tem coloração verde-clara e depois passam ao vermelho-brilhante conforme avança a maturação.

Referências bibliográficas
ALMEIDA, E.J. et al. Propagação de jambeiro Vermelho (Syzygium malaccense L.) por estaquia de ramos herbáceos. Bioscience Journal, 24(1), 39-45, 2008.
MELO, R.R. et al. Características farmacobotânicas, químicas e biológicas de Syzygium malaccense (l.) Merr. & l. M. Perry. Revis Brasileira de Farmacognosia, 90(4), 298-302, 2009.
KINUPP, V.F.; LORENZI, H. Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil. São Paulo: Ed. Plantarum. 2014.
TUIWAWA, S.H. et al. The genus Syzygium (Myrtaceae) in Vanuatu. Blumea-Biodiversity, Evolution and Biogeography of Plants, 58(1), 53-67, 2013.

O caiaué, ou dendê-americano, é uma palmeira nativa da Amazônia cujo óleo contém elevadas quantidades de betacaroteno (precursor da vitamina A) e vitamina E. Além disso, é rico em ácidos graxos insaturados, principalmente, ácido oleico (48-53%). Mas não é apenas pela qualidade do óleo e uso econômico que o caiaué chama a atenção: na verdade, trata-se de uma palmeira que anda!

Descrição botânica: Palmeira da família Arecaceae, possui tronco tipo estipe, cilíndrico, maciço (crescimento anual 5-10cm) e com altura máxima de 5m; os folíolos são dispostos em um mesmo plano sobre a raque, conferindo aspecto crespo às folhas, cujo comprimento pode chegar a 7,4m. É uma planta monoica, e tanto inflorescências masculinas quanto femininas encontram-se envoltas por duas espatas externas que se rompem expondo a raque floral; a raque feminina mede entre 15 a 20cm  e a masculina de 10 a 15 cm de comprimento. O fruto é uma drupa, de formato alongado e coloração, inicialmente, castanho escura, passando para alaranjado (claro) conforme avança a maturação; os frutos pesam entre 1,7 e 13,0g e os cachos podem pesar entre 8 e 12kg. O número de frutos por cacho pode chegar a 5000.

Onde ocorre: Palmeira nativa da Região Amazônica, ocorre naturalmente no Brasil apenas no estado do Amazonas. Entretanto, pode ser encontrada em toda zona tropical da América Latina, desde o Peru até o Sul do México. Em geral, as plantas ocorrem sobre terras férteis nas margens dos rios, conhecidas no Amazônia como “terras pretas de índio”. A ocorrência de maiores ou menores populações de caiaué, parece estar relacionada à ocupação humana da Amazônia ao longo da sua história.


Banco de germoplasma de caiaué mantido pela Embrapa no estado do
Amazonas.
Usos: Palmeira oleaginosa. Da mesma forma que o dendê-africano, o caiaué produz dois tipos de óleo: o óleo da polpa dos frutos (azeite) e o óleo das amêndoas ou óleo de palmiste. A polpa contém entre 28 a 47% de óleo e as amêndoas entre 10 a 24%. O óleo da polpa apresenta coloração alaranjada e é mais fluido à temperatura ambiente, quando comparado ao azeite de dendê. Esta característica é atribuída ao menor percentual de gordura saturada presente no óleo dos frutos do caiaué.
O caiaué é menos produtivo que o dendê-africano, porém, não menos importante, uma vez que representa uma fonte vital de genes para o melhoramento genético daquela cultura. A dendeicultura (cultivo do dendê-africano) esteve comprometida no Continente Americano na década de 1990 pela incidência do Amarelecimento Fatal (AF), uma doença muito severa e para a qual não haviam medidas de controle eficientes. Foi então que começaram as pesquisas com o caiaué, pois os cientistas observaram que as plantas não eram afetadas pelo AF. O cruzamento com o dendê-africano resultou plantas híbridas resistentes ao AF, com porte reduzido (facilita a colheita) e com excelente qualidade de óleo. Atualmente, o caiaué é empregado em programas de melhoramento genético do dendê-africano em diversos países, alguns dos quais, também cultivam caiaué para a produção de suplementos alimentares e cápsulas de vitamina A.
Cultivo de híbridos entre caiaué x dendê-africano (OxG) no estado do Amazonas.
Aspectos agronômicos: O caiaué não é cultivado comercialmente no Brasil. Os pequenos cultivos (coleções) existentes destinam-se unicamente à pesquisa científica. A propagação é feita por sementes e, como a maioria das palmeiras, exige cuidados na colheita e armazenagem dos frutos, bem como tratamentos especiais para superar a dormência. O cultivo deve ser feito em solo rico em matéria orgânica, úmido e com boa drenagem. O plantio pode ser feito a pleno sol ou a meia sombra, com bom espaçamento entre plantas (8 – 10m).

Curiosidade: Por volta dos 15 anos de idade, o estipe (caule) tomba sobre o solo, mantendo a coroa foliar voltada para cima, num fenômeno denominado de procumbência. Abaixo da coroa foliar surgem novas raízes, enquanto o caule antigo vai se decompondo lentamente e cedendo lugar ao novo caule, que cresce normalmente. Este comportamento deu origem ao nome da planta, caiaué, que na língua dos povos indígenas significa “planta que anda”. O detalhe mais interessante é que todas as plantas tombam para o mesmo lado.

Planta tombada (procumbente), fenômeno que deu origem ao nome caiaué ou, na língua indígena, "palmeira que anda".

Caiaué plantado no Jardim do Museu Paraense Emilio Goeldi - em Belém/PA - como homenagem ao pesquisador Samuel Soares de Almeida, falecido em 2011, e que dedicou boa parte da sua vida à pesquisa da Flora Amazônica.

Referência bibliográfica
CAMILLO, J. Diversidade genética, conservação in vitro de germoplasma e analise do conteúdo de DNA nuclear em palma de óleo {Elaeis guineensis Jacq. e Elaeis oleifera (Kunth) Cortés}. Tese de doutorado – Universidade de Brasília/Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, 2012. 137 p.: il. Link

       Quem vai passar férias na Bahia não pode deixar de experimentar a moqueca, o acarajé, o vatapá e uma porção de outras iguarias preparadas com azeite-de-dendê. Então vamos conhecer o dendê, palmeira que embora não seja nativa da flora brasileira, está intimamente ligada à história e a cultura do Brasil. A denominação genérica dendê é exclusivamente brasileira, em outros países a planta é mais conhecida como palma de óleo ou, em inglês, oil palm.
           As primeiras plantas de dendê foram trazidas para o Brasil pelos escravos africanos. Os primeiros cultivos (fundo de quintal), segundo relatos históricos, foram realizados nos estados da Bahia e Rio de Janeiro, próximos aos locais onde chegavam as embarcações trazendo os escravos vindos do Continente Africano. Atualmente, na costa sul do estado da Bahia, a planta está por toda parte integrando-se perfeitamente à bela paisagem regional.
Dendezais espontâneos (não cultivado) observados na região Sul da Bahia.

            Apesar de estar ligado a uma das partes mais cruéis da história do Brasil, o dendê é  um dos maiores símbolos da integração entre os povos do Brasil e da África, cuja influência pode ser notada nos diversos aspectos que compõe a sociedade brasileira atual, sobretudo, nas festas populares e na cultura alimentar.
           
Dendê-africano (Elaeis guineensis Jacq.)
Descrição botânica: Pertence à família Arecaceae e pode atingir até 15m de altura. Possui sistema radicular fasciculado, caule tipo estipe, não ramificado, coroado por um tufo de folhas na extremidade; as folhas, em número de 30-45, medem entre 5 a 9m e pesam até 8kg; o pecíolo mede cerca de 1,5m; os folíolos podem variar em número (250 a 350); a coloração da folhagem é verde-escuro e cada folha pode ficar aderida à planta-mãe por até 12 anos. Os frutos são arredondados, reunidos em cachos que podem pesar mais de 20kg; possuem inicialmente coloração preta, passando a alaranjado/avermelhado conforme avança a maturação; os frutos apresentam grande variedade de formas e tamanhos, sendo compostos basicamente pela polpa (alaranjada), endocarpo rígido e amêndoas (entre 1 a 4/fruto). Os diferentes tipos de frutos identificam três variedades (tipos) nesta espécie: dura, pisifera e tenera.
            No Brasil existem duas espécies do gênero Elaeis: o Elaeis guineensis (dendê-africano) e o Elaeis oleifera (dendê-americano), esta última assunto do próximo post deste blog.
 
Cachos e frutos maduros de dendê. Da polpa alaranjada extrai-se o azeite de dendê e das amêndoas, obtêm-se o óleo de palmiste.
Usos: Extração de óleo e ornamentação. No Brasil, o azeite de dendê é uma iguaria da culinária regional, integrando diversos pratos da culinária bahiana (caruru, vatapá, acarajé, bobó-de-camarão, abará, entre outros). Consumido in natura, o óleo é uma boa fonte de vitamina A e ácido oleico. O óleo também tem importância religiosa, utilizado em rituais do candomblé. A conformação arredondada da copa e a bela folhagem, torna a planta propicia também para a ornamentação urbana em áreas amplas.
Azeite de dendê.
  A planta é uma das oleaginosas mais importantes do mundo e fornece dois tipos de óleo muito presentes no nosso dia-a-dia: a polpa dos frutos fornece o óleo de coloração alaranjada - que no Brasil é chamado de azeite de dendê - mas é mais conhecido mundialmente como óleo de palma (palm oil). Das amêndoas se extrai um óleo mais refinado de cor amarelo clara, amplamente empregado na indústria farmacêutica, cosmética e de produtos de higiene e limpeza: o óleo de palmiste (palm kernel oil). O óleo de palma passa pelo mesmo processo de refino aplicado ao óleo de soja e, posteriormente, pode ser utilizado como óleo de mesa. Este uso não é muito comum no Brasil, mas é largamente utilizado na maioria dos países africanos, além da Malásia e Indonésia, maiores produtores mundiais na atualidade.
            No Brasil, a forma de produção do óleo determina produtos e usos diferenciados: o azeite de dendê encontrado nas feiras e mercados (de coloração alaranjada), é extraído de forma totalmente artesanal e é utilizado com fins alimentícios e ritualístico. Já o óleo de palma e o óleo de palmiste são produtos dos cultivos comerciais, passam por diferentes formas de processamento (refino) e são utilizados em escala industrial. Embora as denominações genéricas sugiram coisas diferentes, todos os óleos tem origem na mesma palmeira: o dendezeiro.
           
Diferentes formatos de frutos identificados no
dendê-africano cultivado no Brasil.



Aspectos agronômicos: A propagação é feita por meio de sementes, uma vez que a palmeira não perfilha (não produz brotações). No entanto, é recomendável adquirir sementes pré-germinadas ou comprar as mudas de viveiristas especializados, pois as sementes possuem dormência e o tratamento para facilitar a germinação é um tanto complicado. O cultivo é feito em solo leve, bem drenado e fértil. A palmeira exige chuvas abundantes e bem distribuídas ao longo do ano, temperaturas médias acima de 24°C e umidade do ar acima de 70%, condições que limitam o cultivo comercial do dendezeiro, apenas ao Sul da Bahia e Região Norte do Brasil. No entanto, a palmeira vegeta em diferentes climas, sendo cultivada como planta ornamental também em outras regiões do Brasil.
             




Viveiro de mudas de dendezeiro mantido pela Embrapa Amazônia Ocidental, Rio Preto da Eva-AM.

Curiosidades: O cultivo do dendezeiro expandiu-se pelo Brasil na última década, principalmente, como matéria-prima para a produção do biodiesel. Além disso, seu cultivo tem sido difundido como alternativa de desenvolvimento socioeconômico regional e como forma de recuperação e aproveitamento de áreas degradadas da região amazônica. As pesquisas e cultivos comerciais do dendezeiro no Brasil, foram iniciadas pela Embrapa na década de 1970, cujo trabalho, culminou com a formação de um dos maiores bancos de germoplasma da cultura no mundo, estabelecido no município de Rio Preto da Eva-AM. Atualmente, os cultivos comerciais estão concentrados no estado do Pará, que é o maior produtor nacional.
 
Bancos de germoplasma de dendê mantidos pela Embrapa. A) Banco de germoplasma da Embrapa Amazônia Ocidental, Rio Preto da Eva - AM; B) Coleção de trabalho da Embrapa Cerrados, Planaltina - DF. 
            Independente de discussões ideológicas e ambientais (muitas das quais participo e exponho minhas convicções), o fato é que o dendezeiro fez parte da história e da construção da identidade cultural brasileira. É uma planta belíssima e muito versátil, que aos poucos torna-se uma fonte de renda importante para a agricultura nacional.  Então, parafraseando uma matéria da Embrapa Agroenergia: Palmas para o dendê!


Referência bibliográfica
CAMILLO, J. Diversidade genética, conservação in vitro de germoplasma e analise do conteúdo de DNA nuclear em palma de óleo {Elaeis guineensis Jacq. e Elaeis oleifera (Kunth) Cortés}. Tese de doutorado – Universidade de Brasília/Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, 2012. 137 p.: il. Link
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