Ontem, fazendo minha caminhada ao final da tarde, tive a grata satisfação de encontrar uma planta que me lembrou muita coisa da minha infância: a uvaia. O nome deriva da denominação indígena iwa’ya, que significa fruto ácido.

Uvaieira. A planta possui poucos frutos, pois estamos na época de seca no Cerrado e
a falta de água implica pouca floração e baixa produção de frutos.
Descrição botânica: A uvaieira é uma planta da família Myrtaceae, com porte variando entre pequenos arbustos a árvores de 12 a 13 metros de altura. As folhas são simples, opostas, estreitas e alongadas; os frutos são arredondados, com uma casca fina e textura aveludada, a cor varia entre verde e o amarelo, conforme avança a maturação. A floração ocorre entre os meses de agosto a novembro e a maturação dos frutos inicia-se em outubro.


Onde ocorre: A uvaia é planta nativa e típica do sul do Brasil, mas também ocorre naturalmente nos estados da região Sudeste, além do Mato Grosso do Sul, Goiás, Sergipe e Ceará, nos biomas Mata Atlântica e Cerrado.
 
Fruto no inicio da maturação. Quando maduros tem coloração amarelo-forte.
Usos: Os frutos são comestíveis, tem um sabor levemente ácido e aroma suave, quando bem maduros. A polpa dos frutos pode ser utilizada no preparo de geleias, sucos, licores, vinhos, vinagres, sorvetes e iogurtes. Os frutos contém grande quantidade de vitamina C sendo, por isso, considerada uma ótima fonte de antioxidantes.
            Os frutos, folhas e ramos, por serem bastante aromáticos, podem ser utilizados como fonte de óleos essenciais para a cosmética e perfumaria. A planta pode ser recomendada para plantios na recuperação de áreas degradadas, como componente em sistemas agroflorestais ou agrossilvipastoris, na arborização urbana e na ornamentação.
 
Suco de uvaia vendido em Feiras livres no Rio Grande do Sul.
Aspectos agronômicos: A planta é multiplicada por sementes, que podem ser germinadas em bandejas ou sementeiras, contendo areia como substrato. O substrato tem que ser mantido sempre úmido para permitir boa germinação. É possível se obter mais de uma muda através do fracionamento da sementes. Estudos tem demonstrado que é possível também, fazer a propagação in vitro, através de microestacas caulinares.
            O cultivo deve ser feito à pleno sol, em solo fértil e bem drenado. As regas devem ser frequentes até o estabelecimento das mudas, e são fundamentais para que haja floração e boa produção de frutos. O plantio comercial pode ser efetuado em espaçamento 5 x 2 metros. As plantas crescem rápido e não necessitam muitos cuidados para sua manutenção.

Referências bibliográficas
DE MEDEIROS, L.F. et al. Diferentes substratos na produção de mudas de uvaieira (Eugenia pyriformis Cambess.). Revista Verde de Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável, 5(2), 2010.
NASCIMENTO, A.C. et al. Micropropagação de uvaieira (Eugenia pyriformis Cambess): efeitos do BAP e AIB. Revista Verde, Mossoró, 3(2), 20-26, 2008.
SILVA, C.V. et al. Fracionamento e germinação de sementes de uvaia (Eugenia pyriformis Cambess.) Myrtaceae. Revista Brasileira de Sementes, 27(1), 86-92, 2005.
SOBRAL, M.; PROENÇA, C.; SOUZA, M.; MAZINE, F.; LUCAS, E. Myrtaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/jabot/floradobrasil/FB10517>. Acesso em: 20 Out. 2015.

STIEVEN, A.C. et al. Óleos essenciais de uvaia (Eugenia pyriformis Cambess): avaliação das atividades microbiana e antioxidante. Eclética Química, 34(3) 7-13, 2009.

Descrição botânica: Da família Rubiaceae, a planta tem porte arbóreo, medindo entre 6 a 25 m de altura; tronco ereto, cascas finas de cor cinza-claro; copa formada por numerosos ramos curtos, densa quando em folhação e de formato piramidal; as folhas são simples, com nervuras bem marcadas, medindo entre 8 e 30 cm de comprimento, textura lisa e cor verde brilhante; as flores são pequenas, de cor amarelo-claro e cinco pétalas; os frutos são arredondados inicialmente tem casca lisa e cor cinza, passando a enrugada e marrom, conforme avança a maturação; o interior dos frutos contém uma polpa carnosa, bastante aromática e com numerosas sementes.
 
Aspectos gerais do jenipapeiro. A) Botões florais; B) Flor; C) Folhagem densa; D) Ramos com frutos. 
Onde ocorre: A planta é nativa do Brasil, mas não endêmica, sendo encontrada em outros países de América Latina, Ásia e África. No Brasil, ocorre naturalmente em quase todos os Estados da Federação, exceto no Rio Grande do Sul.

Fruto maduro com casca enrugada e cortado ao
meio, mostrando a polpa carnosa e as sementes.
Usos: Alimentício, ornamental, medicinal, aromático, tintorial e madeireiro. Como alimento, o fruto pode ser consumido in natura, na forma de compota, sorvete, cristalizado, suco, licor ou vinho. A polpa verde apresenta coloração azulada e pode ser utilizada como corante. Na medicina tradicional, os frutos são utilizados no preparo de xaropes caseiros contra tosse e resfriado. Na indústria química, os frutos são fonte de aroma para a cosmética e perfumaria.
            O jenipapeiro é bastante ornamental, principalmente pelo formato piramidal da copa e a densa folhagem que produz durante a primavera/verão. Deve ser cultivado em áreas abertas e longe de fontes de água e piscinas, uma vez que perde as folhas durante a época seca. Algumas plantas apresentam altura superior a 20 metros e sistema radicular vigoroso, não sendo recomendado seu plantio em áreas próximas de fiação elétrica ou em áreas calçadas.
            A planta apresenta características ecológicas que a torna um elemento potencial na recomposição de áreas degradadas ou brejosas, na biorremediação de áreas contaminadas por mineração e em sistemas agroflorestais. A madeira é compacta, flexível e fácil de trabalhar, própria para uso em marcenaria ou na construção civil.
            No Distrito Federal existem mercados especializados na venda de frutas nativas onde é possível comprar jenipapo. Mas em geral, não é fácil encontrar jenipapo à venda em supermercados, o mais comum é comprá-los nas feiras, direto do produtor ou, quando possível, colher direto da árvore e sem custo, na avenida mais próxima da sua casa. Os frutos quando maduros, deterioram-se rapidamente, sendo assim, para aumentar o tempo de conservação devem ser mantidos me geladeira (10°C).
 
Jenipapo maduro vendido no Mercado Ver-o-peso em Belém/PA e embalado individualmente vendido em supermercado no Distrito Federal.
Aspectos agronômicos: A propagação é feita através de sementes, em sementeiras ou em tubetes, contendo substrato composto por terra preta (terra de mato) e esterco bovino curtido, na proporção de 1:1. Também pode ser utilizado substrato comercial próprio para a produção de mudas. As sementes tem curta longevidade, podendo ser armazenadas por no máximo 60 dias. A planta suporta clima frio, inclusive geadas leves. Deve ser plantada em locais amplos, preferencialmente à pleno sol. As covas precisam ser profundas (50x50x50 cm), para permitir o bom desenvolvimento do sistema radicular. As regas devem ser constantes até o estabelecimento completo da muda, posteriormente, a planta não exige muitos cuidados para sua manutenção.
 
Jenipapo cultivado na arborização urbana das avenidas de Sobradinho - DF.
Curiosidades: Aqui em casa, gosto de preparar o jenipapo refogado com uma crosta de açúcar e canela. Depois do cozido, coloco as fatias do fruto e a calda que se formou durante o cozimento, em um frasco de vidro limpo e esterilizado e deixo curtir por uns quatro ou cinco dias. Após isso, o sabor fica mais suave e então o doce pode ser consumido puro, com sorvete de creme ou com outras receitas tradicionais.
            O aroma e sabor marcante do jenipapo pode causar estranheza na primeira vez que se experimenta. É o típico sabor que não tem comparação: é sabor de jenipapo e pronto. O importante é deixar de ser conservador e provar novos sabores. Preparado do jeito certo e por alguém que entende do assunto, uma vez provado, com certeza estará aprovado!
 
Jenipapo caramelizado com açúcar e canela. Uma delicia!
Referências Bibliográficas
ANDRADE, S.A.C. et al. Desidratação osmótica do jenipapo (Genipa americana L.). Ciência e Tecnologia de Alimentos, 23(2), 276-281, 2003.
COSTA, M.C. et al. Substratos para produção de mudas de jenipapo (Genipa americana L.). Pesquisa Agropecuária Tropical (Agricultural Research in the Tropics), 35(1), 19-24, 2007.

ZAPPI, D. Genipa in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 04 Out. 2015.

Fotos: J. Camillo.
Ipê-branco (T. roseoalba) na Universidade de Brasilia. 

Esta semana a Planta da Vez não poderia ser outra senão o Ipê-branco, que encerra a temporada de floração dos ipês em grande estilo. Conhecida também como ipê-branco-do-cerrado, pau-d’arco ou planta-do-mel, pode ser encontrada florida em várias regiões no Brasil no final da época seca, entre os meses de agosto a outubro.

Descrição botânica: O ipê-branco, da família Bignoniaceae, é uma árvore com até 25 m de altura, casca espessa e pouco fendida; folhas palmadas com 3 folíolos de 10-15 cm de comprimento; inflorescência terminal reunindo muitas flores de cor branca com uma listra amarela na parte central; os frutos são tipo cápsula (vagem) medindo entre 20-25 cm com muitas sementes aladas.
Onde ocorre: A espécie é nativa mas não endêmica do Brasil, onde pode ser encontrada naturalmente em quase todas as regiões, especialmente nos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Pode ocorrer tanto em locais abertos, como em matas mais fechadas.

Usos: Pela beleza de sua florada, coloração azulada da folhagem e o formato piramidal da copa, é amplamente utilizado na ornamentação urbana de parques, jardins, ruas e avenidas. Normalmente, tem porte mediano e sistema radicular não muito agressivo, podendo ser cultivado próximo de áreas calçadas. É uma planta muito bem adaptada a locais secos e pedregosos, sendo uma opção para a recuperação de áreas degradadas ou como componente em sistemas agrossilvipastoris.
Propagação: Por sementes, colhidas em frutos maduros e germinadas em canteiros ou embalagens individuais contendo substrato organo-argiloso. As mudas devem ser mantidas inicialmente em local sombreado. O crescimento das mudas é rápido, em 3 a 4 meses as plantas estarão prontas para o plantio no ambiente definitivo. Podem iniciar a floração aos 3 ou 4 anos de idade.
Curiosidade: O ipê-branco, juntamente com outras espécies de ipê, é considerado Patrimônio Ecológico do Distrito Federal. Os ipês também fazem parte do Bosque dos Constituintes, uma iniciativa da Câmara dos Deputados para celebrar a Constituição de 1988, onde cada constituinte plantou uma árvore, e no caso do ipê-branco, a primeira muda foi plantada pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal Luiz Rafael Mayer.
Ipê-branco florido no campus da Universidade de Brasilia. Imagem: Weslainey Diniz. 
Agradecimento: À minha querida aluna Weslainey Diniz pela colaboração no envio de imagens.
Sobradinho - DF.

Ipê branco contrastando com a grama seca e ao fundo, a beleza da Catedral de
Brasilia - DF.

Referências bibliográficas
  1. BRASIL. Câmara dos Deputados. Ipê-branco. Disponível em: Link. 2015.
  2. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Árvores do Brasil Central: espécies da região geoeconômica de Brasília. Vol. 1. Rio de Janeiro, 2002.
  3. IBF – Instituto Brasileiro de Florestas. Ipê-branco. Disponível em: Link. Acesso em 18/09/2015.
  4. LOHMANN, L.G. Bignoniaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 05 Set. 2015.
  5. LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil. Vol. 1. 5 ed. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum, 2008.
  6. MACEDO, M.C.; ROSA, Y.B.C.; ROSA JUNIOR, E.J.; SCALON, S.P.Q.; TATARA, M.B. Produção de mudas de ipê-branco em diferentes substratos. Cerne, 17(1), 95-102, 2011.
Imagens: J. Camillo. As imagens poderão ser utilizadas desde que citada a autoria.

Tenho um carinho especial pelas palmeiras, elas foram assunto da minha tese de doutorado e também aqui no blog. São lindas, versáteis, de cultivo fácil e muito abundantes nas terras Brasilicas. Esta semana A Planta da Vez é a Pupunha, palmeira Amazônica muito apreciada na culinária regional, com frutos de sabor suave, muito saborosos e substanciosos. Quem visitar a Região Norte não pode deixar de provar, esta que é apenas uma das muitas riquezas que a Amazônia nos oferece.
           Segundo pesquisador Charles R. Clement, um estudioso das palmeiras amazônicas, a pupunha também é conhecida pelas denominações chontaduro, cachipay (Colombia), pejibaye (Costa Rica), chontaruro (Equador), pijuayo (Perú), gachipaes (Venezuela), peach palm, pewa nut (Trinidad).

Pupunheira (Bactris gasipaes). Coleção de
germoplasma da Embrapa Amazônia Oriental,
Bélem/PA.
Descrição botânica: É uma palmeira multicaule com até 20 m de altura; caules com diâmetro entre 15 a 30 cm, com numerosos espinhos finos e alongados; as folhas são reunidas no ápice do caule em número variável entre 15 a 25 e no centro da coroa foliar, as folhas jovens e tenras, formam o palmito; a inflorescência é grande e surge na axila das folhas; os frutos são multicoloridos; cada cacho podem conter entre 50 a 1000 unidades e pesar entre 1 a 25 kg; frutos maduros são recobertos por umas casca fina e fibrosa cuja cor varia entre o verde, vermelho, laranja ou amarelo e um mesocarpo (polpa) rico em amido e óleo. 

Onde ocorre: Planta de ocorrência natural na Floresta Amazônica, geralmente associada a áreas antropizadas (presença humana), tanto em terra firme quanto naquelas mais úmidas de margens de rios (Floresta pluvial). Também pode ser encontrada - em pequena quantidade espontânea ou cultivada - em algumas áreas do Cerrado.

Usos: Os frutos são consumidos, cozidos com água e sal ou na forma de farinha, na alimentação regional do Norte do Brasil. O palmito tem grande interesse comercial, sendo uma das principais fontes desta iguaria no mercado atual. Os frutos também podem ser utilizados para a alimentação animal.
          O uso alimentar das palmeiras deve ser estimulado e ampliado, pois são abundantes, de fácil cultivo e, via de regra, não produzem toxina como outros grupos de plantas. Apenas recomenda-se o cuidado de não ingerir frutos in natura (crus), pois estes contém em seu exterior cristais de oxalato de cálcio que causam irritação na pele e nas mucosas da boca. Os frutos da pupunheira devem ser cozidos em água e sal por 30 a 50 minutos para eliminar estes cristais e melhorar o sabor. Nota-se quando estão cozidos pela macies da polpa e liberação de óleo na água do cozimento. O sabor é suave, com textura que lembra um pouco o milho e a mandioca, e podem ser consumidos como aperitivo ou acompanhamento de pratos principais.
Frutos cozidos em água e sal. Iguaria facilmente encontrada nas feiras
da cidade de Belém/PA.

          A farinha obtida da polpa dos frutos pode ser utilizada na fabricação de pães e bolos, podendo ainda, ser um substituto para a farinha de milho convencional, com um sabor semelhante e vantagens nutricionais. Atualmente existem vários plantios comerciais de pupunha para a extração de palmito, que é considerado de qualidade superior àqueles obtidos da palmeira açaí (Euterpe spp.). A planta também produz perfilhos, característica pouco comum em palmeiras, e que permite a colheita de vários caules em uma mesma touceira.
        Os frutos também podem ser uma opção para a alimentação animal, na formulação de rações ou mesmo in natura como complemento da alimentação.
 
Diversidade de frutos (formas e cores).
Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, germinadas em sementeiras, em substrato composto por uma mistura de solo e material orgânico. A germinação é lenta e ocorre entre 30-120 dias. As mudas podem ser adquiridas também de viveiristas especializados. Com 6 a 8 meses as mudas estão prontas para o plantio definitivo, que deve ser feito no início da estação chuvosa. A pupunha pode ser cultivada em plantio solteiro, em sistemas agroflorestal ou agrossilvipastoril. Neste último, deve-se adotar alguns cuidados para evitar que os animais comam ou danifiquem as plantas. Para informações mais detalhadas conferir Clement (Link), CEPLAC (Link) e INPA (Link).

Curiosidades: A presença de espinhos ao longo do caule, dificulta o manejo da cultura. Porém, nos últimos anos pesquisas na área de melhoramento genético da pupunha, identificaram e selecionaram plantas sem espinho que mais tarde darão origem a cultivares comerciais. Várias Instituições de pesquisa tem trabalhado no melhoramento genético da espécie, entre elas a Embrapa Amazônia Ocidental (Manaus/AM), que possui um grande banco de germoplasma de Pupunheira disponível para a pesquisa cientifica.
Banco de germoplasma de pupunheira da Embrapa Amazônia Ocidental, Rio Preto da Eva/AM.
Referências bibliográficas
CLEMENT, C.R. Introdução à pupunha. Revista da Pupunha. 2015.  Disponível em: Link
LEITMAN, P.; SOARES, K.; HENDERSON, A.; NOBLICK, L.; MARTINS, R.C. Arecaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 06 Set. 2015.

Fotos: J. Camillo. As fotos podem ser utilizadas desde que respeitada a autoria.



A florada dos ipês marca a despedida do inverno e indica que a primavera vem com tudo. Nestas semanas podemos observar a cada dia um colorido diferente nas ruas, praças e avenidas de muitas cidades do Brasil: são os ipês e sua beleza ímpar. Esta semana A Planta da Vez é o Ipê-amarelo.
            Pelo nome “Ipê-amarelo” são conhecidas, pelo Brasil a fora, muitas espécies de plantas com flores amarelas. Neste espaço iremos tratar rapidamente de três delas: Handroanthus ochraceus (Cham.) Mattos, Handroanthus serratifolius (A.H.Gentry) S.Grose. e Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook. f.ex S.Moore. Essas espécies também são conhecidas pelos nomes populares de caraíba, paratudo, pau-d’arco, pau-d’arco-amarelo ou ipê-cascudo, em alusão à espessura da casca do tronco de algumas plantas.
 
Flores do Ipê-amarelo (Handroanthus ochraceus).
Descrição botânica: Plantas da família Bignoniaceae, árvores com altura variando entre 5 a mais de 20 metros; copa com formato assimétrico; cascas de coloração cinza; folhas compostas, com 5 a 7 folíolos, com pilosidade superficial (mais ou menos densa conforme a espécie); as flores são grandes, amarelas, campanuladas, concentradas em cachos ao final do ramos, possuem estrias avermelhadas na parte interna, podendo ser bem marcadas ou mais discretas, conforme a espécie; os frutos são bagas alongadas (vagem), cobertas por pelos (mais ou menos densos), contendo numerosas sementes aladas em seu interior. As espécies H. ochraceus e T. aurea apresentam grande número de ramos curtos e tortuosos, a casca do tronco é fendilhada longitudinalmente e bastante espessa.
 
Detalhes da planta e do tronco do Handroanthus ochraceus, também chamado de ipê-cascudo pela espessura das cascas do tronco e ramos.
Onde ocorrem: De forma espontânea em quase todas as regiões do Brasil, com exceção das regiões mais frias do Sul do País. H. ochraceus e T. aurea são os ipês mais comuns que ocorrem no bioma Cerrado. As espécies podem ser encontradas com maior frequência em ambiente seco, mas podem ocorrer também em áreas mais úmidas.
 
Árvore e cacho de flores de Handroanthus serratifolius.
Usos: A beleza e imponência da florada conferem a estas espécies um enorme potencial ornamental, no paisagismo de ruas, avenidas, praças e jardins em geral. T. aurea, pelo seu porte reduzido pode ser cultivada em pequenos espaços e ruas mais estreitas. Não se recomenda o plantio dos ipês próximo a residências ou em áreas calçadas, pois seu sistema radicular pode danificar o calçamento e a rede de esgoto. Por serem árvores caducifólias (perdem as folhas em uma época do ano), seu cultivo próximo à piscinas, fontes ou telhados, pode causar o entupimento de calhas e danificar sistemas de filtragem.
            Na medicina tradicional, as cascas do tronco são utilizadas como anti-inflamatório, cicatrizante, analgésico e no tratamento de gripes e resfriados, principalmente a espécie Tabebuia aurea, cujo nome comum Paratudo, está ligado ao uso medicinal que se faz da planta.

Flores de cor amarelo-ouro da Tabebuia aurea (ipê-amarelo do Pantanal).
Informações agronômicas: A floração destas espécies ocorre nos meses de julho a novembro, com maior intensidade entre agosto e setembro. A colheita de sementes para a produção de mudas, pode ser iniciada a partir do mês de setembro. A germinação é feita em canteiros ou embalagens individuais, em substrato organo-arenoso, sob tela de proteção com 50% de sombreamento nos primeiros 20 dias. A propagação por estaquia, embora menos utilizada, também podem ser feita, em especial para H. serratifolius. As mudas estarão prontas para o plantio definitivo por volta de cinco a seis meses.
            O cultivo deve ser feito em pleno sol, em solo fértil e bem drenado para um melhor estabelecimento das mudas. As regas devem ser constantes, porém uma vez estabelecida, as plantas são resistentes à seca - aspecto bastante importante em época de crise hídrica - e não exigem muitos cuidados para sua manutenção.

Curiosidades: A espécie Tabebuia aurea é um dos símbolo do Pantanal, onde forma maciços denominados “paratudais”, caracterizados pela floração amarelo-ouro intensa nos meses de agosto e setembro. A presença dessa espécie é indicativo de solo fértil. Ecologicamente, cumpre um papel importantíssimo na cadeia alimentar de muitas aves do Pantanal, como periquitos e papagaios.
           
O velho ipê parecia mais um guardião que ali permanecia desde os tempos de vovó criança, alegrando as novas gerações com sua imponência e beleza. Toda primavera tingia-se de amarelo, exibindo suas abundantes flores amarelas. O João-de-Barro, ah este parecia ser o dono daquela árvore, edificou sua moradia de alvenaria no mais alto tronco e de lá era o sentinela efetivo. Eu perdia até a noção do tempo ali junto ao Ipê brincando na relva.
                                                    Adaptado da crônica “Tronco do Ipê” de Adauto Neves (Link)
 
O endereço do João-de-Barro.
Referências bibliográficas
BRANDÃO, H.L.M.; SAMPAIO, P.T.B. Propagação por estaquia de pau-darco-amarelo (Tabebuia serratifolia Nichols). Manaus: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 2003.
BRANDÃO, M.; LACA-BUENDÍA, J.P.; MACEDO, J.F. Árvores nativas e exóticas do estado de Minas Gerais. Belo Horizonte: EPAMIG, 2002.
CARVALHO, P.E.R. Espécies Arbóreas Brasileiras. Vol. 4. Brasília – DF: Embrapa Informação Tecnológica; Colombo – PR: Embrapa Floresta, 2010.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica. Árvores do Brasil Central: espécies da região geoeconomica de Brasilia. Vol. 1. Rio de Janeiro, 2002.
LOHMANN, L.G. Bignoniaceae in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 22 Ago. 2015
LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. Nova Odessa: Plantarum, 1992.
LORENZI, H. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil. Vol. 1. 5 ed. Nova Odessa, SP: Instituto Plantarum, 2008.



E para finalizar a série, esta semana vamos conhecer o mulungu-da-caatinga, mais raro que as outras espécies, mas apresenta uma das flores mais bonitas do gênero Erythrina.

Descrição botânicas: Pertence à família botânica Fabaceae, árvore com até 15 m de altura e tronco com até 80 cm de diâmetro; tronco e galhos com espinhos; copa ampla, aberta e arredondada; folhas compostas por três folíolos ovais ou triangulares, com pelos na superfície e aparência aveludada; as flores tem cor laranja ou vermelho reunidas em fascículos que saem na axilas das folhas; um mesmo galho possui vários fascículos florais (várias flores agregadas em um mesmo ponto); fruto tipo legume com até 3 sementes, de cor laranja ou vermelha.
Tronco e ramos com muitos espinhos, detalhes da casca de cor cinza e raias brancas.
Onde ocorre: No Brasil ocorre de forma espontânea em quase todos os estados do Nordeste e em Minas Gerais, nos biomas Cerrado, Mata Atlântica e com maior intensidade, na Caatinga. Nos demais estados é cultivado. Não é endêmico do Brasil, também encontrado nas Antilhas, Venezuela, Colômbia, Equador, Ilhas Galápagos e Peru.

Mulungu-da-caatinga na Universidade de Brasilia.
Usos: Ornamental, medicinal e madeira. O mulungu-da-caatinga é uma árvore muito ornamental, tanto pela conformação ampla da copa como pela florada de cor intensa, prestando-se para arborização de ruas, jardins e alamedas, sempre em áreas abertas, pois é árvore de grande porte. Na medicina popular a planta é utilizada como sudorífica, calmante, emoliente e anestésica. Estudos fitoquímicos comprovam que o extrato das folhas tem ação sedativa e antimicrobiana. A madeira pode ser aproveitada para a confecção de palitos de fósforo, tamancos, jangadas, brinquedos e caixotarias. As flores são comestíveis e também podem ser fonte de corante para tecidos. As sementes, pelo seu colorido, são utilizadas na confecção de artesanatos.

Características agronômicas: A época de floração varia de acordo com a região do
Brasil, no Centro-Oeste ocorre nos meses de julho a agosto, quando a arvore está totalmente sem folhas. A produção de mudas é feita por sementes, germinadas em bandejas contendo areia ou vermiculita, em sacos de polietileno (20 x 7 cm) ou em tubetes de polipropileno de tamanho médio. A profundidade de semeadura deve ser entre 1- 2 cm e a emergência das plântulas ocorre entre 7 e 16 dias após a semeadura. A propagação por estaquia de ramos também é possível, embora seja mais trabalhosa e dependa do bom enraizamento dos ramos. A propagação clonal por cultura de tecidos é uma opção, quando existe estrutura disponível.

Cuidados: As sementes são consideradas muito tóxicas, não devem ser ingeridas, pois dependendo da quantidade pode levar à morte.  As cascas do tronco e ramos são ricas em eritrina, um alcaloide que atua sobre o sistema nervoso central causando paralisia, por isso seu uso medicinal não deve ser feito sem o devido acompanhamento de um profissional de saúde.
 
As belas flores que colorem a estação seca na Caatinga e no Cerrado.
Referências bibliográficas
ALVES, E.U. et al. Substratos para testes de emergência de plântulas e vigor de sementes de Erythrina velutina Willd., Fabaceae. Semina: Ciências Agrárias29(1), 69-82, 2008.
CARVALHO, P.E.R. Mulungu (Erythrina velutina). 2008. Disponível em  Link.

LIMA, H.C.; MARTINS, M.V. Erythrina in Lista de Espécies da Flora do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 06 Ago. 2015.

Imagens: J. Camillo.
Este blog foi criado com o objetivo de informar e entreter. Apresentar uma espécie vegetal seus usos, potencialidades e curiosidades, com informações mais detalhadas, para que as pessoas conheçam e contemplem a beleza de cada espécie.O conteúdo é destinado a toda comunidade e serão muito bem vindas, todas as colaborações daqueles que estejam dispostos a dividir seu conhecimento com quem tem sede de aprender sempre.