O chichá ou chicazeiro é uma planta nativa do cerrado, que embora poucas pessoas conheçam, faz parte da arborização urbana de diversas cidades no Centro-Oeste do Brasil. As plantas chamam atenção, especialmente durante a época seca, quando perdem as folhas e restam apenas os ramos com frutos vermelhos nas pontas.

Descrição botânica: Árvore com até 25 m de altura; folhas simples, alternas, caducas e pecioladas, de formato ovalado, com até 30 cm de comprimento. As flores são pequenas, reunidas em inflorescências tipo panícula terminal, contendo até 50 flores; os frutos medem cerda de 10 cm de comprimento, lenhosos, que mudam de cor à medida que amadurecem, passando de verde, a vermelho-vivo e acastanhado quando colhidos. Cada planta pode produzir até 200 frutos, com 2 a 8 amêndoas por fruto. 
Mudança de coloração dos frutos à medida que amadurecem.
Onde ocorre: O chichazeiro é uma planta nativa do Brasil central, especialmente dos biomas Cerrado e Caatinga. Cresce em solos secos e pedregosos ou em locais mais úmidos nas matas de beira de rio. 

Usos: Sua maior utilização atualmente é na arborização urbana. Em zonas mais secas a planta apresenta porte reduzido, entre 5-7m de altura, o que permite seu uso em áreas menores, exceto em locais próximos à fontes ou piscinas, pois perdem as folhas em uma época do ano. Em Brasília, são cultivadas nas áreas verdes comunitárias, parques e canteiros centrais das avenidas, formando maciços ou em conjunto com outras espécies nativas do Cerrado. As amêndoas dos frutos são comestíveis e depois de torradas, apresentam aroma semelhante ao cacau. Do ponto de vista nutricional, as amêndoas contêm alta quantidade de fósforo, superando até mesmo a castanha-do-brasil. Produzem óleo com qualidade alimentícia e para fins farmacêuticos e cosméticos. Diversos estudos têm sido realizados visando o aproveitamento do óleo também para a produção de biocombustível e nanopartículas.
Árvore de chicazeiro utilizada na arborização urbana em Brasilia-DF.
Aspectos agronômicos: A propagação ocorre por sementes e deve ser feita em sacos plásticos individuais, do mesmo modo como se procede para a germinação de outras arbóreas. Se as sementes forem recém colhidas a germinação pode levar entre 15 a 30 dias, com percentual de até 90%. As mudas estarão prontas para o plantio definitivo com 18 meses de idade. O plantio deve ser feito em solo leve e bem drenado, com regas constantes até o pegamento da muda. Não exige muitos cuidados de manutenção.

Fruto maduro e amêndoas de chichá.

Bibliografia consultada

DINIZ, Z.N., et al. Sterculia striata seed kernel oil: characterization and thermal stability. Grasas y aceites, 59(2), 160-165, 2008.
FRAGUAS, R.M. et al. Chemical constituents of chich (Sterculia striata St. Hil. et Naud.) seeds. African Journal of Agricultural Research, 10(9), 965-969, 2015.
Sterculia in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 13 Jul. 2017.


Existem muitas plantas chamadas popularmente de arnica. Mas hoje vamos falar da arnica-do-cerrado ou arnica-de-goiás, uma planta medicinal muito utilizada na medicina popular do Cerrado. A arnica-do-cerrado também é conhecida como candeia ou pau-candeia, devido à conformação da planta que se assemelha aos antigos candeeiros.

Descrição botânica: Planta da família Asteraceae, com até 3 metros de altura, bastante ramificada e com as folhas concentradas na porção terminal dos ramos; folhas alongadas e finas com textura aveludada; flores em forma de capítulo, reunindo entre 20-30 flores de coloração arroxeada. Os frutos são tipo aquênios, com 2-3 cm de comprimento e contém muitas sementes pequenas.

Onde ocorre: Esta espécie só é encontrada no Brasil e em algumas áreas especificas do bioma Cerrado. Forma aglomerados de plantas em áreas montanhosas, de solo pedregoso e vegetação baixa e rala. É possível encontrar plantas desta espécie com aroma bem pronunciado e outras totalmente sem cheiro.

Aspecto das plantas de arnica-do-cerrado.
Usos: Planta medicinal e aromática. Na medicina popular a planta é utilizada, após infusão com álcool, para o tratamento de contusões, aliviar inchaço e dores nas pernas, como repelente e anti-inflamatório. O sabonete de arnica é um cosmético bastante procurado para tratar pele ressecada ou com hematomas. As plantas com cheiro podem ser utilizadas para aromatizar ambientes e na produção de aromas para as indústrias farmacêutica e de cosméticos. Devido a conformação da planta com muitos galhos e “tufos” de folhas, também podem ser utilizadas como ornamental. 

Planta de arnica rebrotando após coleta extrativista:
a grande maioria das plantas morre após uma
poda tão drástica.
Cuidados: Até o presente, a arnica-do-cerrado tem seu uso restrito à medicina popular, não existido fármacos elaborados a partir desta espécie. A maior parte do que é vendido nas farmácias e lojas de cosméticos é fabricada com a espécie europeia Arnica montana. A arnica-do-cerrado é uma espécie quase ameaçada de extinção, portanto, sua coleta na natureza sem os devidos cuidados pode elevar o nível de ameaça e levá-la, de fato, a extinção em curto prazo. Além do que, sua extração irregular poderá resultar em crime ambiental.

Aspectos agronômicos: A arnica-do-cerrado é propagada por semente, que demoram entre 30-50 dias para germinar. Em alguns casos a germinação é lenta e baixa, mas ainda é a forma mais adequada de efetuar a propagação. Para obter maior número de mudas, as sementes devem ser germinadas logo após a colheita. A coleta de mudas em áreas nativas, além de ilegal, é dificultada pela morte das plantas, que não sobrevivem aos transplantio. É uma planta de sol pleno, que requer solo de textura arenosa e pouca água para o seu cultivo.

Curiosidades: No Distrito Federal, quem utilizava o transporte coletivo há alguns anos, vai lembrar dos vendedores de arnica, que eram muito comuns dentro dos ônibus e nas paradas, comercializando pequenos maços da planta. Atualmente, esta pratica tem sido coibida e a comercialização se dá quase que exclusivamente nas feiras livres regionais.

Arnica-do-cerrado comercializada em feira livre, juntamente com outras cascas medicinais do Cerrado.

Bibliografia consultada
Lychnophora in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 03 Jul. 2017.
MELO, L.Q. Estratégias para conservação e manejo sustentado de arnica Lychnophora ericoides (Mart.). 2006. Dissertação (Mestrado). Universidade de Brasília. Brasília – DF.

O tagetes também é conhecido como cravo-de-defunto ou cravo-francês. O nome cravo-de-defunto se deve ao aroma forte e desagradável presente em suas flores e folhagem, perceptível quando a planta é tocada ou amassada. É extremamente ornamental, além de ser companheira indispensável das plantas no jardim e na horta, ajudando a combater pragas.

Descrição botânica: Oriunda da América Central (México), planta da família Asteraceae, com porte variando entre 15 a 40 cm de altura, anual. As folhas têm coloração verde-escura e formato irregular, recortadas. As flores são pequenas e reunidas em capítulos de coloração variando entre amarelo e marrom, em diferentes tonalidades e variegações, simples ou dobradas. A espécie apresenta variedades normais e anãs, mas outras espécies também são cultivadas no Brasil, a exemplo do Tagetes erecta L.
Flores simples e dobradas.
Plantio em canteiros com ervas e hortaliças.
Usos: Ornamental, controle biológico de pragas e medicinal. Como ornamental, a espécie é utilizada em bordadura de canteiros, floreiras e vasos. É muito utilizada para dar cor em diferentes formas e desenhos nos jardins. As folhas e flores são ricas em terpenoides, alcaloides e flavonoides e são empregadas na medicina popular como antisséptica, diurética, depurativa e repelente.

Esta planta é um coringa que não deve faltar na horta e no jardim, porque além de ser muito ornamental, também auxilia no controle biológico de pragas. Quando cultivada como bordadura em canteiros, funciona como atrativo para pragas, ajudando, por exemplo, no controle biológico do tripes. Suas raízes liberam substâncias que repelem nematoides, pequenos vermes que atacam as raízes das plantas. O extrato preparado com as folhas e flores maceradas, bem como o óleo essencial das folhas, podem ser aplicados em outras plantas para repelir insetos. 


Uso de tagetes em bordadura de canteiro.
Tomate e melão se beneficiam da companhia do tagetes, tanto pelo controle de nematoides, especialmente nos tomateiros, quanto pela atração das pragas. O uso do tagetes no controle biológico de pragas pode ser aplicado, da mesma forma, no cultivo orgânico de várias hortaliças e também no jardim.

Cuidado: Não se recomenda a aplicação do extrato ou o óleo essencial das folhas sobre sementes em germinação ou plântulas recém germinadas. Esses preparados são fitotóxicos, ou seja, podem reduzir a germinação e causar malformação nas plantas.

Aspectos agronômicos: A propagação é feita por sementes, germinadas em substrato leve, rico em matéria orgânica. As regas devem ser moderadas, pois as plantas não toleram encharcamento. O cultivo é feito em pleno sol, com a substituição periódica das mudas para que o canteiro esteja sempre bonito e florido. Em regiões mais quentes, floresce o ano todo.


Bibliografia consultada

CARNEIRO, C.R. Tagetes in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 13 Jun. 2017.

PERES, F.S.C. et al. Cravo-de-defunto como planta atrativa para tripes em cultivo protegido de melão orgânico. Bragantia, 953-960, 2009.

MOREIRA, F.J.C. et al. Controle alternativo de nematoide das galhas (Meloidogyne enterolobii) com cravo de defunto (Tagetes patula L.), incorporado ao solo. Holos, 31(1), 99, 2015.


Vamos falar de aromas? Minha horta caseira tem vários temperos, afinal, aromas e sabores diferentes me encantam e estes dois, particularmente, conferem qualidades muito interessantes aos pratos, além de conterem propriedades medicinais.

Origem: A sálvia pertence à família botânica Lamiaceae e o alecrim é uma Asteraceae, ambos oriundos do mediterrâneo. Devido à grande capacidade de adaptação, atualmente as duas espécies são cultivadas em quase todo o mundo.
Sálvia (Salvia officinalis L.), as folhas ficam mais prateadas quando a planta é cultivada no sol.
A sálvia tem uso bastante antigo. Os romanos acreditavam em vida longa para aqueles que possuíam sálvia no jardim. Era presença obrigatória nos hortos medicinais dos curandeiros e boticários da idade média. O nome sálvia tem origem no latim e significa “sanar”, atribuído exatamente por suas propriedades medicinais. Planta arbustiva, de 50-80 cm de altura, folhas alongadas, ovaladas, de cor verde-prateado ou acinzentada, muito aromática.

Osmarim (Helichrysum italicum G.Don. f.)
O osmarim ou curry-europeu tem presença obrigatória nas casas dos descendentes italianos e franceses aqui no Brasil. Conhecido também como rosmarim e por vezes confundido com o alecrim (Rosmarinus officinalis L.), pela semelhança entre as plantas e denominação científica, levando muitas pessoas erroneamente a considerar que ambos são da mesma espécie. Os franceses chamam o osmarim de immortelle, matéria-prima do famoso óleo de immortelle, usado nas indústrias de perfumaria, farmacêutica e produtos naturais. Este nome se deve às suas flores que “nunca morrem” (sempre-vivas). Aqui no Brasil, nunca vi esta planta florida, mesmo aquelas cultivadas por muito anos, possivelmente, devido às diferenças climáticas com seu local de origem, no mediterrâneo.

Usos: As duas espécies são largamente utilizadas na produção de óleo essencial para a indústria de aromas. Na cozinha o osmarim pode ser utilizado para temperar carnes de aves, porco, peixe e dar um sabor especial no arroz. A sálvia é indicada para aromatizar pratos ricos em gordura e facilitar a digestão, vai muito bem para temperar carne de boi, carneiro e cabrito. Em pequenas quantidades, as folhas frescas de ambas espécies podem condimentar e aromatizar saladas, molhos, queijos frescos temperados, azeite e vinagre. Quanto às propriedades medicinais, estudos mostraram que o óleo essencial extraído das folhas de osmarim possui ação anti-inflamatória e antioxidante. A sálvia é citada na literatura científica com propriedades antimicrobiana, antioxidante e com potencial terapêutico no tratamento da agitação de pacientes portadores de Alzheimer.
Osmarim e sálvia cultivados em canteiro na horta, juntamente com outras hortaliças.
Cuidados: Devido ao aroma e sabor marcantes tanto da sálvia quanto do osmarim, não é recomendável que sejam utilizados juntos, nem em demasia. Para não estragar o prato, o ideal é adicionar pequenas quantidades, especialmente, a quem ainda não está familiarizado com esses conimentos ou com sabores amargos. A mesma recomendação vale para a utilização do óleo essencial que é extremamente concentrado: sempre utilizar com parcimônia.

Aspectos agronômicos: Podem ser cultivados na horta juntamente com outros temperos e são ótimos para quem tem pouco espaço, porque se adaptam bem ao cultivo em vasos. As mudas podem ser adquiridas no comércio ou feitas por meio de estaca, daquela planta no quintal da vó. Escolha ramos saudáveis e medianos para retirar as estacas; quanto mais velhos os ramos, mais difícil de enraizar e formar muda e quando muito jovens e tenros, desidratam e morrem mais facilmente. O cultivo deve ser feito em solos leves e bem drenados, não suportam água em excesso. Toleram frio e temperaturas mais elevadas e podem ser cultivadas em todos o Brasil. 
Sálvia e osmarim que cultivo em vasos na minha hortinha. 
Ao montar sua horta em vasos (as espécies devem ficar em vasos separados), dê preferência à vasos grandes (20-30 cm de profundidade) e não esqueça de colocar uma boa camada de material drenante no fundo (pedras, cacos de telha ou tijolo, argila expandida, entre outros), isso vai ajudar a não acumular água em excesso e apodrecer as raízes das plantas. Sempre que for colher folhas ou ramos para uso, retire as pontas dos galhos, pois além de serem mais tenros, regulam o crescimento da planta e estimulam a brotação, deixando-as mais baixinhas e arredondadas, conferindo, inclusive, um aspecto ornamental à sua horta.

Bibliografia consultada

AKHONDZADEH, S., et al. Salvia officinalis extract in the treatment of patients with mild to moderate Alzheimer's disease: a double blind, randomized and placebo‐controlled trial. Journal of clinical pharmacy and therapeutics, 28(1), 53-59, 2003.

NGV. Especias: todo el aroma de la cocina. ISBN 978-3625-00461-5.

PEIRÓ, P.S. et al. Monográfico de Helicrhysum italicum y sus variedades. Medicina naturista, 3(2), 96-100, 2009.

RÍOS, J.L. Helichrysum italicum, una planta mediterránea con potencial terapéutico. Revista Fitoterapia, 13-20, 2008.


O brinco-de-princesa ou fúcsia, tal qual a conhecemos nos jardins, é produto de cruzamento genético e seleção de plantas de origem sul-americanas. O gênero Fuchsia é considerado nativo do Brasil, uma vez que possui oito espécies nativas do nosso país e que também serviram de base genética para a produção dos híbridos comerciais. Entre as espécies nativas, destaca-se a Fuchsia regia, endêmica da Mata Atlântica.


Descrição botânica: Pertencem à família Onagraceae, são plantas escandentes (com galhos pendentes, mas que não necessitam obrigatoriamente de tutoramento), medindo entre 1 a 2 m de altura. Os ramos são abundantes, emitindo delicados botões florais nas extremidades. As folhas são verde-escuras, pequenas e opostas. As flores são igualmente pendentes, com cálice tubular nas cores branco, vermelho ou roxo; a corola também possui cores variadas: roxa, vermelha, branca ou azul, simples ou dobradas; com estames prolongados para fora das flores.


Onde ocorre: O gênero Fuchsia está distribuído por toda a zona tropical e subtropical do continente Americano. Diversas espécies ocorrem naturalmente nos biomas brasileiros e algumas são cultivadas em jardins, especialmente no sul e sudeste do Brasil. A espécie também é cultivada como ornamental em vários países da Europa. 


Usos: Planta predominantemente de uso ornamental em vasos, floreiras ou mesmo no chão do jardim. O uso em vasos e floreiras é mais recomendado devido ao aspecto pendente da planta, que resulta em maior valor ornamental das plantas. As flores são comestíveis e podem ser utilizadas como decoração em saladas e outros pratos.


Aspectos agronômicos: São plantas rusticas e muito resistentes, com boa capacidade de adaptação aos diferentes climas do Brasil, inclusive ao frio do sul do país. Devem ser cultivadas a pleno sol ou em locais com sombra parcial (pelo menos 4 horas de sol por dia), com ou sem tutoramento, dependendo do uso desejado. A propagação é feita com facilidade por estacas de ramos jovens (ponteiro ou estaca mediana) ou por sementes. As plantas devem ser cultivadas em solo rico em matéria orgânica e com regas constantes, mas sem encharcar o substrato.


Bibliografia consultada

LORENZI, H. Planta ornamentais no Brasil: arbustiva, herbáceas e trepadeiras. Nova Odessa: SP. Instituto Plantarum. 4ª Ed. 2008.

FALKENBERG, D. Fuchsia regia. In: CORADIN, L.; SIMINSKI, A.; REIS, A. Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro – Região Sul. Brasília: MMA, 2011.

FLORA DO BRASIL. Onagraceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 02 Mai. 2017.


O Brasil possui uma enorme diversidade de cactáceas comestíveis, muitas delas conhecidas apenas regionalmente ou ainda desconhecidas até mesmo dos estudiosos do assunto. Uma destas cactáceas saborosas já foi assunto aqui do site: a Arumbeva, planta típica do sul do Brasil. Hoje as nossas plantas da vez são as pitaias, cujo nome tem origem indígena e deriva dos povos Tainos, que habitavam as ilhas da América Central. Pitaia na língua indígena original significa “fruta escamosa”.

Pitaia de polpa roxa (Hylocereus polyrhizus).
As pitaias ou frutos-do-dragão, como são conhecidas na Ásia, são nativas das áreas tropical e subtropical do continente Americano. O gênero Hylocereus é considerado nativo do Brasil, sendo aqui representado pela espécie Hylocereus setaceus, conhecida como pitaia-do-cerrado, que apresenta frutos pequenos e com espinhos, mas igualmente saborosos. 

Para a produção comercial de frutos de pitaia, no Brasil existem duas espécies importantes que vou descrever brevemente e ajudar o leitor a distinguir uma da outra e escolher a que mais lhe agrada. A espécie Hylocereus polyrhizus apresenta frutos de tamanho médio, casca avermelhada e polpa arroxeada. Já a Hylocereus undatus apresenta frutos maiores (podem pesar mais de 1 kg), casca rosada e polpa branca.




Pitaia de polpa branca (Hylocereus undatus).

Botões florais e fruto verde.

Descrição botânica geral das espécies: São plantas perenes, com hábito de liana (trepadeira), ramificadas acima do dossel, com espinhos de 1-4 mm de comprimento. As flores são grandes e vistosas, de coloração esbranquiçada e atrativas de polinizadores. O fruto é uma baga, de tamanhos variados conforme a espécie, globoso, com coloração externa verde quando imaturos e amarela, rosada ou vermelha quando maduros; são cobertos por brácteas (o que lhe confere o aspecto escamoso) e algumas espécies apresentam espinhos. A polpa é suculenta, de colorações variadas desde o púrpura ao branco, e numerosas sementes pretas comestíveis distribuídas por toda a polpa.

Onde ocorrem: São plantas típicas de locais secos (xerófitas) e podem vegetar sobre árvores, pedras ou diretamente no solo. Ocorrem naturalmente desde o sul dos Estados Unidos até o sul da América do Sul. No Brasil o gênero Hylocereus ocorre em todas as regiões, com espécies nativas ou naturalizadas, especialmente nos biomas Amazônia (pré-Amazônia), Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. 

Usos: As pitaias possuem uso alimentício, medicinal e ornamental. Seus frutos suculentos, possuem aroma e sabor delicados, são ricos em compostos bioativos, tais como: flavonoides, carotenoides e antocianinas, o que lhes confere funções antioxidantes. As diminutas sementes contêm óleo com propriedades medicinais (laxante suave) e também podem ser utilizadas como fonte de corante alimentício. Os frutos são pobres em carboidratos, portanto, pouco calóricos. A planta inteira pode ser cultivada no jardim como ornamental.
Sistema de tutoramento para o cultivo e detalhes das flores da pitaia.
Aspectos agronômicos: A produção de mudas se faz por meio de estacas dos ramos, que pegam com facilidade. As plantas precisam ser cultivadas desde cedo com sistema de tutoramento, que vai sendo reforçado conforme a planta cresce, devido ao hábito de crescimento e ao peso das plantas adultas. Para uma boa produção de flores e frutos, as plantas são exigentes em solo de textura leve, bem drenados, ricos em matéria orgânica e adubação equilibrada de nitrogênio, potássio e fósforo. As plantas devem ser cultivadas a pleno sol. É planta rustica e de boa aclimatação nas diferentes regiões do Brasil, com cultivos comerciais bem-sucedidos nas regiões Sudeste (maios produtor nacional), Nordeste e Centro-Oeste (especialmente entorno do Distrito Federal). 

Bibliografia consultada

Cactaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB1550>. Acesso em: 02 Abr. 2017.
NUNES, E.N. et al. Pitaia (Hylocereus sp.): Uma revisão para o Brasil. Gaia Scientia, 8(1), 90-98, 2014.
Nilton Junqueira. Embrapa Cerrados (comunicação pessoal).

O mureré ou golfe é uma planta aquática nativa do Brasil, mas que pouca gente aqui conhece. Ela pode ser utilizada tanto na alimentação como no paisagismo. Tem folhagem ornamental e delicadas flores amarelo-claras. Em inglês é conhecida como yellow bur-head, yellow velvetleaf e em espanhol lírio amarillo.

Descrição botânica: Planta da família Alismataceae, erva rizomatosa, emersa, com altura de até 0,6 metros; pecíolos triangulares a sextavados, com aerênquima, folhas inteiras, ovaladas e com textura levemente áspera; inflorescências terminais, em forma de escapo com uma ou várias flores, pequenas e de coloração amarelo claro.

Onde ocorre: É planta nativa do Brasil e pode ser encontrada em quase todos os Estados da Federação, mas também é cultivada em vários países tropicais do Continente Americano, Ásia e na Oceania. Na Malásia e Indonésia é considerada planta naturalizada e invasora das lavouras de arroz cultivado. É planta típica de ambientes alagados ou brejosos. No Brasil, floresce de agosto a março.


Usos: Suas flores e folhas são muito apreciadas na culinária do sudoeste asiático. Na Índia, Vietnam, Laos, Cambodja, Malásia e Indonésia, as folhas e pecíolos jovens são consumidos refogados, em sopas, molhos, pratos com curry ou como substituto do espinafre. Os botões florais jovens são consumidos frescos e cobertos por molhos apimentados, em pratos típicos regionais. Nestes países, as plantas são comercializadas ainda jovens, in natura (em pequenos maços) em feiras e supermercados. 
     No paisagismo o mureré é cultivado nas laterais ou dentro de espelhos d’água, cascatas, córregos e lagos. Em alguns locais, esta espécie é comercializada também como flor de corte. 
    Estudos mostraram que esta espécie apresenta grande potencial para uso na fitorremediação, uma vez que seu sistema de filtração consegue retirar metais pesados (a exemplo do mercúrio) da água, em áreas contaminadas pela atividade de mineração.

Aspectos agronômicos: A produção de mudas pode ser feita por meio de sementes ou, mais facilmente, por divisão de touceira, em qualquer época do ano. Prefere climas mais quentes, embora se adapte também em regiões mais frias. Deve ser cultivada associada à presença de água, em lagos ou brejos de pouca profundidade, em ambientes a pleno sol ou meia sombra. A espécie apresenta alto potencial invasivo, sendo recomendável seu cultivo em locais que permitam a contenção das plantas, a fim de evitar o alastramento para áreas não desejadas. 


Bibliografia consultada

Alismataceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: Link. Acesso em: 15 Mar. 2017.
Flora Fanerogâmica do Estado de São Paulo. Coordenação de Maria das Graças Lapa Wanderley, George John Shepherd, Ana Maria Giulietti. São Paulo: FAPESP: HUCITEC, 2002. 
LIM, T.K. Limnocharis flava. In Edible Medicinal and Non Medicinal Plants (pp. 232-235), 2014.
MARRUGO-NEGRETE, J. et al. Removal of mercury from gold mine effluents using Limnocharis flava in constructed wetlands. Chemosphere, 167, 188-192, 2017.

Você sabia que existem vários tipos de cajus? Tem caju-de-árvore, caju-anão, caju-rasteiro, caju grande e pequeno, caju amarelo, rosado ou bem vermelho, tem caju de todo jeito. Embora o sabor seja parecido, são espécies de plantas diferentes que vivem em biomas diferentes. O caju é um dos símbolos do tropicalismo brasileiro e um dos sucos mais consumidos no País. Então hoje vamos conhecer um pouco mais dessas plantas e alguns alimentos que podem ser preparados com esses frutos deliciosos e bem brasileiros.

O cajuzinho-do-cerrado (Anacardium humile A.St.-Hil.) e o caju-rasteiro (Anacardium nanum A.St.-Hil.) são espécies típicas do Cerrado de Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, com frutos pequenos, vermelhos quando maduros e, na minha opinião, mais doces que o caju convencional. As plantas são pequenas e quase desaparecem no meio da vegetação graminosa do cerrado. 

Cajuzinho-do-cerrado maduro, pronto para ser degustado.
O caju-de-árvore ou caju-de-árvore-do-cerrado (Anacardium occidentale L.) também é típico do Cerrado, embora botanicamente seja considerada a mesma espécie do caju cultivado comercialmente, apresenta frutos menores e de coloração rosada a avermelhado. O caju-de-árvore é menos produtivo que o seu homônimo comercial, mas igualmente saboroso e nutritivo.

Caju-de-árvore-do-cerrado.



O caju comercial (Anacardium occidentale L.) é produto do melhoramento genético da espécie original, e é cultivado em escala comercial para atender, sobretudo, a demanda da indústria de suco. É o caju mais comumente encontrado nas feiras e mercados, bem como, a espécie mais cultivada nos quintais das casas de quase todo Nordeste e outras regiões mais quentes do Brasil.
Usos: Os cajus, independente da espécie, tem usos muito semelhantes. Os pseudofrutos (carne de caju) podem ser consumidos in natura ou processados na forma de doces em calda ou cristalizados, geleias, sucos, picolés, sorvetes, bebidas (cajuína), tortas, bolos, como componente de pratos salgados e uma infinidade usos culinários. O fruto, propriamente dito, é a castanha, que é consumida torrada, após processamento.
 
Pratos deliciosos preparados com cajus. Da esquerda para a direita: bolo com geleia e castanha de caju, doce de caju em calda; rosquinha com doce de caju em pedaços.
Atenção: A castanha de caju deve ser consumida somente depois de torrada e devidamente processada. A casca da castanha crua possui sabor amargo e uma composição de ácidos que podem causar irritações ou lesões na boca e até estomago, se for ingerida. 

Os cajueiros também são utilizados como plantas ornamentais, cultivados em ambientes abertos. Estas plantas perdem as folhas em uma época do ano e, portanto, não devem ser cultivadas próximas de fontes e piscinas, devido ao aumento de custos com a limpeza e conservação, além do risco de danos ao sistema de filtragem de água nesses locais.

Planta e frutos verdes de cajueiro comercial.
Aspectos agronômicos: Os cajus podem ser propagados por sementes ou por mudas enxertadas adquiridas em viveiros de plantas. O cultivo deve ser feito em condição de pleno sol, em solo fertilizado e com boa irrigação para elevar a produção de frutos. Os cajueiros não toleram umidade elevada, uma vez que esta condição facilita a proliferação de doenças. Devem ser cultivados em regiões de clima quente e seco, o que favorece a produção de frutos.

Referências

AGOSTINI-COSTA. T.S.; FARIA, J.P.; NAES, R.V.; VIEIRA, R.F. Cajus do cerrado. IN: VIEIRA, R.F.; AGOSTINI-COSTA, T.S.; SILVA, D.B.; SANO, S.M.; FERREIRA, F.R. Frutas nativas da região Centro-Oeste do Brasil. Brasília – DF. Embrapa Informação Tecnológica, 2010. 322 P.

LUZ, C.L.S.; PIRANI, J.R. Anacardiaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: <Link>. Acesso em: 14 Fev. 2017

O bastão-do-imperador, assim chamado devido ao formato das suas inflorescências que se assemelhavam aos bastões dos antigos imperadores, é uma planta belíssima e uma das flores tropicais mais utilizadas no paisagismo e ornamentação em países tropicais. De origem asiática, esta espécie, também chamada de gengibre-tocha, flor-da-redenção ou flor-de-cera, tem sido bastante cultivada no Brasil, inclusive para exportação.

Descrição da planta: Da família Zingiberaceae, planta herbácea, ereta, 2 a 4m de altura, caule tipo rizoma; folhas grandes, alongadas, verde-escuras na face adaxial e levemente rosada na face abaxial; única inflorescência na extremidade mais alta de uma longa haste ereta e robusta, 1 a 1,5m de altura e se forma diretamente no rizoma, com formato cônico-piramidal, as cores podem variar entre o branco (porcelana), rosa e o vermelho. 

Usos: O bastão-do-imperador é cultivado no Brasil desde a década de 1920, especialmente para uso em arranjos florais, pois valoriza o ambiente e a decoração pela beleza, exoticidade e durabilidade das flores. Além disso, pode ser utilizo também no paisagismo de áreas externas e jardins internos. As flores são atrativas para beija-flores e alguns insetos. Suas brácteas são comestíveis e constam da lista de ingredientes da culinária típica tailandesa.
Aspectos agronômicos: A produção de mudas é feita por divisão dos rizomas retirados das touceiras, em qualquer época do ano. A propagação por sementes também pode ser feita, embora menos comum. A produção comercial de mudas de alta qualidade é feita via micropropagação. O cultivo pode ser feito à pleno sol ou a meia-sombra. Não tolera temperaturas baixas, ideal entre 22 a 35°C. O solo deve ser rico em matéria orgânica, arejado e bem drenado, porém, sempre úmido. A planta inicia o florescimento entre 18 a 20 meses após o plantio e floresce o ano todo. É possível colher entre 60 a 90 hastes por touceira/ano.

Lindo arranjo de mesa de natal confeccionado com bastão-do-imperador.
Recomendação: Em Brasilia, um dos melhores lugares para conhecer um cultivo e comprar lindos batões-do-imperador é o Rancho Paraná (Link). O Rancho é um lugar belíssimo e tem um restaurante com uma deliciosa comida caseira aos finais de semana. Vale a visita!
Referência

VIANA, F.A.P.; CAMILLO, J.; JUNQUEIRA, A.M.R. Flores de corte de clima temperado. Floricultura no Distrito Federal, vol. 2. 2016.

As plantas do gênero Erythrina, conhecidas popularmente como mulungus ou corticeiras, me encantam. Já fiz diversas postagens anteriores aqui no site sobre elas (mulungu, mulungu-da-caatinga e o mulungu-coral). Estas plantas têm floradas lindas e exuberantes, sendo muito utilizadas em paisagismo e ornamentação. 

A corticeira-do-banhado não é tão conhecida da população no Brasil, mas é igualmente linda e vale a pena conhecer um pouco mais. As flores abertas têm coloração entre alaranjada e avermelhada, semelhante à crista de um galo, daí derivam os nomes científico (Erythrina cristagalli) e o nome popular eritrina-crista-de-galo. A espécie também é conhecida como mulungu, corticeira ou arvore-de-coral.

Mas não é só no Brasil que a planta se destaca, esta espécie é também considerada a flor nacional tanto da Argentina como do Uruguai, onde é chamada de ceibo, seibo, bucaré ou arbol de coral. Para os argentinos, o ceibo tem valor histórico e cultural, sendo considerada como planta símbolo da resistência dos índios Guaranis ao domínio espanhol, como conta a lenda de Anahí. 

Descrição botânica: Pertence à família Fabaceae, árvore com 6 a 10m de altura; tronco tortuoso e bastante ramificado; as folhas são compostas, trifolioladas, folíolos glabros com margens inteiras; os botões florais são alongados e as flores são campanuladas, tem coloração entre alaranjado e o vermelho; os frutos são tipo legume (vagem) com diversas sementes de cor acinzentada ou castanha.

Onde ocorre: A espécie é nativa mas não endêmica do Brasil, sendo encontrada também na Argentina e Uruguai. No Brasil ocorre na porção centro-sul do País, especialmente no Pampa do Rio Grande Sul, onde tem seu corte proibido por lei estadual. A espécie também pode ser encontrada naturalmente na Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal.

Usos: A corticeira-do-brejo, pela sua florada exuberante, porte e arquitetura da planta, tem forte apelo ornamental, sendo utilizada na arborização urbana e paisagismo de espaços abertos, associada ou não à presença de água. Seus ramos e folhas possuem propriedades medicinais, sendo utilizados na medicina popular como antimicrobiano. A planta possui importante função ecológica, fornecendo abrigo para plantas epífitas, além de fonte de alimento para pássaros e insetos.

Curiosidade: As imagens que ilustram esta postagem foram tiradas na entrada do Palácio do Itamaraty, em Brasília/DF. O local integra um conjunto de jardins projetados por Roberto Burle-Marx, um dos maiores paisagistas brasileiros, e cuja característica principal era o uso de espécies nativas em seus projetos de paisagismo. 


Aspectos agronômicos: A propagação pode ser feita por sementes ou, mais facilmente por meio de estacas de ramos. As plantas produzem poucas sementes, as quais também possuem dormência, dificultando a produção de mudas. A retirada de mini estacas herbáceas em plantas jovens ou brotações laterais, com menos de um ano de idade, é a forma mais fácil de produção de mudas, uma vez que estacas jovens enraízam com mais facilidade. O plantio deve ser feito em pleno sol, em solo fértil e com grande capacidade de retenção de água. As plantas crescem bem tanto em ambientes alagados quanto naqueles mais secos.


Referências

Erythrina in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: Link. Acesso em: 04 Jan. 2017.
GRATIERI-SOSSELLA, A. et al. Propagação da corticeira do banhado (Erythrina crista-galli L.) (Fabaceae) pelo processo de estaquia. Revista Árvore, 32(1), 163-171, 2008.
Wikipedia. Flor nacional da Argentina. 2016. Disponível em Link.
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