Dendê-africano (Elaeis guineensis Jacq.)

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       Quem vai passar férias na Bahia não pode deixar de experimentar a moqueca, o acarajé, o vatapá e uma porção de outras iguarias preparadas com azeite-de-dendê. Então vamos conhecer o dendê, palmeira que embora não seja nativa da flora brasileira, está intimamente ligada à história e a cultura do Brasil. A denominação genérica dendê é exclusivamente brasileira, em outros países a planta é mais conhecida como palma de óleo ou, em inglês, oil palm.
           As primeiras plantas de dendê foram trazidas para o Brasil pelos escravos africanos. Os primeiros cultivos (fundo de quintal), segundo relatos históricos, foram realizados nos estados da Bahia e Rio de Janeiro, próximos aos locais onde chegavam as embarcações trazendo os escravos vindos do Continente Africano. Atualmente, na costa sul do estado da Bahia, a planta está por toda parte integrando-se perfeitamente à bela paisagem regional.
Dendezais espontâneos (não cultivado) observados na região Sul da Bahia.

            Apesar de estar ligado a uma das partes mais cruéis da história do Brasil, o dendê é  um dos maiores símbolos da integração entre os povos do Brasil e da África, cuja influência pode ser notada nos diversos aspectos que compõe a sociedade brasileira atual, sobretudo, nas festas populares e na cultura alimentar.
           
Dendê-africano (Elaeis guineensis Jacq.)
Descrição botânica: Pertence à família Arecaceae e pode atingir até 15m de altura. Possui sistema radicular fasciculado, caule tipo estipe, não ramificado, coroado por um tufo de folhas na extremidade; as folhas, em número de 30-45, medem entre 5 a 9m e pesam até 8kg; o pecíolo mede cerca de 1,5m; os folíolos podem variar em número (250 a 350); a coloração da folhagem é verde-escuro e cada folha pode ficar aderida à planta-mãe por até 12 anos. Os frutos são arredondados, reunidos em cachos que podem pesar mais de 20kg; possuem inicialmente coloração preta, passando a alaranjado/avermelhado conforme avança a maturação; os frutos apresentam grande variedade de formas e tamanhos, sendo compostos basicamente pela polpa (alaranjada), endocarpo rígido e amêndoas (entre 1 a 4/fruto). Os diferentes tipos de frutos identificam três variedades (tipos) nesta espécie: dura, pisifera e tenera.
            No Brasil existem duas espécies do gênero Elaeis: o Elaeis guineensis (dendê-africano) e o Elaeis oleifera (dendê-americano), esta última assunto do próximo post deste blog.
 
Cachos e frutos maduros de dendê. Da polpa alaranjada extrai-se o azeite de dendê e das amêndoas, obtêm-se o óleo de palmiste.
Usos: Extração de óleo e ornamentação. No Brasil, o azeite de dendê é uma iguaria da culinária regional, integrando diversos pratos da culinária bahiana (caruru, vatapá, acarajé, bobó-de-camarão, abará, entre outros). Consumido in natura, o óleo é uma boa fonte de vitamina A e ácido oleico. O óleo também tem importância religiosa, utilizado em rituais do candomblé. A conformação arredondada da copa e a bela folhagem, torna a planta propicia também para a ornamentação urbana em áreas amplas.
Azeite de dendê.
  A planta é uma das oleaginosas mais importantes do mundo e fornece dois tipos de óleo muito presentes no nosso dia-a-dia: a polpa dos frutos fornece o óleo de coloração alaranjada - que no Brasil é chamado de azeite de dendê - mas é mais conhecido mundialmente como óleo de palma (palm oil). Das amêndoas se extrai um óleo mais refinado de cor amarelo clara, amplamente empregado na indústria farmacêutica, cosmética e de produtos de higiene e limpeza: o óleo de palmiste (palm kernel oil). O óleo de palma passa pelo mesmo processo de refino aplicado ao óleo de soja e, posteriormente, pode ser utilizado como óleo de mesa. Este uso não é muito comum no Brasil, mas é largamente utilizado na maioria dos países africanos, além da Malásia e Indonésia, maiores produtores mundiais na atualidade.
            No Brasil, a forma de produção do óleo determina produtos e usos diferenciados: o azeite de dendê encontrado nas feiras e mercados (de coloração alaranjada), é extraído de forma totalmente artesanal e é utilizado com fins alimentícios e ritualístico. Já o óleo de palma e o óleo de palmiste são produtos dos cultivos comerciais, passam por diferentes formas de processamento (refino) e são utilizados em escala industrial. Embora as denominações genéricas sugiram coisas diferentes, todos os óleos tem origem na mesma palmeira: o dendezeiro.
           
Diferentes formatos de frutos identificados no
dendê-africano cultivado no Brasil.



Aspectos agronômicos: A propagação é feita por meio de sementes, uma vez que a palmeira não perfilha (não produz brotações). No entanto, é recomendável adquirir sementes pré-germinadas ou comprar as mudas de viveiristas especializados, pois as sementes possuem dormência e o tratamento para facilitar a germinação é um tanto complicado. O cultivo é feito em solo leve, bem drenado e fértil. A palmeira exige chuvas abundantes e bem distribuídas ao longo do ano, temperaturas médias acima de 24°C e umidade do ar acima de 70%, condições que limitam o cultivo comercial do dendezeiro, apenas ao Sul da Bahia e Região Norte do Brasil. No entanto, a palmeira vegeta em diferentes climas, sendo cultivada como planta ornamental também em outras regiões do Brasil.
             




Viveiro de mudas de dendezeiro mantido pela Embrapa Amazônia Ocidental, Rio Preto da Eva-AM.

Curiosidades: O cultivo do dendezeiro expandiu-se pelo Brasil na última década, principalmente, como matéria-prima para a produção do biodiesel. Além disso, seu cultivo tem sido difundido como alternativa de desenvolvimento socioeconômico regional e como forma de recuperação e aproveitamento de áreas degradadas da região amazônica. As pesquisas e cultivos comerciais do dendezeiro no Brasil, foram iniciadas pela Embrapa na década de 1970, cujo trabalho, culminou com a formação de um dos maiores bancos de germoplasma da cultura no mundo, estabelecido no município de Rio Preto da Eva-AM. Atualmente, os cultivos comerciais estão concentrados no estado do Pará, que é o maior produtor nacional.
 
Bancos de germoplasma de dendê mantidos pela Embrapa. A) Banco de germoplasma da Embrapa Amazônia Ocidental, Rio Preto da Eva - AM; B) Coleção de trabalho da Embrapa Cerrados, Planaltina - DF. 
            Independente de discussões ideológicas e ambientais (muitas das quais participo e exponho minhas convicções), o fato é que o dendezeiro fez parte da história e da construção da identidade cultural brasileira. É uma planta belíssima e muito versátil, que aos poucos torna-se uma fonte de renda importante para a agricultura nacional.  Então, parafraseando uma matéria da Embrapa Agroenergia: Palmas para o dendê!


Referência bibliográfica
CAMILLO, J. Diversidade genética, conservação in vitro de germoplasma e analise do conteúdo de DNA nuclear em palma de óleo {Elaeis guineensis Jacq. e Elaeis oleifera (Kunth) Cortés}. Tese de doutorado – Universidade de Brasília/Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária, 2012. 137 p.: il. Link

Um comentário:

  1. Realmente essa palmeira possui um valor econômico apreciável. No entanto, com a disseminação necessária do princípio da sustentabilidade (triple botton line) não se deve cultivar vegetais que não contribuam também para a complexificação dos ecossistemas. O corte ou queimada das espécies nativas e a imediata destruição das cadeias alimentares naturais são crimes ambientais que estão sendo incentivados em áreas tropicais para plantio dessa palmeira. Não basta atender somente as questões econômicas e sociais, deixando de lado a questão ambiental. A ganância econômica está destruindo florestas nativas e exterminando espécies frágeis que as sustentam. As florestas não são conjunto de vegetais como apregoam por aí. A fauna, os rios e o vento são indispensáveis para manter um ecossistema saudável. Mesmo que se cultivasse espécies tropicais do BRasil, não se justificaria o extermínio de milhares de outras que contribuem para os diversos serviços ecossistêmicos. A utilidade do todo deve ser maior do que a utilidade das partes.

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