Ora-pro-nóbis (Pereskia aculeata Mill.)

by 11/22/2020 03:31:00 PM 0 comentários

 

Foto: Dijalma Barbosa da Silva (Acervo Iniciativa Plantas para o Futuro)

Quando se fala em PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), a ora-pro-nóbis é uma das espécies que as pessoas mais conhecem. Seu nome tem origem no latim e significa “rogai por nós”. Os nomes populares são os mais diversos e variam conforme a região: azedinha, cipó-santo, espinho-preto, espinho-de-santo-Antônio, groselha-americana, lobrobó, lôbolôbo, surucucu, orabrobó, entre outros. Muitos autores citam a ora-pro-nóbis como um super alimento ou a cura para diversos males, porém, ainda existe muita desinformação a respeito. À parte suas propriedades nutricionais e medicinais, prefiro consumir a ora-pro-nóbis porque as folhas são deliciosas e, de fato, muito nutritivas. Além disso, é uma verdura fácil de cultivar, produz o ano inteiro e, para mim o aspecto mais importante, é uma planta com muita história e sabor envolvidos em seus pratos.


Descrição botânica: Planta trepadeira perene, da família Cactaceae. Os caules são finos e podem medir até 10 m de comprimento, com espinhos distribuídos por toda a extensão. As são folhas simples e de coloração verde claro, quando novas, e verde escuro quando adultas. As flores são brancas, numerosas, de odor agradável e medem cerca de 4 cm de diâmetro. Os frutos são verdes quando imaturos e alaranjados quando maduros. A floração mais intensa ocorre nos meses de janeiro a abril. 

Observação importante: Sabe-se que esta espécie apresenta alguma variabilidade de características botânicas, especialmente na coloração das folhas, que pode se acentuar conforme a região e o clima. Embora o gênero Pereskia apresente espécies com folhas muito parecidas, as plantas comestíveis são aquelas que produzem flores brancas com miolo alaranjado e folhas menores. Na dúvida quanto à correta identificação da planta, busque ajuda de um especialista da área. Nunca consuma plantas que você não tem certeza da identificação. 


Onde ocorre: Nativa da flora do Brasil, ocorre naturalmente na maioria dos estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul, além do estado de Goiás. Habita os biomas Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica. Não é exclusiva do Brasil, sendo encontrada em boa parte dos países da América Tropical. 

Usos: Suas folhas jovens e tenras são utilizadas como alimento. Estudos da Embrapa mostram que as folhas apresentam teor de proteína bruta superior a 20%, o que justifica seu uso como alimento rico em proteínas. As folhas podem ser consumidas cruas, na forma de salada, ou como ingrediente de refogados, tortas e farinha para a elaboração de massas variadas. É uma excelente fonte de vitaminas, minerais e aminoácidos e por isso, considerada um alimento funcional. A farinha, obtida das folhas desidratadas e trituradas, pode entrar como complemento na fabricação do macarrão e na panificação, elevando os teores de proteínas e cinzas e tornando o prato mais nutritivo. Os frutos também podem ser consumidos in natura, são ricos em carotenoides e vitamina A. Na medicina popular a planta é utilizada como emoliente e cicatrizante. A planta adulta apresenta formato bastante ornamental, podendo ser utilizada em cercas vivas ou barreira de quebra vento. 


A ora-pro-nóbis é bastante utilizada na culinária de Minas Gerais, já faz parte da cultura local e está presente em diversas preparações. Anualmente, a cidade histórica de Sabará sedia o Festival da Ora-pro-nóbis, onde a hortaliça é a grande estrela. A cada ano o festival tem recebido mais destaque, com a presença de chefes renomados demonstrando suas criações exclusivas ao lado de pratos já muito tradicionais, como a carne com ora-pro-nóbis, croquetes, pasteis, coxinhas, quiches, tortas e até sorvetes. 


Mas o Sul também tem seus encantos com a ora-pro-nóbis! Em uma de minhas viagens divulgando a biodiversidade brasileira, tive a grata satisfação de experimentar a culinária tradicional do Rio Grande do Sul, uma parte importante que eu pouco conhecia. Em visita à Porto Alegre, na feirinha da Redenção, experimentei alguns pratos deliciosos, como o pastel de ricota com recheio de patê de ora-pro-nóbis, o croquete de carne com folhas refogadas e o mais surpreendente sabor foi o pão de beterraba com patê verde de ora-pro-nóbis: todos muito delicados e saborosos.


Aspectos agronômicos:
De fácil propagação por estacas (mais usual) ou por sementes. O cultivo deve ser feito em pleno sol, com rega abundante. Plantas cultivadas na sombra ficam mais alongadas (estioladas) e produzem menos folhas e flores, algumas nem florescem. Embora a planta suporte bem a seca, produz mais folhas quando bem irrigada e adubada com bastante matéria orgânica. As plantas apresentam crescimento rápido e vigoroso, baixa incidência de pragas e doenças e adaptabilidade a solos e climas variados. Na horta ou pomar, o plantio das mudas deve ser feito, preferencialmente, no início das chuvas, para o bom estabelecimento das plantas. Para quem não tem muito espaço, a planta se adapta bem ao cultivo em vaso, sendo possível mantê-la em varandas de apartamentos, desde que haja boa insolação. A colheita das folhas se inicia entre 60 e 90 dias após o plantio, preferindo-se sempre as folhas mais jovens e tenras. Em pequenos ambientes ou mesmo áreas urbanas maiores, é importante atentar para o fato de que as plantas produzem grande quantidade de espinhos e exige cuidados ao manejar. O local de plantio deve ficar afastado de áreas de circulação de pessoas (especialmente as crianças) ou animais domésticos, porque os espinhos podem causar ferimentos ao menor toque. 


Curiosidades: Esta espécie tem sido considerada como uma hortaliça não convencional, ou seja, planta com distribuição limitada à determinada região, que não faz parte de uma cadeia produtiva como as hortaliças convencionais, mas que exerce grande influência na alimentação e na cultura de populações tradicionais. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em 2010 através do lançamento do Manual de Hortaliças Não-Convencionais, vem disponibilizando informações e estimulando o consumo e plantio da ora-pro-nóbis nas diversas regiões do Brasil. Informações mais detalhadas sobre plantio e tratos culturais é possível se obter no manual “Cultivo de Ora-pro-nóbis (Pereskia) em Plantio Adensado sob Manejo de Colheitas Sucessivas”, de autoria do pesquisador Nuno Madeira et al. (2016), e disponível gratuitamente na biblioteca virtual da Embrapa. 

Bibliografia recomendada 

AGOSTINI-COSTA, T.S. et al. "Carotenoids profile and total polyphenols in fruits of Pereskia aculeata Miller." Revista Brasileira de Fruticultura, 34(1), 234-238, 2012. 

CEMBROLA, C.T. et al. Pereskia aculeata (Ora-pro-nobis). In: VIEIRA, R. F.; CAMILLO, J.; CORADIN, L. (Ed.). Espécies nativas da flora brasileira de valor econômico atual ou potencial: plantas para o futuro: Região Centro-Oeste. 2018. 

QUEIROZ, C.R.A.A. Cultivo e composição química de Ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Mill.) sob déficit hídrico intermitente no solo. Tese. Jaboticabal, 2012. 144 f. 

ROCHA, D.R.C., et al. Macarrão adicionado de ora-pro-nobis (Pereskia aculeata Miller) desidratado." Alimentos e Nutrição Araraquara, 19(4), 459-465, 2009. 

TAKEITI, C.Y. et al. Nutritive evaluation of a non-conventional leafy vegetable (Pereskia aculeata Miller). International journal of food sciences and nutrition, 60(S1), 148-160, 2009. 

ZAPPI, D.; TAYLOR, N.P. Cactaceae in Flora do Brasil 2020 em construção. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. <http://floradobrasil.jbrj.gov.br/reflora/floradobrasil/FB1633>

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